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O Passado Também Chuta: Mané Garrincha

José Luís Montero · 2 min

O Passado Também Chuta: Mané Garrincha

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o passado tambem chuta

O poeta brasileiro Drummond de Andrade situava a Mané Garrincha como um enviado divino que aliviava as tristezas que abraçavam o Brasil. Garrincha era de fato a brincadeira; a alegria de jogar, brincar com uma bola e brincava guiado pelo instinto e não pela tática. Num preliminar de um jogo da canarinha contra a União Soviética, o selecionador Vicente Feola dava indicações como jogar. Mandava tocar no meio campo e posteriormente indicava lançamento para as costas do lateral que tapava o Garrincha. Dizia, cheio de sabedoria divinatória, que o Garrincha facilmente o passaria e rapidamente encararia a área rival. Garrincha escutava até que perguntou: “e o mister já combinou tudo isso com os russos?”. Era um homem sem programas. A finta e o voltar a fintar o mesmo defesa e os restantes defesas que se aproximavam não obedecia a táticas ou estratégias; obedecia exclusivamente ao instinto e capricho de um crack que entendeu que o jogo era uma brincadeira maravilhosa.

Estou aqui… Fonte: allejo.com.br
Estou aqui…
Fonte: allejo.com.br

Viu pela primeira vez o mundo em Pau Grande – Rio de Janeiro. Nasceu numa família mais que numerosa e ele continuou a tradição familiar; teve doze ou treze filhos. Quase todas mulheres; teve três filhos homens; dois faleceram e o terceiro foi fruto de uma relação com uma sueca durante uma digressão pela Europa com a sua equipa Botafogo. Amou brincar com a bola e brincou como ninguém. Eusébio considerou-o o melhor jogador de todos os tempos. E foi. Os campeonatos do Mundo ganhos pelo Brasil nos anos 58 e 62 levam o seu nome apesar da irrupção de Pelé ou da presença de Didi. Vê-lo, durante os intervalos dos filmes, nos cinemas Condes, Odéon ou Politeama com a bola parada a ir-se embora da bola e o defesa hipnotizado a segui-lo, não sabendo onde ficara a bola, era melhor que o melhor filme; salvava a tarde. Desde a plateia ao galinheiro, sentia-se um alvoroço tremendo. Saíamos do cinema e a estrela da fita chamava-se Garrincha e não John Wayne.

Pernas tortas. Magia de finta. Improvisação e cachaça. Viveu com a vertigem dos grandes carregado de lendas. Era também a inocência ou talvez fosse simplesmente a bonomia dos génios. Paro-me a pensar e vou vendo os que de alguma maneira se lhe pareceram pela sua grandeza de improvisação e aparecem Maradonas, Ronaldinhos Gaúchos, Bests, o bem português António Simões, Messi, e todos me parecem anãos quando visiono as suas jogadas e as de Mané Garrincha. Não é descritível. Escrever sobre o Deus dos deuses encolhe os dedos; inibe a imaginação; comprime as emoções; aperta o estômago.

A bandeira da lenda Fonte: Wikipédia
A bandeira da lenda
Fonte: Wikipédia

Batia o dia 20 de Janeiro do ano 83 do século XX e uma maldita cirrose hepática acabou com o Alegria do Povo. Tinha apenas quarenta e nove anos. A cachaça corroera o seu organismo. O Brasil estremeceu. O Mundo reconheceu-o, mas os ramos de louros caíram no quintal do Pelé. Pelé foi o primeiro jogador- marketing e Garrincha foi simplesmente um deus de deuses. O seu epitáfio diz: “ Aqui jaz em paz aquele que foi a Alegria do Povo – Mané Garrincha.” Assim seja.

José Luís Montero

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