O Passado Também Chuta: Joaquim Meirim

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o passado tambem chuta

O mundo do futebol tem nomes míticos que nunca ganharam a glória olímpica. São nomes que perduram através de estórias faladas nos cantinhos secretos dos adeptos. Normalmente, passam à história acontecimentos que nunca foram, mas, a língua; a imaginação e o amor-ódio que esse tipo de personagens gera provocam uma lenda mais que romanceada onde esse tipo de personagens parece muitas vezes super-homem. Na parte final da década dos anos 60 apareceu como um furacão no mundo do futebol português um senhor nascido em Monção. Era um perfeito desconhecido. Não era recordado, nem referenciado como ex-jogador. Não pertencia, portanto, ao sistema dos que têm crédito na sua bagagem. Sabia-se que estivera enrolado na Marinha Mercante. Sabia-se que realizara o velho curso de treinadores comandado por dois nomes sagrados como eram Fernando Vaz e José Maria Pedroto. Sabia-se isto e um pouco do que podia transcender da orientação de um clube clássico, querido e com velhas lutas na sua camisola, mas, que abandonara a competição no meio dos grandes chamado Oriental. Esse senhor chamava-se Joaquim Meirim e revolucionou o futebol português.

O Varzim, pela visão do seu presidente, entregou a equipa ao desconhecido Joaquim Meirim. Eu era mais menino que moço e tinha no Varzim um jogador que seguia desde os seus tempos de benfiquista: Benje. Era um guarda-redes que lutou para fazer-se com a baliza do Benfica, mas, teve que emigrar e deixar o seu clube. Era um excelente guarda-redes, mas, nem todos os que são um cofre de capacidade, conseguem vingar. O Meirim chegou à Póvoa do Varzim e revolucionou esta equipa de segunda linha. Os seus métodos de treino “assustavam” e eram novidade. Benje agigantou-se e mostrou sobradamente a sua capacidade. Mas, os jornais começaram a falar e a falar do treinador que inovara desde a forma de treinar os guarda-redes até à preparação física dos jogadores. Conta-se uma lenda desmentida pelo Benje na qual se dizia que o Meirim para estimular e exercitar os reflexos dos jogadores soltava galinhas no campo… Meirim unicamente começou a fazer que os guarda-redes se estirassem e se lançassem nos treinos como se realmente estivessem a defender remates. Conta-se que num destes treinos simulados o guarda-redes ficou estático; Meirim inquiriu porque não se tinha lançado. O guarda-redes respondeu com serenidade:” mister: porque desta vez a bola passou ao lado da baliza…”

O homem que revolucionou o futebol português
O homem que revolucionou o futebol português

As hoje famosas e inovadoras pré-épocas feitas em Los Angeles ou na China por motivos comerciais, não representam nenhuma inovação se pensamos em Joaquim Meirim. Começou a levar os jogadores para a praia e para a montanha. Não tendo à mão os elementos que hoje qualquer clube tem, utilizava pedras; arvores para fazer musculação no meio das matas. Fazia motivação individual aos jogadores provocando que conseguissem desenvolver no campo capacidades superiores. Meirim não saia das manchetes dos jornais desportivos. Começou a ser conhecido como o Helénio Herrera português. O campeonato do Varzim foi brilhante e o naquela altura quarto grande de Portugal, o Belenenses, chamou-o. As reportagens sobre os treinos individuais que lhe fazia ao ex-benfiquista Camolas foram espetaculares, mas, assim como a ascensão fora meteórica, a queda foi acelerada.

O fracasso no Belenenses foi rotundo e com chicotada psicológica incluída. Joaquim Meirim além de treinador era um militante político. Estava filiado no Partido Comunista e começou a ter lutas, mais ou menos encarniçadas, com o sistema estabelecido no mundo dos treinadores. Enfrentou-se aos seus ex-professores José Maria Pedroto e Fernando Vaz. A sua carreira começou a carecer de oportunidades. No entanto, viveu mais uma aventura que o reivindicou como bom e diferente treinador: subiu à 1ª divisão o Estrela da Amadora. Acabou a destempo no Desportivo de Beja. Despois, aos sessenta e seis anos deixou o mundo dos vivos e deixei-o de ver na sua tertúlia no Café Mexicana onde estava presente, também, outro homem do futebol: o sportinguista Juca. Com Meirim nasceu outra preparação em Portugal. Não subiu ao pódio dos campeões, mas, as novas técnicas abriram as janelas de par em par e arrombaram portas e portões.

José Luís Montero
José Luís Montero
Poeta de profissão, José simpatiza com o Oriental e com o Sangalhos.                                                                                                                                                 O José não escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

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