O Passado Também Chuta: Mané Garrincha

- Advertisement -

o passado tambem chuta

O poeta brasileiro Drummond de Andrade situava a Mané Garrincha como um enviado divino que aliviava as tristezas que abraçavam o Brasil. Garrincha era de fato a brincadeira; a alegria de jogar, brincar com uma bola e brincava guiado pelo instinto e não pela tática. Num preliminar de um jogo da canarinha contra a União Soviética, o selecionador Vicente Feola dava indicações como jogar. Mandava tocar no meio campo e posteriormente indicava lançamento para as costas do lateral que tapava o Garrincha. Dizia, cheio de sabedoria divinatória, que o Garrincha facilmente o passaria e rapidamente encararia a área rival. Garrincha escutava até que perguntou: “e o mister já combinou tudo isso com os russos?”. Era um homem sem programas. A finta e o voltar a fintar o mesmo defesa e os restantes defesas que se aproximavam não obedecia a táticas ou estratégias; obedecia exclusivamente ao instinto e capricho de um crack que entendeu que o jogo era uma brincadeira maravilhosa.

Estou aqui… Fonte: allejo.com.br
Estou aqui…
Fonte: allejo.com.br

Viu pela primeira vez o mundo em Pau Grande – Rio de Janeiro. Nasceu numa família mais que numerosa e ele continuou a tradição familiar; teve doze ou treze filhos. Quase todas mulheres; teve três filhos homens; dois faleceram e o terceiro foi fruto de uma relação com uma sueca durante uma digressão pela Europa com a sua equipa Botafogo. Amou brincar com a bola e brincou como ninguém. Eusébio considerou-o o melhor jogador de todos os tempos. E foi. Os campeonatos do Mundo ganhos pelo Brasil nos anos 58 e 62 levam o seu nome apesar da irrupção de Pelé ou da presença de Didi. Vê-lo, durante os intervalos dos filmes, nos cinemas Condes, Odéon ou Politeama com a bola parada a ir-se embora da bola e o defesa hipnotizado a segui-lo, não sabendo onde ficara a bola, era melhor que o melhor filme; salvava a tarde. Desde a plateia ao galinheiro, sentia-se um alvoroço tremendo. Saíamos do cinema e a estrela da fita chamava-se Garrincha e não John Wayne.

Pernas tortas. Magia de finta. Improvisação e cachaça. Viveu com a vertigem dos grandes carregado de lendas. Era também a inocência ou talvez fosse simplesmente a bonomia dos génios. Paro-me a pensar e vou vendo os que de alguma maneira se lhe pareceram pela sua grandeza de improvisação e aparecem Maradonas, Ronaldinhos Gaúchos, Bests, o bem português António Simões, Messi, e todos me parecem anãos quando visiono as suas jogadas e as de Mané Garrincha. Não é descritível. Escrever sobre o Deus dos deuses encolhe os dedos; inibe a imaginação; comprime as emoções; aperta o estômago.

A bandeira da lenda Fonte: Wikipédia
A bandeira da lenda
Fonte: Wikipédia

Batia o dia 20 de Janeiro do ano 83 do século XX e uma maldita cirrose hepática acabou com o Alegria do Povo. Tinha apenas quarenta e nove anos. A cachaça corroera o seu organismo. O Brasil estremeceu. O Mundo reconheceu-o, mas os ramos de louros caíram no quintal do Pelé. Pelé foi o primeiro jogador- marketing e Garrincha foi simplesmente um deus de deuses. O seu epitáfio diz: “ Aqui jaz em paz aquele que foi a Alegria do Povo – Mané Garrincha.” Assim seja.

José Luís Montero
José Luís Montero
Poeta de profissão, José simpatiza com o Oriental e com o Sangalhos.                                                                                                                                                 O José não escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

Subscreve!

Artigos Populares

Tribuna VIP: O último mundial de Ronaldo e a maior decisão de Roberto Martínez

João Prates está na Tribuna VIP do Bola na Rede. É treinador de futebol, licenciado em Psicologia do Desporto e está no seu espaço de opinião no nosso site.

António Miguel Cardoso vota nas eleições do Vitória SC: «Deixamos o clube organizado e queremos o melhor para o futuro»

António Miguel Cardoso exerceu o seu direito de voto nas eleições presidenciais do Vitória SC deste sábado.

Parada e resposta: Sporting faz oferta por Sergi Altimira e RB Leipzig vai reagir

Sergi Altimira é um dos nomes que está a mexer com o mercado. O Sporting apresentou uma oferta ao Real Bétis pelo médio.

«O Vizela era um projeto que merecia ter um pouco mais de tempo» – Entrevista Bola na Rede a Nuno Silva

Em entrevista ao Bola na Rede, Nuno Silva analisou a passagem pelo Vizela e os desafios que encontrou ao assumir a equipa minhota.

PUB

Mais Artigos Populares

Roy Keane fala sobre o Irão no Mundial 2026 e visa Carlos Queiroz: «Tinha a personalidade de um peixe morto»

Roy Keane recordou a passagem de Carlos Queiroz pelo Manchester United e projetou o caminho do Irão no Mundial 2026.

Internacional espanhol destaca personalidade de José Mourinho: «Acolheu-me como se fosse um filho e deu-me uma oportunidade»

Álvaro Morata destacou as experiências que teve sob o comando de José Mourinho e projetou o seu trabalho no Real Madrid.

Gonçalo Silva regressa ao Farense após dois anos na Arménia

O defesa Gonçalo Silva, de 35 anos, assinou por uma época com opção de renovação e é o primeiro reforço dos algarvios para 2026/2027.