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Não conheço ninguém com tanto medo de um animal que subsiste apenas na psique humana como os sportinguistas. Perdoem-me a sinceridade, mas restava uma espinha a arranhar a minha garganta e pretendia, ao máximo, expulsá-la. A sensação, como bem devem saber, é de puro desespero. Refiro-me, claro está, à efígie de um dragão. Não conheço os contornos de toda este processo de bater o dente – que creio ter início aquando da eleição de Jorge Nuno Pinto da Costa – mas considero-o disparatado.
Em pouco mais de duas dezenas de anos, sempre que recordo as visitas do Sporting CP ao Estádio do Dragão, duas locuções assombram, de imediato, o meu pensamento: o pânico sentido aquando do pisar do relvado e o semblante de intranquilidade erigido pela maioria dos jogadores que envergaram a listada verde e branca. As razões variam consoante os múltiplos intervenientes no espetáculo. Rememorar as principais peripécias ocorridas quer no Estádio das Antas quer no reduto atual do FC Porto seria monótono, não concordam?
Contudo, na temporada transata, atestei a veracidade da expressão “mudança de chip”. Apesar da divisão de pontos, a equipa do Sporting CP portou-se como isso mesmo: um grupo transformado numa individualidade, uma extensão corporal do apoio oriundo das bancadas, uma família que quer assegurar as melhores condições vitais para os seus. Onde ia um, iam todos. Para onde quer que fosse. E, embora participasse numa das páginas mais negras do futebol português, saiu como já não saía há algum tempo: de cabeça erguida.
O Clássico sinaliza o terceiro assalto dos 34 que compõem a prova. Por essa razão, trago cinco histórias já conhecidas e exemplos sintomáticos daquilo que um Sporting CP unido e combativo pode urdir no reduto de um dos maiores rivais.
5. FC Porto 2-2 Sporting CP (2001/2002)
Foi do guaraná e não só. O penúltimo título teve como figura de destaque Mário Jardel, antigo avançado… do FC Porto. À 18ª jornada, leões e dragões mediram forças e partilharam honras. Jorge Andrade adiantou o anfitrião, Pedro Barbosa abriu o livro e empatou, Super Mário converteu a segunda grande penalidade da conta pessoal (falhou a primeira aos dez minutos) e Deco igualou a partida já na segunda metade.
O empate, face às circunstâncias, soube a vitória. O Sporting CP findou a partida com oito (!) jogadores por expulsão dos dois autores dos tentos leoninos e ainda de Paulo Bento. O entretenimento, a incerteza no marcador, a paulada e a picardia compareceram à festa e divertiram-se à brava. Um espírito tão solidário assim só poderia conhecer o travo do festejo no verde maio.
4. FC Porto 0-1 Sporting CP (2006/2007)
A primeira parte foi assinalada pelo equilíbrio e pelo encaixe quase perfeito entre as duas formações, não fosse o ligeiro ascendente do Sporting CP na partida. De um lado, cintilava Ricardo Quaresma. Do outro, eclodia Nani. João Moutinho ainda nem sonhava em relação às reservas que o futuro lhe iria trazer.
Rodrigo Tello, à passagem do minuto 71, executou um livre direto de forma exemplar e bateu a baliza à guarda de Hélton, sentenciando o resultado. À 22ª jornada, o campeonato estava ao rubro e os três grandes lutavam com diferenças residuais entre si.
3. FC Porto 1- 3 Sporting CP (2014/2015)
Antes da glória diante do SC Braga numa das finais mais emocionantes da Taça de Portugal, o Sporting CP ainda necessitou de contornar o caminho sinuoso que ia dar ao Estádio do Dragão. Aos 31’, Iván Marcano, central que teimava em não deixar Freddy Montero sossegado, foi atraído para a emboscada do cruzamento de Jhonathan Silva e fez autogolo. Na resposta quase imediata, Quintero furou a defesa leonina ainda no seu meio-campo, isolou Jackson Martinez e este igualou a partida (35’).
Volvidos quatro minutos, Maicon comprometeu o equilíbrio e Casemiro ajudou à festa: o médio fez um mau passe, dispôs a bola na frente de Montero que a intercetou para Nani; o extremo ajeitou o esférico e, de fora de área, enviou um projétil à baliza à guarda de Andrés Fernandez. A segunda metade inicia-se, praticamente, com a grande penalidade a favor do FC Porto e defendida por Rui Patrício. Os dragões desenharam várias investidas para chegar ao golo do empate, mas André Carillo saiu do banco para colocar um ponto final na partida (83’).
A tática venceu. A fome de bola venceu. Os da prata da casa quiseram mais que os adversários.
2. FC Porto 1-3 Sporting CP (2015/2016)
Na temporada seguinte, sob o comando técnico de Jorge Jesus, repetiu-se o feito e o resultado, desta vez para o campeonato. A única forma de conseguir resgatar a primeira posição – perdida em casa, diante do SL Benfica – era vencer no reduto onde pairavam imensos fantasmas. Houve muito leão e uma amostra inicial de dragão.
O domínio do FC porto é evidente durante os 20 minutos iniciais. Herrera podia ter colocado o anfitrião em vantagem não fosse o poste e Aboubakar também podia ter seguido o mesmo trilho. Mas o segredo do sucesso leonino estava no flanco esquerdo. José Angél perdeu dois confrontos para João Mário: um deu golo, o outro foi travado pelas luvas de Casillas. Sebastián Coates não soube manter a serenidade e derrubou Brahimi dentro de área: Herrera não perdoou e empatou a partida. Bryan Ruiz, sem imprimir velocidade no flanco contrário, cruzou para Islam Slimani atribuir novamente a vantagem aos leões, aproveitando a marcação débil da dupla Chidozie-Martins Indi.
Bruno César foi o único que conseguiu “matar” o dragão. Aos 85’, disparou à baliza portista e viu Casillas dar um frango daqueles que podiam facilmente ser reunidos para os apanhados. Houve coração, eficácia, entrega, inteligência e… fé.
1. FC Porto 2-2 Sporting CP (2021/22)
Provavelmente, alguns questionarão a escolha. Para mim, no que à atitude e à raça concerne, o Sporting CP deu um recital no Estádio do Dragão. Foi displicente e não soube controlar a dupla vantagem na partida? Foi, sim senhor. Não realizou as investidas ofensivas suficientes para vencer, dado que era a única equipa em campo que precisava dos três pontos como pão para a boca? Sim, principalmente na segunda metade da partida. A expulsão do Coates condicionou a partida e o rumo que a mesma seguiu? Provavelmente…
Contudo, algo se elevou. Aquele final de jogo, comtemplado unicamente em Portugal (nos moldes em que sucedeu), foi bonito de ser observado apenas por um aspeto: a união e o sentimento de solidariedade existente entre os jogadores, a equipa técnica, o staff e o resto da estrutura do Sporting CP. Ninguém arredou pé, ninguém quis deixar o companheiro para trás, ninguém abandonou o colega.
A culpa também é de Rúben Amorim. E estou convicto de que será sempre assim!









