Jogo Interior 22# – A braçadeira de Puyol: um artigo sobre liderança

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Na rúbrica de jogo interior de hoje falamos sobre liderança. Esta é a arte de comandar pessoas, atraindo seguidores e influenciando (preferencialmente de forma positiva) mentalidades e comportamentos. Existem mil definições sobre o conceito de liderança, sobre a forma como pode ou deve ser exercida, sobre as suas diferentes modalidades e quais as que historicamente produzem mais ou menos efeito.

Não tenho qualquer pudor em admitir que mesmo sendo advogado, as minhas principais referências no que diz respeito à liderança, sempre estiveram ligadas ao desporto, mais concretamente ao futebol. Pelos tempos de jogador, pelos tempos de treinador ou simplesmente pela convivência com amigos durante a prática ou na observação de jogos, as figuras e os momentos que me marcaram, no contexto da liderança, estiveram quase sempre ligadas ao futebol.

Consequência do descrito, sempre atribuí uma enorme importância à figura do capitão de equipa, todos os inícios de época aguardo com alguma expectativa o anúncio por parte dos clubes de quem serão os três ou quatro jogadores que sentirão o privilégio de usar braçadeiras míticas, pesadas, que em alguns casos funcionarão como um símbolo de mística e ligação ao clube, mas que noutros casos se transformarão num verdadeiro “garrote”, aumentando a pressão de quem o usa sem saber bem o que isso significa.

Sócrates escreveu: “Sob a direção de um forte general, não haverá jamais soldados fracos”, frase que quase poderia ser uma apresentação de Carles Puyol, um jogador mundialmente conhecido pela forma como jogava. Um autêntico exemplo para o tema de “Jogo Interior” de hoje, quer seja pela quantidade de jogos que fez ao serviço de um dos principais clubes mundiais, mas igualmente por ser um verdadeiro símbolo e exemplo de um capitão de equipa. A braçadeira não era apenas usada por Puyol, a braçadeira fazia parte do corpo do central Espanhol.

Gerard Piqué, o último grande jogador a fazer dupla com Puyol, foi sempre um dos seus principais admiradores, como aliás descreveu: “A minha geração e as que vierem a seguir não sabem o que é um ‘Barça’ sem Puyi na defesa, com o número ‘5’ nas costas. Suponho que já nada será igual”. Piqué recordou também o momento em que os dois se conheceram: “Tu eras o capitão e o emblema da equipa e eu um jovem que vinha para conquistar o mundo. Desde o primeiro dia que tivemos uma grande relação, tanto dentro como fora do campo. Ao teu lado, sentia-me protegido, sabia se um dia falhasse, tu estarias lá para me salvar. Eras o meu anjo da guarda.”

Mas o futebol, felizmente, durante anos foi pródigo a oferecer-nos exemplos de destaque: Steven Gerrard, Totti, Mascherano, Maldini, De Rossi, Vidic, John Terry, Tony Adams, Sérgio Ramos, Hamsik, Joaquin, entre outros, numa génese de jogador e de liderança que está em vias de extinção. Porquê? Porque o futebol mudou, porque as referências dos mais jovens mudaram e todos os jogadores que citei misturavam um conjunto de caraterísticas (psicológicas e físicas) que hoje já não são fáceis de encontrar.

Mas então o que realmente define um capitão de equipa? Para mim, desde logo, três caraterísticas saltam imediatamente à vista: carisma, ética de trabalho e resiliência. Um capitão tem de ser o primeiro a dar a cara, o último a desistir, tem de ser alguém que acredita sempre até ao apito final e que secundariza, semana após semana, os seus próprios limites de cansaço e se esforça em prol de um coletivo. Mas não chega. Infelizmente não chega. Um verdadeiro capitão, aquele que analisamos no “Jogo Interior” de hoje,  também tem de ser visto como tal pelos jogadores, pelos treinadores e pelos adeptos, por forma a que as suas ações e discursos possam ter o impacto devido. Um capitão agrega, não deixa ninguém de fora, faz com que todos se sintam importantes no sucesso do grupo, mesmo que normalmente não saiam do banco ou da bancada.

Existe quem afirme que os jogadores mais dotados tecnicamente raramente dão bons capitães, afirmação que embora nem sempre seja verdade, de facto, verifica-se na maior parte dos casos. Mas para mim existe uma explicação razoável: ser capitão é também ser altruísta. Usar a braçadeira de um clube, ser o representante máximo de um emblema não se coaduna com qualquer ato de egoísmo, com a prevalência de um ego sobre o que são os interesses da Instituição que representa.

Ora, centrar todo o seu talento e esforço em prol de um coletivo, sabendo que em momentos o seu destaque individual poderá sair ferido ou comprometido, é um risco e uma forma de estar que nem todos os jogadores estão dispostos a assumir, com especial destaque para os jogadores que sabem ser “acima da média” em relação aos restantes companheiros de equipa. Mas logo assim à cabeça, acho que Bruno Fernandes é um exemplo claro de que embora concorde com esta afirmação, não é um raciocínio 100% fiável.

Bruno Fernandes era um capitão na equipa do Sporting CP e também o melhor da equipa
Fonte: Carlos Silva / Bola na Rede

Ainda que existam componentes que são trabalhadas, considero que para se ser um grande capitão é inegável terem de existir caraterísticas absolutamente inatas e que os definem nos momentos mais complicados. Numa entrevista dada já em 2020, José Mourinho referiu que teve capitães que não eram líderes. Aproveitou o ensejo e deu como exemplo máximo de liderança o ex-capitão do FC Porto, Jorge Costa, contando uma simples história, mas que nos elucida bastante sobre o papel de um capitão “à antiga”:

“Um dia estávamos a perder por 2-0 com o Belenenses ao intervalo, eu ia para o balneário e todos podiam ver que eu estava a fumegar. E o Jorge disse: ‘Espera dois minutos aí fora, por favor.’ Ele entrou, fechou a porta e fez o trabalho sujo por mim. Depois abriu a porta e disse: ‘Orienta-nos.’

Ele fez tudo o que eu iria fazer.

Ele era central, nunca marcava golos e marcou dois nesse jogo. Há uma grande diferença entre capitão e líder, não compras líderes, não crias líderes. Quando os tens, a tua equipa está um passo à frente, mas o futebol hoje está cheio de imagem e as pessoas dão mais atenção aos que parecem do que aos que são”.

Mourinho acertou em cheio.

Mesmo a nível nacional, o futebol Português também já nos forneceu grande líderes, grandes exemplos, estando, na minha opinião, algum do insucesso de algumas equipas relacionado com a ausência de lideranças fortes. Mas isso não é tema para desenvolvermos neste Jogo Interior de hoje.

Para fechar, referir apenas que a imposição de uma braçadeira, a um jogador que não tenha esse perfil de liderança, poderá na minha ótica ter dois efeitos:

Um efeito positivo: o atleta percebe a responsabilidade que tem em mãos e acaba por amadurecer e agir de forma mais coletiva e agregadora;

– Um efeito negativo: passam a ser-lhe cobrados comportamentos que não são os seus, passa a estar a associado a uma imagem de falta de liderança, e cai sobre ele um peso que pode ser fatal, principalmente na relação com os adeptos ou com o treinador (quem não se lembra do caso Maicon no FC Porto que culminou na sua saída?).

Um líder é um vendedor de esperança, é alguém que tem a capacidade de conseguir que as pessoas façam o que não querem e gostem de o fazer. Não está ao alcance de todos, mas os que conseguem, ganham o estatuto de lenda, daí estar presente nesta rúbrica – “Jogo Interior” – porque é tão ou mais importante que uma tática.

Boa quarentena.

Artigo revisto por Inês Vieira Brandão

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