O dérbi minhoto entre Vitória SC e Braga ficou marcado por um jogo de adaptação constante entre as duas equipas, onde as ideias iniciais foram sendo ajustadas ao longo dos 90 minutos. Mais do que um confronto de ritmos elevados ou de ataques continuados, foi um encontro em que ambos os conjuntos dificultaram de forma eficaz o jogo apoiado do adversário, obrigando a soluções mais diretas e a uma leitura permanente dos momentos do jogo.
O resultado foi uma partida taticamente rica, mas com pouco espaço para conforto na construção, em que cada equipa procurou condicionar os pontos fortes da outra e em que a capacidade de reagir e reajustar comportamentos acabou por ter um peso determinante no desenrolar do encontro.
O Vitória apresentou-se desde o início com uma pressão alta bem definida, organizada a quatro homens, com os dois pontas-de-lança a assumirem um papel determinante ao bloquearem as linhas de passe para os médios do Braga.


O objetivo passava por condicionar a primeira fase de construção, forçando a circulação exterior e retirando ao adversário a possibilidade de progredir pelo corredor central. Sempre que a bola regredia, esse passe funcionava como gatilho de pressão, levando o Vitória a subir em bloco e a tentar encurtar o tempo e o espaço de decisão dos centrais minhotos.


Perante esta abordagem, o Braga demonstrou capacidade de adaptação. A equipa passou a usar o guarda-redes como apoio na circulação, atraindo a pressão para depois libertar o jogo, e recorreu com maior frequência a saídas mais diretas, quer através de bolas longas, quer com passes dos centrais diretamente para os extremos.




Dentro desta lógica, o jogo longo procurava muitas vezes Dorgeles em zonas interiores, explorando a sua superioridade física e maior fiabilidade nos duelos, permitindo ao Braga ultrapassar a primeira linha de pressão e disputar segundas bolas em zonas mais altas do terreno.


Com o Vitória em desvantagem no marcador, começaram a notar-se sinais de impaciência na pressão, com timings menos coordenados e menor capacidade para fechar o corredor central de forma consistente. O Braga aproveitou esse momento para encontrar com mais regularidade os seus médios na primeira fase de construção, conseguindo ligar jogo por dentro e estabilizar a posse.


Ainda assim, este período foi relativamente curto, já que o Vitória rapidamente reajustou o seu comportamento, voltando a orientar a pressão para fora e a limitar o acesso dos médios bracarenses à construção.
Em organização ofensiva mais adiantada, o Braga estruturou-se com Dorgeles e Salazar a garantirem largura, enquanto Ricardo Horta e Victor Gómez ocupavam os half-spaces, Pau Victor dava colocava-se também muitas vezes em zonas mais baixas no terrenos para servir como apoio.


Esta disposição trouxe maior presença entre linhas e permitiu ao Braga ligar jogo em zonas interiores, mas teve como efeito colateral uma menor presença de Salazar no corredor contrário para criar superioridade, algo que, ao invés, Horta conseguiu explorar várias vezes pelo lado direito, aparecendo com frequência em zonas de combinação e decisão.
Já nos últimos 15 minutos, e na sequência da entrada de Fran Navarro, o Braga introduziu uma alteração relevante, com uma inversão posicional entre Salazar e Victor Gómez. Esta mudança ofereceu à equipa mais opções interiores no último terço, aumentando a densidade em zonas centrais e a capacidade para encontrar soluções entre linhas, sobretudo em contexto de ataque posicional.


O Vitória apresentou uma estrutura base que oscilava entre um 4+2 e um 3+2, dependendo sobretudo do posicionamento dos laterais. Esta dinâmica procurava dar estabilidade à primeira fase, mas encontrou pela frente um Braga muito organizado defensivamente, que se apresentava num 1x4x4x2, com Dorgeles a posicionar-se alto para condicionar a saída curta e orientar a construção vimaranense para os corredores laterais.
Sempre que necessário, o Braga ajustava a sua estrutura, com Lagerbielke a subir entre linhas, transformando o bloco defensivo num 1x3x2x3x2, ou até num 1x2x3x3x2, garantindo superioridade numérica nas zonas interiores e maior capacidade para controlar o espaço entre linhas. Este comportamento revelava uma preocupação clara em proteger o corredor central e em controlar os apoios do avançado do Vitória.


Neste contexto, tornaram-se evidentes algumas limitações do Vitória, sobretudo no jogo exterior. Os seus extremos não são particularmente fortes nos duelos nem especialmente rápidos, o que reduziu a eficácia das saídas pelos corredores. Essa limitação foi especialmente visível no confronto direto entre Telmo Arcanjo e Arrey-Mbi, onde a vantagem física e atlética do defesa do Braga condicionou fortemente a progressão ofensiva do Vitória por esse lado.
Já em segunda fase de construção e criação, o Vitória procurava manter um equilíbrio posicional, alternando entre uma estrutura em 3+1 e 3+2. Na organização em 3+1, Nelson Oliveira e Nogueira aproximavam-se dos centrais, com a intenção de Nelson Oliveira funcionar como apoio frontal, fixar defesas e permitir que os médios interiores surgissem de trás, de frente para o jogo. Perante este cenário, o Braga optava por baixar o bloco, organizando-se num 1x5x2x3, o que fazia com que Beni surgisse solto nas costas da primeira linha de pressão, assumindo um papel importante na ligação entre setores.




Quando o Vitória se organizava em 3+2, era Strata quem se mantinha entre linhas, oferecendo uma solução mais fixa no corredor central, enquanto Telmo Arcanjo permanecia aberto, tentando dar largura e alongar o bloco defensivo adversário. Ainda assim, a falta de vantagem individual nos corredores continuava a limitar a eficácia destas dinâmicas.


Aos 53 minutos, as entradas de Câmara e Samu marcaram um momento importante do jogo. Apesar de não haver uma influência direta imediata, três minutos depois o Vitória acabaria por beneficiar de um penálti, num momento que também refletiu uma maior presença e agressividade ofensiva da equipa. A partir destas alterações, verificou-se um reajuste claro: Nogueira passou a baixar no terreno, posicionando-se mais próximo de Beni, enquanto Samu assumiu maior liberdade e mobilidade, juntando-se com frequência ao centro do jogo e aparecendo com regularidade em zonas de finalização, sobretudo quando a bola estava em contexto de cruzamento.




A partida acabou por mostrar que o dérbi do Minho é mais que emoção, os dois treinadores montaram as equipas de forma inteligente e adaptada aos pontos fortes dos adversários, Luís Pinto mesmo com menos recursos meteu as suas ideias em prática e provou que o Vitória SC pode e deve investir no seu treinador; Carlos Vicens não conseguiu dominar como gosta, no entanto conseguiu mostrar que se consegue adaotar cada vez melhor ao contexto.

