O Passado Também Chuta: Jorge Mendonça

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o passado tambem chuta

No fim da década de 50 do século passado chegaram a Espanha dois génios de fala portuguesa. Um deles foi o célebre guarda-redes Carlos Gomes e o outro foi um jogador que apareceu no Braga e era natural de Angola (Luanda). Chamava-se Jorge Mendonça. Sendo quase um imberbe, o Deportivo da Corunha incorpora-o para jogar na difícil e guerreira segunda divisão espanhola.

No fim da época, o poderoso Atlético de Madrid contrata-o para deliciar os adeptos no velho Metropolitano. O futebol espanhol era poderosíssimo: contava com o Real Madrid que devorava a Taça da Europa e o Barcelona de Kubala e Luís Suárez não era menos assustador. O poder da Liga Espanhola não diferia muito do poder atual. Hoje, o Atlético de Madrid também está presente no triunvirato dos clubes poderosos da velha Espanha. As estrelas eram tantas ou tão poucas como agora e a Europa tremia tanto como treme hoje.

Jorge Mendonça chega a uma equipa onde brilhavam jogadores como o extremo-esquerdo Collar – grande rival e sombra de Paco Gento –, o central argentino Griffa, o lateral Calleja, ou, mais tarde, o pulmão Abelardo. Os dérbis por excelência jogavam-se em Madrid e entre os grandes da Capital. Jorge Mendonça fez-se rapidamente como o terror da defesa do Real Madrid. Era um avançado com muita figura e estilo; era um virtuoso da bola. Em Portugal, conta-se uma anedota que aconteceu num rife-rafe entre o Benfica e o Braga, nos tempos do grande Eusébio. Alguém ligado ao Benfica falou da excelência do Pantera Negra. Teve imediatamente resposta de Braga: “Grande é o Jorge Mendonça!” E era, e foi e deveria ser uma das grandes figuras referenciadas no futebol português. Antes do Futre, Figo, Rui Costa, Paulo Sousa ou do supersónico Ronaldo existiu um senhor que triunfou em Espanha e na Europa. Acontece que temos, muitas vezes, uma memória vesga.

Mendonça foi uma figura do Atlético de Madrid Fonte: colchonero.com
Mendonça foi uma figura do Atlético de Madrid
Fonte: colchonero.com

Triunfou como triunfam os grandes: ganhou várias Taças de Espanha com o Atlético de Madrid, outra com o Barcelona e triunfou na Europa ao vencer com o Atlético de Madrid a sua primeira Taça das Taças. Maradona triunfou em Itália e na Europa ganhando dois campeonatos italianos e uma Taça da UEFA com o Nápoles. Mendonça, além dos troféus mencionados, foi também campeão da Liga Espanhola com o seu “Atleti”. Outra das suas façanhas inscreve-se dentro da grande rivalidade. O Real Madrid da época levava oito anos sem sair derrotado do seu Estádio. Jogar em Chamartin era sinónimo de derrota. Chegou então o Atlético de Madrid de Jorge Mendonça. O Real Madrid perdeu e um dos fuzileiros que determinou a vitória Atlética chamava-se Jorge Mendonça.

Depois de nove anos a representar o Atlético deu com os ossos no Barcelona. Esteve dois anos e ganhou uma Taça de Espanha. No entanto, talvez por se sentir no fim ou porque se sentia predisposto para outras causas (religiosas), forçou a saída da cidade Condal e aterrou em Maiorca. Na bela ilha do Mediterrâneo, dedicou-se mais à causa de repartir Bíblias do que a jogar. Para seu azar (neste caso divino), enquanto distribuía Bíblias a domicílio tropeçou e caiu pelas escadas. Lesionou-se nos ligamentos. No ano posterior, quando entrou a década dos 70 do século passado, retirou-se do futebol. Foi um grande que em Portugal parece que não existiu.

Foto de Capa: colchonero.com

José Luís Montero
José Luís Montero
Poeta de profissão, José simpatiza com o Oriental e com o Sangalhos.                                                                                                                                                 O José não escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

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