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Um Menino chamado Iuri

Ricardo Gonçalves · 2 min

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Bola colocada na relva e iniciada a medição dos ângulos. A respiração de um estádio inteiro suspendeu-se com a bola a entrar bonita na baliza. Marcar na Luz não é para todos, mas marcar na Luz desta maneira está mesmo só ao alcance de alguns iluminados. Começavam então os Sportinguistas a criticar a ausência no plantel de um dos mais promissores produtos de Alcochete, que no Boavista fez uma época que justificou um carimbo de maturidade. Foi por isso com naturalidade que Iuri Medeiros integrou o lote de escolhidos para a presente temporada do Sporting.

Vestir a camisola verde e branca é um estatuto difícil e todos nós sabemos disso. Ser um craque ainda não é critério suficiente, embora ajude, havendo depois disso uma conjugação de factores determinante para o sucesso. Iuri Medeiros tem várias características que aprecio muito. É rápido com a bola e sem ela, sabe finalizar, a técnica está lá e, como se não chegasse, multiplica-se no campo quando as coisas correm bem. É daqueles jogadores que dá sempre jeito ter porque, de vez em quando, lá vem aquele jogo que precisa de ser agitado por alguém que tacticamente não comprometa – já vimos isto algumas vezes esta época. No meio de tanto pormenor inebriador, chega sempre o momento de questionar por que é que Iuri Medeiros ainda não explodiu, levando-nos a pensar na tendência de se colocar no leque de jogadores que não chegaram a afirmar-se.

Começamos pela análise mais óbvia e sintética. O actual plantel do Sporting não permite grandes ambições a quem se encontra na segunda linha de opções. Quando num lado temos Gelson e no outro temos Acuña, as coisas complicam-se. Mas no futebol os cenários são hábeis em alterações repentinas. Contudo, é aqui que se encontra a principal dificuldade de Iuri Medeiros. Um plantel competitivo. E na racionalidade estatística temos de ser justos: não podemos pedir a um jogador que, à primeira oportunidade de entrar em campo, resolva o jogo e ocupe a capa dos jornais. Às vezes acontece, é verdade. Mas às vezes não é sempre. E à grande gestão mental a que estar habitualmente no banco de suplentes obriga, já é uma conquista digna de elogio, ainda para mais quando estamos na flor da idade. O futebol tem este lado cruel.

É por ter esse lado mais negro que às vezes o futebol pode ser ingrato. Um jogador esclarecido nas suas capacidades pode encontrar no oráculo circunstancial o seu maior desafio. Passemos ao segundo lado da análise, e que não pode ser tão sintético como o primeiro porque também se suporta na filosofia. Há muitos casos em que a desmotivação culmina no final de uma carreira promissora. É isto e o peso da responsabilidade, essa condição que nem todos dominam bem. Ainda não é tempo para sabermos se o Iuri Medeiros veio por aqui, mas tal como os cenários, no futebol os caminhos também se alteram. É por isso que não é o fim do Mundo nem tão pouco é demasiado tarde. É bom que nos lembremos que há uns anos atrás começou a historia deste rapaz. Um menino chamado Iuri. Esperem para ver.

 

Ricardo Gonçalves

Redação Bola na Rede · ver artigos

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