Jogo Interior #20 – Os maiores para ganhar: um erro na Formação

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No que ao mundo do futebol diz respeito, a vitória conquistou uma importância preponderante no rumo e nos meios que se utilizam para a atingir. Objetivos e fins errados prevêem caminhos, soluções e ideias erradas. No futebol de formação, esses erros podem pagar-se caro e, tendo em conta o relevo que terá para a vida dos jovens jogadores, não vale esse preço. Ou não deveria valer.

No entanto, eles existem e um dos que mais atormenta é a utilização dos jovens com idade biológica superior à idade cronológica para potenciar a vitória, a obtenção dos três pontos e do objetivo primordial errado, ou seja, manter os jovens com maior poder físico, potência e com maior estatura no escalão cronológico a que pertencem, com o intuito de fazer prevalecer o domínio das capacidades físicas sobre as habilidades técnicas da modalidade e, acima de tudo, sobre as competências emocionais e sociais a incutir num jovem para a sua correta e adequada formação como indivíduo.

Para Rabelo et al. (2016), muitos jovens talentosos tendem a ser subestimados simplesmente por nascerem no fim do ano e, consequentemente, pelos seus atributos físicos inferiores. Temos vários exemplos desses no futebol e um deles é-nos bastante conhecido, Bernardo Silva. Sempre referiu que em todos os escalões de formação, por ser mais fraco fisicamente, “ficou de lado”, jogou menos e, possivelmente, não teve o desenvolvimento que poderia ter tido.

É fácil perceber que quanto maiores forem as adversidades e as dificuldades que os jovens jogadores encontrarem, mais estimulados serão. E numa fase em que quem está “atrasado” se aproxima, ou até atinge o patamar biológico de quem, outrora, sempre esteve à frente dos demais, os primeiros tendem a se tornar melhores nos aspetos técnicos da modalidade, pois tiveram que atravessar uma “floresta maior” aos seus olhos para chegarem onde os restantes estão, e isso fez com que se desenvolvessem mais.

Do outro lado do prisma, qual será a evolução que os jovens como Ibrahima Sow do Sevilla FC, David Easmon do AFC Ajax ou Bitshiabu El Chadaille do Paris SG, casos conhecidos mediaticamente há alguns meses, terão face às facilidades que os rodeiam, devido ao que já foi referido acima? O que aprenderá uma criança que é muito maior e mais forte que todas as outras quando marca 10 golos num jogo? Ou quando no basquetebol, por ter mais 50 centímetros que os restantes, marca os pontos que quiser? Que papel terão as entidades desportivas, os clubes, os treinadores nestas “injustiças”, nestas barbaridades reais?

Não seria mais correto para o desenvolvimento individual desses jovens biologicamente mais avançados, como para os restantes praticantes, enviá-los para os escalões superiores, onde o aspeto físico se equipare aos seus? Porque não a distribuição dos jovens em escalões por crescimento biológico, em vez da, atual, idade cronológica? Porque não, durante a realização dos exames médicos no início de época nos clubes, ser avaliada esta idade biológica com os exames adequados e, assim, distribuir-se os jovens atletas por estes “novos escalões”? Talvez o aspeto económico tenha alguma preponderância na sua existência ou não. Talvez a vitória a todo o custo seja mais importante na mente e ideais de muitos. Errado.

No entanto, não seria mais proveitoso e adequado para o desenvolvimento dos jovens, que é o que verdadeiramente interessa? Acredito que sim.

Estes acontecimentos passam-se em qualquer das realidades do futebol, do nível mais competitivo e internacional, ao nível menos competitivo e local, todas as situações são inadequadas para os objetivos do futebol de formação, em qualquer dos contextos as consequências para os jovens praticantes são as mesmas, com a mesma gravidade e amplitude, portanto, há que mudar este paradigma.

Artigo revisto por Joana Mendes

Bruno Alexandre Rodrigues
Bruno Alexandre Rodrigueshttp://www.bolanarede.pt
Desde cedo praticou futebol e o seu gosto pelo desporto foi crescendo. Licenciado em Educação Física e Desporto no ramo de Treino Desportivo e com Mestrado em Ensino da Educação Física nos Ensinos Básico e Secundário, é, atualmente, Treinador de futebol de formação e Treinador Adjunto de futebol sénior. Pretende refletir sobre as situações que vivencia, em primeira pessoa e não só, no dia a dia da modalidade.                                                                                                                                                 O Bruno escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

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