O Passado Também Chuta: O Gil Vicente FC dos meus sonhos

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O mercado de inverno trouxe uma prenda de Natal atrasada para o Gil Vicente FC: Hugo Vieira. E que rica prenda para o mister Vítor Oliveira! É que, embora agora com 31 anos, Vieira, para mim, vai ser sempre o mágico camisola 70 da equipa, que na época 2011/2012 me fez sonhar e acreditar que íamos trazer uma Taça da Liga para Barcelos. A taça não veio, mas aquela equipa ficou para sempre no meu coração: o meu Gil Vicente é aquele.

Como esquecer o dia 22 de março de 2012? Gil Vicente FC x SC Braga. Meia final da Taça da Liga em Barcelos. O Gil até começou melhor com um golo de (claro está, de quem mais?) Hugo Vieira, mas rapidamente o Braga deu a volta. Ao intervalo, os barcelenses suspiravam por uma ajuda divina que nos desse ao menos o empate.

Hugo Vieira e Vítor Carvalho foram apresentados como reforços no passado dia 30 de janeiro de 2020
Fonte: Gil Vicente FC

No descanso, os infantis de cada uma das equipas deram um pequeno show no relvado e os do Gil Vicente acabaram por ganhar, com uma reviravolta, o que animou as tropas gilistas, que já diziam nas bancadas “Vamos fazer como os miúdos”. Foi um daqueles jogos impróprios para cardíacos. Aos 90’, já eu roía o que restava das minhas unhas, quando vejo o lateral Júnior Caiçara (que pensava eu, já tinha merecido um golo pelo livre aos 40’ que passou a centímetros do poste) à entrada da área arsenalista, a rematar meio enroscado e do nada… GOLOOOOO. Que frango do Quim. Pensei que a bancada ia ceder.

Sentia o chão a tremer debaixo dos meus saltos, vi idosos aos pulos, esquecendo-se dos reumatismos e crianças no ar. Um empate frente ao Braga nas meias-finais ia levar-nos a penaltis, mas pelo menos, já tinha sido reposta alguma justiça no resultado. Confesso que estava nervosa, mas sem medo: na nossa baliza estava o Adriano.

Passados todos estes anos, apercebo-me que, de facto, aquele jogo tinha de ser nosso. Festejei as defesas no nosso guarda-redes como se tivéssemos acabado de ganhar a Champions League. As grandes penalidades terminaram com um 4-2, consumado com o penalti de Júnior Caiçara. Admito: nunca pensei que o herói do jogo fosse o lateral-direito. A partir dali, o céu era o limite. Afinal de contas, quem imaginava que um pequeno clube do Norte, afastado dos grandes palcos à custa de burocracias, disputaria a final da taça em Coimbra? Já era uma vitória.

Essa final foi uma alegria e uma tortura: por um lado, a equipa da minha terra, que eu acompanhava há anos, com o meu guarda-redes favorito, o Adriano, o baixinho Júnior Caiçara, o centralão Cláudio, um dos meus médios favoritos, o Luís Manuel, o mágico Hugo Vieira, que era o Ronaldo da minha terra. Por outro, o meu clube de coração, com o Garay, o genial Aimar, o esfregona Witsel. Foi complicado gerir as emoções. Gritei três golos nessa noite, mas mesmo assim, o resultado não me satisfez inteiramente. Quando o Rodrigo marcou aos 30’, pensei “ainda damos a volta como com o Braga”. Quando o Zé Luís empatou com aquele pontapé de moinho, já sentia o caneco a vir para a terra do Galo. Quando o Saviola marcou aos 84’, chorei e ri. No final, estava feliz por ver mais uma taça para o meu Benfica e desiludida por não a ter em Barcelos.

A vinda do Hugo Vieira devolve-me estas memórias felizes da infância. Confesso que, ocasionalmente, ao ver o Gil jogar bom futebol, a nostalgia me ataca e me transporta para aquela meia-final, em que eliminámos o poderoso SC Braga e fizemos o Benfica do Jesus suar. O meu Gil Vicente é esse. O craque já voltou. Agora, só falta fazer uma segunda volta como o remate do Júnior Caiçara: cheia de força e de crença.

Foto de Capa: Gil Vicente FC

Artigo revisto por Inês Vieira Brandão

Inês Figueiredo Mendanha
Inês Figueiredo Mendanhahttp://www.bolanarede.pt
A Maria é uma orgulhosa barqueirense (e por inerência barcelense ) que aprendeu a gostar de futebol antes de saber andar. Embora seja apologista das peladinhas entre amigos, sai-se melhor deixando o que pensa gravado em papel. Benfiquista de coração e Gilista por devoção é sobretudo apaixonada pelo futebol que faz o país parar quando a bola começa a rolar.                                                                                                                                                 A Maria escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

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