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Enceto a narrativa evidenciando o desejo pessoal de querer (mas nunca ter conseguido) entender o porquê de alguém se enervar com a facilidade com que o ser humano contrai as pálpebras. Creio que ninguém se dá ao trabalho de teatralizar discussões fugazes ou de interpretar cada sketch no qual o John Cleese, em Monty Phyton Flying Circus, é subjugado pelo acionar dos botões responsáveis pelos compartimentos que enfurecem uma pessoa ao ponto de a fazer expelir saliva em quantidades abruptas.

O famoso vídeo do comentador desportivo do Futebol Clube do Porto, na TVI24, Manuel Serrão, é aqui citado, embora numa componente distinta: “Diga-me uma, uma, diga-me uma pessoa que resida no globo que nunca tivesse sofrido de raiva momentânea, diga-me uma, uma!” (suplico pelo perdão do leitor dado não estar apto a reproduzir os brados histéricos e o “acidente cardiovascular” aquando do momento que colocou Portugal a rir à gargalhada). Factual e eticamente, o português comum age mal: nos momentos em que a raiva o doma, considera que a razão o suporta, independentemente da argumentação; quando se vê defronte de uma pessoa enraivecida por algo, considera anormal a sua atitude e reclama pela razão de igual forma.

Sou o único adepto que revê Marcos Acuña nos termos e condições do primeiro exemplo? Ou estarei num estado de alucinação avançado?

O internacional argentino não tem somente os nervos à flor da pele: reuniu as agruras, as desilusões e as tristezas que ocorreram até então na sua vida e, em várias exibições, libertou-as como de um brado de revolta se tratasse, de uma repetição do grito do Ipiranga efetuado em Zapala, na data do seu nascimento. Qualquer decisão do árbitro responsável por determinada partida culmina em protestos sucessivos, em satisfações solicitadas insistentemente e em ameaças implícitas que fulminam o adversário e o amedrontam para o decorrer do jogo. Imaginar alguém fora de si defronte do médio verde e branco e, este último manter uma postura correta, constitui um cenário repleto de utopia.

Ano após ano, Acuña é sempre um dos mais regulares e imprescindíveis no onze leonino
Fonte: Carlos Silva / Bola na Rede

A equipa ressente-se frequentemente pelo borbulhar incessante do espírito sul-americano. Os períodos de incandescência alternam entre o fervilhar brando e impetuoso. O adversário aproveita a chama acesa e, munido do gasóleo característico dos vocábulos, incendeia o rastilho até à explosão. Não é necessário inteligência ou astúcia, basta coragem para iniciar uma picardia que, na grande maioria das vezes, surte o efeito desejado.

Apesar de adepto e de querer, maioritariamente, o sucesso desportivo do Sporting Clube de Portugal, enalteço a minha preocupação perante o estado de saúde dos seus atletas. Preenche-me observar a disputa de cada bola com a máxima dedicação, a defesa incondicional do clube com a devoção de um eclesiástico aquando da propagação da virgindade de Maria. Incutir “receio” no adversário, antes do começo de um jogo, é a tática que alicerça um mind game antigo e, nessa prova, o nove leonino passou com total distinção. Sente o clube, respira-o e, no naufrágio, não o abandonou: deu o corpo aos ataques piratas e uma lição de humildade aos que zarparam. Só aí, já se mostra mais prestável comparativamente a quem nem com bengala se aguenta no campo. Contudo, parafraseando o provérbio, “o que é demais, é erro”!

Talvez a meditação semanal ajudasse no autocontrolo. Seria, no mínimo, engraçado que Acuña fosse a personagem zen no meio do rebuliço que aprisiona a instituição. Mas, como no Sporting não há impossíveis…

Foto de Capa: Bola na Rede

Romão Rodrigues
Romão Rodrigueshttp://www.bolanarede.pt
Em primeira mão, a informação que considera útil: cruza pensamentos, cabeceia análises sobre futebol e tenta marcar opiniões sobre o universo que o rege. Depois, o que considera acessório: Romão Rodrigues, estudante universitário e apaixonado pelas Letras.                                                                                                                                                 O Romão escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

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