‘Suck it and see’

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diva de alvalade catarina

Dizem os hodiernos ditames da bola que o futebol é onze contra onze e que no fim ganha a Alemanha.

E eu, que na vida nunca gostei particularmente do transversalmente gélido e insuportável calculismo germânico, dou por mim a achar que ele pode ser, no fundo, solução para grande parte dos males do nosso Sporting (e não só).

Ora vejamos.

Nos dias que correm, sabemos ter bola do meio campo para a frente. Sabemos variar o flanco do jogo em profundidade sem dar tempo às equipas adversárias para se reposicionarem. Sabemos, quando necessário, ‘cair em cima’ e recuperar a bola ainda na primeira fase da transição dos nossos oponentes, não permitindo que os seus médios liguem o jogo e apanhando as suas defesas em contramão, completamente descompensadas, aproveitando a má ocupação dos espaços para criar situações de perigo e, pontualmente, facturar. Adrien ganhou uma consistência na profundidade que dá ao jogo e na capacidade para aparecer com regularidade nos últimos trinta metros que não tinha com Leonardo Jardim; finalmente, André Martins está num lugar onde não estorva ninguém (e, mesmo assim, talvez estorve ainda a visão periférica de Marcelo – até quando está sentado na bancada); William sofre fisicamente para fazer a vontade a Marco – e como eu insistia nisto o ano passado! -, tentando transformar-se num tout-court, deixando de jogar em permanência num rectângulo de 10×20; e, finalmente (!), a falta de um 10 titular absoluto e indiscutível vai sendo colmatada com a experiência e excelência de Nani e com o virtuosismo finalmente estabilizado de Carrillo (bem espero que estas palavras não me saiam caras daqui a uns meses), ambos tão capazes de procurar espaços interiores, trazendo consigo os laterais adversários e abrindo os corredores para a entrada de Cédric, Jefferson e até, a espaços,  João Mário ou Adrien.

Na frente, acredito que estamos bem servidos. Aqui me confesso fã incondicional de Montero: não quero, sequer, imaginar o que seria a jogar num 4x1x3x2 em que os dois homens dos flancos fossem Carrilo e Nani, e em que lhe fosse dada total liberdade para jogar na zona periférica de Slimani. Não quero, como disse, porque, se o imaginar, amanhã começo a endereçar cartas registadas ao Mister todos os dias, cartas em que o primeiro peticionado seria que proibisse as noitadas do William e que maltratasse o miúdo com duas horas de trabalho extra de ginásio diário. Isto porque, na minha mui modesta e singela opinião, um 4x1x3x2 como deve de ser só funciona com um seis que tenha um pulmão e, quiçá, um coração do tamanho do mundo. Escudado por uma defesa imperialmente posicionada, capaz de estar, aquando do início da transição ofensiva dos opositores, em cima da linha do meio terreno. Mas isso são outros quinhentos…

Quinhentos esses que são o que mais me preocupa. Sentimento que creio comum a todo e qualquer sportinguista.

Preocupa-me, desde logo, que tenhamos um guarda-redes que, sendo fora de série, ostentando a braçadeira de capitão no braço, passa os jogos praticamente calado! Acredito que alguns dos muitos problemas defensivos do Sporting se resolveriam se Patrício falasse mais. Não sei quantos de vós jogam ou jogaram futebol, mas todos os que o tenham feito sabem que não há quem tenha melhor noção dos espaços por ocupar do que aquele que vê de trás; tendencialmente o guarda-redes, mas pode também aplicar-se a um central que tenha inteligência posicional e voz de comando – no que respeita não só ao posicionamento do sector recuado como aos buracos no meio campo ou entre linhas, claro está. Oliver Khan fazia-o como ninguém, Neuer reprodu-lo hoje em dia no Bayern, e, entre nós, foi o que Ricardo Carvalho, por exemplo, sempre fez nas equipas por onde passou.

A nossa defesa precisa de uma voz de comando: se não temos, por agora, um central que a saiba assumir, que seja o nosso Capitão a puxar dos galões e a fazê-lo. Porque bem precisamos de quem relembre várias coisas àqueles meninos, nomeadamente a “teoria da corda”, regra básica e abnegável de qualquer sector defensivo que seja digno desse nome.

No fundo, porque bem precisamos de consolidar o processo de crescimento, estabilizando processos, sabendo quando parar o jogo, como abordar os espaços e, sobretudo, ganhando a maturidade para saber dar ao jogo, em cada momento, aquilo que ele nos pede.

Isto, no meu mundo, chama-se ter a frieza e o calculismo necessários para impedir que os nossos adversários nos vençam. Consegue-se – leve o tempo que levar – com umas coisitas simples: abnegação, dedicação, trabalho, mais dedicação e mais trabalho.

Tudo lições nas quais os alemães são Catedráticos.

SL,

p.s.1 – Foi no sábado a enterrar um enorme Jurista, Publicista e Advogado, um dos poucos que integrava, até então, o elenco das Sumidades da Advocacia. É nos poucos Advogados como Galvão Teles que os novatos, como eu, se inspiram quando trabalham todos os dias com o objectivo de vir a ser, um dia, referências na nossa Profissão. Mais do que um enorme Advogado, relembro a figura do GIGANTE Sportinguista de bigode. Também aí nos deve servir de exemplo. A todos. Que descanse em Paz.

p.s.2- Este texto já se encontrava escrito à hora do jogo com a Académica. Os últimos minutos foram o completo reflexo de tudo o que eu vos queria aqui transmitir.

 

Catarina Santinha
Catarina Santinhahttp://www.bolanarede.pt
Mulher do Norte por natureza, está emigrada no Algarve e deixou o coração em Lisboa, cuidadosamente depositado no seu Cativo em Alvalade. Leoa de coração, jurista por paixão, fanática do fitness por opção, a Catarina sabe que o sangue que corre nas suas veias é verde, e recusa-se a conceber que possa ser doutra cor.                                                                                                                                                 A Catarina não escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

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