O clube mais cordial (nem que para isso tenha de perder)

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Esta semana devia estar enervado, com vontade de insultar todos os meus amigos e colegas, adeptos do adversário do dérbi de sexta-feira passada, mandar-lhes à cara as vitórias que tivemos em jogos anteriores, mas não estou. Estou apenas triste. Triste porque não temos uma equipa capaz de lutar pelo título, ou por títulos, porque 19 ou 12 pontos já nem nos dá moral sequer para as picardias sadias com os nossos colegas, adeptos dos candidatos.

O que senti mais falta, nos dias que antecederam este dérbi, foi a adrenalina de ir jogar com um rival, a possibilidade de os ultrapassar na tabela classificativa, de manter acesa a luta pelo título. Bem sei que nas últimas décadas poucos foram os anos que pudemos experimentar esse sentimento, no entanto tivemos uma época, de muito má memória segundo a grande maioria dos sócios leoninos, em que o pudemos experimentar, e eu adorava.

O que senti nos momentos anteriores ao dérbi foi apenas resignação. Porque estávamos já bem longe dos primeiros lugares, mas essencialmente porque sentia que só uma má noite do adversário, ou uma entrada sobranceira dos mesmos no jogo, nos daria possibilidade de discutir a partida.

A verdade é que o fizemos, e tivemos momentos em que estivemos em alta. No entanto, com a experiência dos muitos anos de dérbis, fiquei com a sensação de que a nossa gritante ineficácia ditaria a derrota, uma vez que o adversário sempre precisou de jogar menos que nós para resolver os jogos.

Bem sei que muitos poderão dizer que esse adversário sempre é beneficiado pelos árbitros, e demais instâncias do futebol, e que essa décalage entre os dois se deve também aos vários anos em que isso se verificou, no entanto, neste jogo, a única diferença foi mesmo a eficácia.

O nosso adversário entrou em campo consciente da superioridade que tem sobre a nossa equipa, e também a saber que o seu adversário mais direto acabara de perder o seu jogo. Com isto, as águias podiam jogar com três resultados. Porque, convenhamos, mesmo que perdessem o jogo continuariam com uma vantagem segura sobre o segundo, e ganhar-nos já não lhes dá aquela adrenalina causada pela constante incerteza no resultado.

Porque, sendo realista, a vantagem está do lado deles no confronto direto. Senão vejamos: na última década, o nosso adversário tem 16 vitórias contra as sete do Sporting, tendo havido pelo meio sete empates. A título de curiosidade deixo apenas a indicação que das sete vitórias leoninas, quatro foram no período de meados de 2013 até meados de 2018 (não sei se isso vos diz alguma coisa), e que nesse mesmo período o rival apenas nos ganhou quatro vezes (o que, em 16 dá uma boa percentagem).

Ou seja, tirando esse período anormal do nosso clube, em que conseguíamos lutar realmente com os dois habituais candidatos ao título, jogar com o Sporting já não cria nos rivais mais diretos aquela ansiedade e desconforto. Sabem que, a jogar melhor ou pior, irão ganhar.

Acham que vale a pena mudar isso novamente, ou é mais tranquilo estarmos no descanso do nosso lar, sem stresses, sem ansiedades, sem aquela adrenalina de ter de ganhar, sem posts, comunicados, ou entrevistas a incomodar constantemente o poder instalado? Assim estamos melhores, não acham?

Se acham que se deve mudar alguma coisa, deveria mudar-se a política de contratações, isto porque pedir para mudar a direção não vale a pena uma vez que já se percebeu que o que lá está é mais um “Paulo das feiras” agarrado ao poleiro, e que nem assinaturas o de lá tiram. E falo em contratações porque evidentemente temos um plantel totalmente desequilibrado apesar da nossa estrutura ter começado a preparar esta época na temporada passada mais ou menos por esta altura.

Então, de momento temos dois avançados de raiz, e digo avançados porque não quero arriscar chamar a nenhum deles ponta de lança. Depois temos um meio campo que é lento a subir e acompanhar os avançados no processo ofensivo, e lento na pressão em momentos defensivos. E percebam que sem um meio campo bom nestes dois momentos, de pouco serve ter uma boa defesa ou um bom ataque, porque sem meio campo forte as bolas só chegam ao avançado com pontapé longo, que é ineficaz porque não chegam os médios para o apoio, e ao defender também não podemos pedir que os centrais venham pressionar o jogador que deveria ser do médio porque fará falta mais atrás, o que desposiciona toda a defesa.

É o motor do meio campo do Sporting e, consequentemente, da própria equipa. E se ele faltar?
Fonte: Carlos Silva / Bola na Rede

Neste momento só temos um médio que pressiona no momento defensivo, e tenta chegar no apoio aos avançados em momento ofensivo. Bruno Fernandes passa o jogo a correr atrás e à frente, e por isso se torna uma peça tão importante. Mas esse não devia ser o papel dele. Devia sim, pressionar, ou ajudar a pressionar os defensas adversários no momento da sua saída a jogar, e poder estar mais perto dos avançados para definir com golo ou no último passe, mas sem a necessidade de vir junto aos centrais fazer compensações, pelo menos constantemente. Isto porque temos um 6 que não pressiona, um 8 que também não o faz, nem é rápido e/ou vertical no transporte de jogo (só me lembro do Mathieu a arrancar por ali fora com a bola para o ataque), e lentos na compensação à defesa.

Uma vez que temos essa dificuldade no meio campo, e com a iminente saída do único médio que é, ao mesmo tempo, melhor médio e melhor avançado, qual acham ser o objectivo desta época desportiva para o Sporting? Por estranho que possa parecer, eu não apostaria em contratar jogadores de qualidade duvidosa, e sim em equilibrar a equipa com jogadores da casa. Isto daria a possibilidade de dar experiência de primeira liga e Liga Europa a jovens que podem vir a fazer-nos falta na próxima época.

Sim, estou a falar já da próxima época, porque conscientemente sabemos que não conseguiremos mais que o terceiro lugar no campeonato e não iremos muito longe na Liga Europa.

É mais uma época perdida, e por isso temos de pensar de forma concreta em criar uma equipa que possa ser competitiva, com jogadores de qualidade, rapidez de processos, intensos, sem termos que contratar apenas para ajudar algum amigo a colocar este ou aquele jogador. Se fizerem isso, e pensarem no clube em vez darem prioridade ao volume das suas carteiras, certamente poderemos pensar estar mais perto dos 2 candidatos e menos junto aos restantes 15.

Bem sei que nós somos verdes, e que verde é esperança, e que a esperança é a última a morrer, e tudo isso, mas para além de podermos ficar sem o único jogador dinamizador do jogo do Sporting, teremos ainda que, na segunda volta, ir jogar a casa dos dois candidatos e dos nossos mais diretos adversários na luta pelo terceiro lugar.

De qualquer forma vamos acreditar que uma (ou mais) destas coisas vai acontecer e se dá um milagre:

– A direção demite-se/é demitida (se for necessário, chamem aquele senhor que queria bater no presidente em 2018);

– A direção torna-se competente e contrata jogadores que se mostrem os novos Ronaldos/Messis (só nesse caso valerá a pena contratar);

– Wendel, Doumbia e Jesé mostram que estamos enganados;

– Finalmente conseguem prender Bruno de Carvalho e fica tudo bem no Sporting;

– Fica provado que afinal foi tudo culpa de Bruno de Carvalho, e essa desculpa poderá servir por mais uma década para resultados menos positivos que possam aparecer;

– As duas equipas que estão na frente do campeonato (mais o Famalicão, o Braga, o Guimarães e o Rio Ave) têm um surto gripal tão forte que não lhes permita jogar mais esta época;

– As claques desistem de apoiar o clube para finalmente a equipa ter paz de espírito e poder jogar o que sabe;

– Ou chegar um daqueles grupos que tem o nome de foguetão (AKA Vaivém espacial) e compre o clube.

Se não acontecer nada disto, é esperar confortavelmente, sem preocupações pelo final do campeonato, e ver onde isso nos deixa. Se ficarmos numa situação desagradável, pelo menos já saberemos de quem é a culpa.

Mas olhem, para o que resta do campeonato, se não encontrarem nenhum outro objectivo por que lutar, pelo menos honrem a camisola que vestem, e lutem pelo sucesso de quem vos paga milhões, pode ser? Obrigado.

Com tudo isto, com certeza dirão que não sou Sportinguista mas apenas um Brunista. Devo dizer que se gostar de uma equipa sempre nas finais, a disputar o primeiro lugar do campeonato, a deixar os adversários desconfortáveis com o Sporting, a deixar o poder instalado em alvoroço, a ter uma voz ativa junto da UEFA e FIFA, tendo a certeza que nenhum outro clube, fundo ou empresário mandará mais que os sócios, então sou Brunista. Mas eu diria que mais pareço apenas um Sportinguista a querer um clube que ganhe. (“Ah mas no tempo do gordo também não ganhámos”. Mas fica mais provável eventualmente ganhar estando numa final ou a 1 e 2 pontos do primeiro do que não chegando a finais e estando a 19 pontos do primeiro, ou não?).

Já sei. Queremos é um clube que saiba estar, educado, que saiba receber, com etiqueta… Então não fazem mal os 19 pontos de atraso. Façam favor, passem, façam favor de se servir.

Nota: Escrevo sobre o campeonato após mais uma derrota na taça da liga por achar que esta competição nunca iria salvar uma época. Pelo menos se ainda nos consideramos um clube grande. Não era importante quando a ganhámos e não o é agora. No entanto, também essa derrota serve para confirmar e reforçar tudo o que aqui enumero.

Foto de Capa: Carlos Silva/Bola na Rede

Artigo revisto por Diogo Teixeira

Nuno Almeida
Nuno Almeidahttp://www.bolanarede.pt
Nascido no seio de uma família adepta de um clube rival, criou ligação ao Sporting através de amigos. Ainda que de um meio rural, onde era muito difícil ver jogos ao vivo do clube de coração, e em tempos de menos pujança futebolística, a vontade de ser Sporting foi crescendo, passando a defender com garras e dentes o Sporting Clube de Portugal.

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