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Jogo Interior #27 – Falhámos dois penáltis, mas sorrimos

Bruno Alexandre Rodrigues · 3 min

Jogo Interior #27 – Falhámos dois penáltis, mas sorrimos
Foto: Bruno Alexandre Rodrigues

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Hoje no Jogo Interior falo-vos de um episódio que aconteceu na minha vida enquanto treinador, num jogo de futebol de formação entre crianças/adolescentes de 13 e 14 anos de idade. Tudo se passou no célebre e tão desejado domingo de manhã, o dia de jogo, o dia em que, tanto eu como quem está comigo e como cada um dos jovens que ali se encontra, adora e tanto anseia. É o culminar de uma semana de treinos, é a oportunidade de tentar fazer as coisas bem e, no fundo, é a oportunidade que todos esperam aproveitar e poder desfrutar daqueles minutos a fazer aquilo que tanto gostam.

Inicia-se o jogo e, ao contrário daquilo que tem sido a rotina no campeonato em que participamos, não estamos a ser atropelados pela diferença física da grande maioria dos jogadores adversários. Conseguimos jogar, ter a bola no pé, sentir que podemos expressar-nos com a posse de bola enquanto praticantes desta modalidade que tanto gostamos e pela qual abdicamos de muita coisa. Vi a diversão, o prazer e o desfrutar no rosto daqueles miúdos.

Estamos a poucas dezenas de minutos de terminar o jogo e as coisas continuam a correr bem, apesar de estarmos a perder por dois golos de diferença, vejo o esforço, a entrega e a dedicação com que todos se comprometem no jogo e, quando assim é, nada mais podemos exigir e pedir. No entanto, é assinalado a nosso favor uma grande penalidade. Quem costuma assumir a marcação das grandes penalidades, toma a sua posição e… Falha.

Frustração é a palavra de ordem que surge durante aqueles breves segundos que se seguem após a marcação da grande penalidade, talvez mais na bancada e entre a maioria dos jovens jogadores. Mas, inusitadamente e após esses segundos iniciais, surge-me um sorriso que rapidamente é partilhado com quem comigo permite que estas crianças façam aquilo que lhes dá tanto prazer.

Passam-se cinco minutos e uma nova grande penalidade para nós e, desta vez, outro jovem assume a sua execução. E, novamente, falha. Agora com maior intensidade, talvez juntando irritação ao primeiro sentimento, existe consternação nas bancadas afetas aos pais da nossa equipa. Talvez alguma desilusão também. Entre a equipa técnica, o sentimento inicial é o mesmo, mas depois sorrimos.

Vimos bastante para além daquilo que se estava a passar na prática no jogo, deixámos completamente de lado aquilo que poderia ser um empate no resultado com estas duas grandes penalidades e avaliámos no momento, em pensamento, a aprendizagem que dali levaríamos quando o jogo terminasse. O jogo terminou.

A sensação do que foi bem feito, daquilo que lutámos por conquistar, do prazer que era evidente nas expressões faciais e corporais dos jovens jogadores, e toda a entrega e dedicação que foi colocado naqueles oitenta minutos fez esquecer aquelas duas grandes penalidades falhadas. Daí o artigo no Jogo Interior desta semana.

Porque sorrimos?

Grande parte daquilo que pretendemos que os jogadores coloquem em campo esteve presente e não podíamos estar mais contentes com o que naquele dia aconteceu. Falhámos duas grandes penalidades, mas o que é de valorizar é a aprendizagem que dali veio. Assumir a responsabilidade de marcar uma grande penalidade perante toda a envolvente de um jogo de futebol é de uma carga emocional, de uma audácia e ousadia brutais, da mesma forma que é uma assunção dos “riscos” que isso acarreta.

A grande aprendizagem dali retirada é a capacidade que cada um dos jovens jogadores teve em encarregar-se da marcação da grande penalidade. Não está definido quem obrigatoriamente tem de executar a falta, pelo que fica ao critério de quem no momento está presente dentro de campo. Cabe a cada um dos jovens decidir se está ou não confiante para assumir esta “pequena” responsabilidade da vida.

Ter a ousadia de se encarregar da marcação de uma grande penalidade não é mais do que a preparação para as grandes decisões da vida de cada um dos jovens. Antes de serem jogadores de futebol, são indivíduos prestes a interagir na vida social, a serem responsáveis pelos seus atos e pelas suas deliberações. E é nisso que o Futebol de Formação tem de se focar.

O futebol de formação existe, principalmente, para que cada um dos praticantes cresça e se desenvolva no sentido de se conseguirem capacitar destas ferramentas necessárias para uma vida adequada e saudável na sociedade, no futuro. Por isso sorrimos. E por isso abordo também este tema no Jogo Interior de hoje.

 

Artigo revisto por Joana Mendes

Bruno Alexandre Rodrigues

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