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O Passado Também Chuta: Masopust: O último checoslovaco

André Eusébio · 2 min

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o passado tambem chuta

Caiu a 1.º Grande Guerra Mundial e o Império Austro-Húngaro saltou pelos ares. Passado um ano, nasceu um novo País entre a hecatombe. A Checoslováquia aparecia no mapa para ser efémera, visto que com a hecatombe do Muro de Berlim também se desfez em dois. Entretanto, fez alguns milagres no mundo do futebol. O Dukla de Praga passeou-se com perigo pela Europa e o Benfica é testemunha desse perigo. Entre jogadores bem formados fisicamente e com boa técnica, sobressaia um centrocampista chamado Josef Masopust. Jogou a alto nível uma eternidade; o tempo não existia. O Dukla disfrutou-o durante dezassete anos e ainda andou pelo estrangeiro, aproveitando as consequências da Primavera de Praga de 1968. No entanto, os momentos mais rutilantes de Masopust, a nível internacional, foram vividos formando parte da seleção.

Corria o Mundial de Chile de 1962. O Brasil tinha uma equipa, e mais duas ou três escondidas, que espantavam o mundo. A linha avançada da canarinha era formada por Garrincha, Didi, Vavá, Amarildo e Zagalo. Como laterais, tinha dois homens que revolucionaram o fazer dos laterais: Djalma e Nilton Santos. Pelé, lesionado, não fez parte nos principais jogos, mas, Amarildo, o Príncipe, chegava para fazer tremer qualquer defesa. Perante esta equipa, possivelmente uma das melhores seleções de sempre, apareceu na final uma Checoslováquia pletórica onde Masopust fazia circular a bola ao primeiro toque que maravilhava. Durante o jogo, era fácil ver o mágico Garrincha rodeado de vários jogadores e gerar uma tensão extrema, mas Masopust, correndo pelo seu meio campo, recebia a bola e automaticamente tinha destino; era a simplicidade inteligente que com essa forma de jogar imprimia grande velocidade ao jogo e aos movimentos de transição.

Eusébio e Santana só podem ver quem vai… / Fonte: colgadosporelfutbol.com
Eusébio e Santana só podem ver quem vai… / Fonte: colgadosporelfutbol.com

O Brasil ganhou. Mas, além dos malabaristas da canarinha, o génio Masopust assinara um formidável campeonato e uma classe e clarividência futebolística que o fez subir a escada da fama europeia. Nesse mesmo ano, ganhou a Bola de Ouro. Curiosamente, a Checoslováquia tinha por esses anos o que também era considerado o melhor jogador de Voleibol da Europa. Uma tarde-noite tive o prazer de o ver treinar no ginásio do Colégio Valsassina e ficou-me gravado como um dos momentos mais altos da primeira juventude ou infância tardia.

Esse Mundial foi célebre por muitas coisas e uma delas foi, também, a revelação como treinador de Fernando Riera, que treinaria posteriormente o Benfica. Falava-se que taticamente o Futebol nascera para o futuro. O controlo e o passe lateral no meio do campo ficaram presentes. Esse esconder a bola que tanto pratica, presentemente, Xavi do Barcelona. Essa espera, às vezes cansativa, da oportunidade do passe letal; tudo isso apareceu neste Mundial e mais propriamente na equipa do Chile, dirigida por Fernando Riera. O próprio Masopust foi um antepassado de Guardiola na forma de correr pelo campo e do passe ao primeiro toque. No entanto, a magia que desprendia Garrincha valia por mil passes táticos e precavidos no meio-campo. A simplicidade inteligente de Masopust também era mágica, mas, fundamentalmente, era-o porque foi um jogador sempre vertical e chegava, se necessário, à boca da baliza. No passado, o futebol não era monoteísta; hoje, também não.

André Eusébio

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