O futebol que destrói o nosso imaginário

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Nós, Sportinguistas muitas vezes nos damos conta que há equipas/jogadores que se empenham muito mais quando enfrentam o clube de Alvalade que quando enfrentam outros emblemas do topo da tabela. Muitos dirão que a culpa é do Sporting, por não impor o respeito que outros impõem, deixando assim que os adversários sintam que podem lutar por algo mais que o simples “pontinho”. Outros dirão que uns jogam apenas o que a equipa adversária permite, e o Sporting não tem a consistência de jogo para se impor de forma clara contra qualquer adversário, o que vem entroncar um pouco no ponto anterior.

No entanto eu já vi grandes equipas do Sporting a jogar futebol de muita qualidade e chegar ao fim com o mesmo resultado que tantas outras, ou seja, em segundo, terceiro, quarto ou mesmo sétimo. A verdade é que tenha o Sporting qualidade ou não, tem sempre mais dificuldade em ultrapassar qualquer adversário, quando comparando com os outros “grandes” do campeonato português. Devido a estas posturas tão dispares, surgem depois as teorias de possíveis (com alguns depoimentos em tribunal a confirmar alguns casos) de aliciamentos a jogadores, com pagamentos de prémios, regularização de salários, ou os tais pagamentos para perder ou ganhar. Então toda a gente aponta o dedo ao do lado, tentando culpá-lo e assim retirar a sua parte de culpa. Porque a culpa não é dos jogadores. Ou melhor, o jogador é quem menos culpa tem, a não ser quando se deixa aliciar, ainda que muitas vezes, “obrigado” pelas dificuldades financeiras em que vive.

Fosse este um futebol de igualdades, justo, sem esquemas, e talvez não houvesse espaço para este tipo de manobras de bastidores, que tanto abundam, principalmente no futebol português. Em primeiro culpo o governo, que vive de votos. Como os grandes clubes têm a maioria da população votante a apoiá-los, e estes permitem que o seu “fanatismo” molde o seu discernimento no momento de escolher quem irá gerir o seu país e as suas vidas, os governantes preferem deixar o futebol em autogestão, sem que possam ser implicados em decisões de qualquer espécie, contra este ou aquele, que lhes possa custar votos depois.

Com essa autogestão, cabe à Federação e Liga tentarem que os clubes vivam dentro das leis. O problema é que as leis do futebol não são exactamente as mesmas das descritas nos códigos Civil, penal, ou de sociedades comerciais. E nem a justiça é aplicada com os mesmos preceitos que outros quadrantes da sociedade. Isso acontece porque as leis do futebol são escritas e aprovadas pelos mesmos clubes que supostamente sofrem as condicionantes e penalizações. Mas vendo bem, na Assembleia da República são também os políticos a aprovar leis com as quais depois são julgados, e por isso sempre há uma escapatória deixada para ser aproveitada em momento oportuno. No fundo, o futebol é apenas um reflexo de como é gerido o país, porque o futebol é também política, apesar de, como escrevi antes, pública e oficialmente eles não quererem tomar uma posição.

Essas leis aprovadas pelos clubes permitem que Sociedades Desportivas falidas, sem capacidade de pagar ordenados, ano após ano, possam competir e inscrever jogadores, como se nada se passasse. Depois vêm presidentes de sindicatos e outros, publicamente, qual apoiante de boas práticas e costumes, colocar-se do lado dos jogadores, que não recebem ordenados. Mas até isso é pensado por quem tem mais poder.

Porque ao termos clubes falidos, sem capacidade financeira, há maior facilidade, por parte de quem quer corromper, poder chegar a um jogador com ordenados em atraso e ter maiores garantias de que o mesmo aceite as suas “ofertas”. Costuma-se dizer que a oportunidade faz o ladrão e estas oportunidades são criadas por quem depois se pode servir delas.

Os principais problemas do futebol português estão fora das quatro linhas, porém acabam sempre por prejudicar o que acontece dentro delas
Fonte: Sporting CP

Se quem manda no futebol quisesse mesmo ter um campeonato justo, competitivo, e com menos casos, teria apenas de obrigar os clubes a cumprir com as suas obrigações financeiras, sendo que, para isso, tenha também de criar condições para que o fosso entre grandes e pequenos seja menor, e não continue a aumentar. (Ainda gostava de ver alguns transportadores de “malas” que se movimentam no futebol português a tentar fazer essas jogadas no futebol inglês, por exemplo. Os jogadores iam ouvir o montante, rir-se na cara dele, e em vez de aceitarem ainda lhe ofereciam o dobro para o ajudar no caminho de volta, por conta de despesas de hotel e passagens aéreas, por exemplo).

O problema é que quem manda são os clubes. “Ah, mas se são os clubes, devem ser os pequenos a impor-se”. Pois, por isso surgiu aquela “geringonça” do “G15”, mas a perceber por quem andava a encabeçar o mesmo, pareceu apenas mais um a tentar ganhar vantagem sobre os outros. E se assim não for, porque razão tal grupo desapareceu? E tomou alguma decisão relevante? Não me parece. E depois, segundo sei, os chamados “grandes” têm poder de veto (tipo NATO), pelo que nada se decide sem que esses estejam de acordo.

Assim sendo, se estamos à espera que seja o futebol a regulamentar-se para melhorar, bem podem esperar sentados. No fundo, todos se servem do futebol, mas ninguém está interessado em servir o futebol, isto até perceberem que a sua “galinha dos ovos de ouro” está a morrer. Depois pode ser já tarde.

Quanto aos jogadores, há os que aceitam aliciamentos por falta de valores, sejam eles monetários ou de formação pessoal e há os que já se confessam desiludidos com o futebol em que vivem. Pois eu também já estou desiludido com o futebol há muito, e não fosse o amor que tenho pela “bola”, por ver o meu clube jogar, e já teria deixado de acompanhar este desporto rodeado de interesses, políticas e crime. E eles aproveitam-se desse amor… enquanto nós deixarmos.

Foto de Capa: Sporting CP

artigo revisto por: Ana Ferreira

Nuno Almeida
Nuno Almeidahttp://www.bolanarede.pt
Nascido no seio de uma família adepta de um clube rival, criou ligação ao Sporting através de amigos. Ainda que de um meio rural, onde era muito difícil ver jogos ao vivo do clube de coração, e em tempos de menos pujança futebolística, a vontade de ser Sporting foi crescendo, passando a defender com garras e dentes o Sporting Clube de Portugal.

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