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O Passado Também Chuta: Vicente

José Luís Montero · 2 min

O Passado Também Chuta: Vicente

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o passado tambem chuta

Vicente, o irmão de Matateu. Matateu, o irmão de Vicente. Duas figuras imortais do Belenenses, duas figuras estelares do futebol português e internacional. Hoje, alguns eruditos desta coisa do futebol, para situar um jogador no topo, costumam argumentar com dados de taças ganhas. Esquecem-se de que o futebol é um jogo coletivo onde os títulos, por muito que sobressaia um jogador, são obra do coletivo. O jornalismo corre atrás do goleador, atribuindo-lhe o louro do triunfador, esquecendo-se do defesa que cortou in extremis um jogada contrária que alteraria o resultado. Por isso, Vicente, sendo do Belenenses, talvez careça da lenda típica dos grandes craques, mas Vicente Lucas foi o Magriço que, no Mundial de Inglaterra, anulou o mítico Pelé sem o roçar. Era dono, para além da técnica, de um sentido posicional e do tempo do corte fora do comum.

Vicente, tal como o Magriço Hilário, cresceu na escola do futebol descalço e da bola amanhada com o disponível; no entanto, esse pontapear alegre, livre e ocasional não os privou de adquirir um sentido tático invejável. Sendo passado, são futebolistas do presente que se adaptariam sem despentear-se ao futebol atual, onde a tática e o sentido tático do jogador primam pela sua importância. Hoje, principalmente no futebol europeu, o jogador limita-se ao exato e à economia da bola, limitando o seu jogo ao útil. Poucos têm licença para inventar. Mas se a este sentido prático lhe somamos a capacidade técnica e a virtude de ler o tempo do jogo temos um mega craque. Vicente, hoje, seria um desses mega craques perseguidos e desejados pelos grandes clubes, porque, apesar dos adorados goleadores, este tipo de jogadores são as verdadeiras almas das grandes equipas.

Com Pelé Fonte: Belenensesilustrado
Vicente com Pelé
Fonte: Belenensesilustrado

Poucos irmãos foram craques contemporâneos na mesma equipa (possivelmente, só os irmãos De Boer, do Ajax). Estamos perante um caso único ou quase único. Vicente começou a jogar no seu Maputo natal no 1º Maio, sendo júnior. Uma seleção das camadas jovens do então Lourenço Marques contra uma seleção da África do Sul fez com que o seu talento alertasse os olheiros continentais. O velho e notável Lusitano de Évora pretendeu-o; no entanto, devido à sua tenra idade, a família não lhe permitiu vir para o continente. Posteriormente, o Belenenses, clube onde jogava o seu irmão, Matateu, ganhou a partida, e chegou antes dos vinte anos a Lisboa. Automaticamente apropriou-se da titularidade.

Falava de títulos, de conquistas para classificar um jogador – se isso fosse condição necessária, Vicente, com as suas duas Taças de Honra e a sua Taça de Portugal, ficaria na penumbra da História do futebol. Mas o talento não se escreve com taças, escreve-se com obra, e o Vicente, apesar de jogar no então quarto grande de Portugal, escreveu romances pelos relvados que pisou. Vicente estreou-se no campeonato nacional contra o Porto, no velho campo das Salésias; jogava, nos seus inícios, como interior-direito. O Porto perdeu 1-0, e o golo teve um selo chamado Vicente. Foi recebido com a alcunha de Matateu II. No entanto, Vicente rapidamente vincou que não era o Matateu II, vincou que era Vicente.

José Luís Montero

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