Peyroteo: o (des)respeito pela lenda

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Ao recuarmos até à década de 40 e passando em revista a história do Sporting Clube de Portugal facilmente nos recordamos dos famosos Cinco Violinos, que tantas vezes deram alegrias aos adeptos verde e brancos. A magia que contagiava a nação sportinguista da altura é hoje ponto de referência para os mais novos que se sentam ao lado dos mais velhos a ouvir as histórias de então. Peyroteo foi o mestre dos Cinco Violinos e foi também uma grande referência do clube e do futebol português. Ainda hoje o seu nome ecoa nas conversas de café e, cada vez mais, é tema de conversa devido ao clube onde sempre jogou reclamar o reconhecimento de uma figura que raramente tem o destaque merecido.

O presidente Bruno de Carvalho tem sido voz ativa na proclamação desse mérito que teima em não chegar. Acima de tudo, era importante que os órgãos oficiais, a começar pela Federação Portuguesa de Futebol, colocassem Peyroteo no pedestal, onde estão tantos outros que fizeram menos por merecer esse lugar. Era importante que se tomasse consciência da importância que isso poderia ter para o futebol português. Infelizmente, todos nós sabemos que existem vários interesses nos meandros do futebol que fazem com que os responsáveis fechem os olhos ao óbvio, quase como se fosse imperial apagar a história porque ela não interessa para a maioria.

Os números de Peyroteo mostram bem a sua importância para o futebol português Fonte: Fórum SCP
Os números de Peyroteo mostram bem a sua importância para o futebol português
Fonte: Fórum SCP

As comparações com Eusébio são cada vez mais frequentes, sobretudo quando estamos à conversa com adeptos encarnados. A questão é muito simples e começa com um tema chamado Panteão. Se Eusébio teve direito a ele, porque é que Peyroteo não teve? A resposta é simples: o primeiro vestiu de vermelho e o segundo de verde e, como se sabe, esse é um síndrome que ainda hoje persiste e, que pelos vistos, já vem de longe. Não pode haver outra resposta. Se analisarmos os números de cada um, é quase anedótico que Eusébio seja levado em ombros, enquanto Peyroteo é menosprezado. E como Cristiano Ronaldo também se está a tornar um monstro do futebol mundial, também ele começa a entrar nesta comparação. Há quem defenda que na época de Peyroteo o futebol era mais fácil e, por isso, Eusébio e Cristiano Ronaldo têm mais mérito apesar de terem menos golos marcados. Mas é sequer possível compará-los? As épocas eram diferentes e naturalmente o futebol também sofreu as suas transformações mas isso não quer dizer que tenha ficado mais fácil. Infelizmente, os argumentos sem fim que são criados sobre este assunto têm também pouco nexo. E no final de contas, não seria de admirar que, quando Cristiano Ronaldo acabar a sua carreira, os seus defensores desapareçam e a sua figura comece a ficar esquecida porque afinal de contas ele também é um produto da formação verde e branca e é sportinguista, o que automaticamente o exclui de todas as honras que possa merecer, porque isso não é benéfico para o sistema. O mesmo sistema que exclui Peyroteo da história do futebol português e que se recusa a dar-lhe o título de lenda.

Fernando Peyroteo foi o maior goleador da história do futebol português. Para muitos, é o melhor jogador português de todos os tempos, apesar de oficialmente isso não ser reconhecido. Os seus números são históricos e fixou recordes que ainda estão por bater em Portugal. A sua média de 1,62 golos por jogo e os seus 635 golos em 393 jogos são impressionantes. Pela Europa fora, há publicações como o The Sun que o elogiaram e enalteceram os seus feitos. É bom saber que aos olhos de quem não vê apenas entre o vermelho, o verde ou o azul há capacidade de reconhecimento. Às vezes dá vontade de pedir desculpa a Peyroteo por não lhe darem valor depois de tudo o que fez, mas acima de tudo, cada sportinguista terá sempre gravado na sua memória o nome de uma das figuras mais emblemáticas que o desporto português já viu nascer.

Foto de capa: Imortais do Futebol

Cláudia Figueiredo
Cláudia Figueiredohttp://www.bolanarede.pt
Sportinguista devota desde que se conhece, o futebol é o seu desporto de eleição. Quando jogava, era médio-ofensivo de posição, mas agora prefere a bancada. A menos, é claro, que a convidem para uma peladinha entre amigos.                                                                                                                                                 A Cláudia escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

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