O Passado Também Chuta: Vítor Baptista

- Advertisement -

o passado tambem chuta

Existem pessoas beijadas pelo génio que a vida trata mal. No entanto, trespassam a barreira do tempo e conseguem permanecer vivos. Só está vivo quem vive na nossa memória; para os que estão na nossa memória, a morte não existe. Vítor Baptista foi um jogador com todas as bitolas; do meio-campo até à baliza contrária, nenhuma posição ou função lhe era estranha e em todas era excelente. Aproximou-se da tentação de ser profissional depois de participar num torneio de futebol de salão.

Esse torneio teve uma característica e uma bênção curiosa: também participou nele um jogador com uma técnica e qualidade singular chamado Quinito. Jogou na Académica de Coimbra, no Belenenses e no duro e pegajoso campeonato espanhol, representando, com Vítor Damas, o Racing de Santander. Primeiro foi um jogador do meio-campo de técnica apurada e posteriormente adaptou-se à posição de extremo-direito.

O grande Vítor Baptista começou a maravilhar as bancadas de Portugal à tenra idade de dezoito anos. Representando o seu clube natal, o Vitória de Setúbal, entrou a ganhar: venceu a Taça de Portugal. Aquele Vitória tinha jogadores de eleição: Conceição, José Maria, Jacinto João e o guarda-redes chamado Mourinho, pai do célebre treinador Mourinho. Começou a falar-se nele de tal forma que era desejado pelos adeptos e pelos dois grandes clubes: Benfica e Sporting. Alguns entendidos falavam do Vítor Baptista como uma figura semelhante ao mítico Eusébio. No ano 1971 o Benfica fez-se com os serviços de Vítor Baptista. Acabava-se de bater o recorde das transferências em Portugal. Três mil contos foi o montante que ultrapassou as barreiras; além disso, no pacote entraram o magriço José Torres, o Matine e o habilidoso Praia, que fizera história no Leixões.

Vítor Batista maravilhou os adeptos portugueses
Vítor Batista maravilhou os adeptos portugueses

Vítor Baptista, como jogador, era um excelente rematador de todas as distâncias e posições, mas também tinha uma visão de jogo primorosa. Era, do ponto de vista tático, irreverente; mas um jogador criativo e tecnicamente poderoso que joga comodamente em diferentes partes do campo só pode ser uma coisa: irreverente. Os treinadores, por umas e por outras razões, entravam em litígio com o craque. Mário Wilson, Mortimore e, na sua passagem pelo Boavista, José Maria Pedroto, mantiveram quezílias devidas ao seu comportamento tático e talvez disciplinar. Vítor Baptista não era de arrugues. Depois da sua vida no Benfica voltou a Setúbal, passou pelo Boavista e viajou, a convite do mítico António Simões, até os Estados Unidos. Mas a polémica ligada à boémia underground já nascera.

Como todos os grandes, teve nomes e subnomes; entre eles, era conhecido pelo Maior. Ficou célebre também pelas excentricidades vividas em campo: a mais célebre foi quando perdeu um brinco de dez contos no Estádio da Luz. Parou-se o jogo e toda a gente, incluído o árbitro, andaram agachados à procura do brinco. Mais tarde, depois de ter regressado ao Vitória, venceu o Benfica no Estádio da Luz e, quando o jogo acabou, Vítor Baptista, ajudado pelos seus companheiros do Vitória, voltaram a procurar o brinco. Mas a sua vida nos fundos acelerados da droga marcaram, tristemente, a sua existência. Conheceu a pobreza e o emprego camarário para sobreviver.

Os seus clubes talvez não souberam ou não tiveram uma reação que lhe desse estabilidade existencial. O Benfica, para mim, cometeu um erro, tal como cometeu com o bicampeão europeu Cavém, que teve problemas de saúde agudos e problemas de sobrevivência. Vítor Baptista teve uma morte ainda a uma idade moça: faleceu com cinquenta anos em 1999. Para marcar bem o que foi como génio e como muitas vezes são marginados, recordo que passou pouco de uma dezena de internacionalizações; Juca, então selecionador nacional, não foi capaz de o entender. Mas Vítor Baptista vive e viverá.

José Luís Montero
José Luís Montero
Poeta de profissão, José simpatiza com o Oriental e com o Sangalhos.                                                                                                                                                 O José não escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

Subscreve!

Artigos Populares

A novela de Luis Suárez dentro de campo | Sporting

Luis Suárez foi protagonista de verão. O mercado de transferências teve efeito para tal, como o avançado confirmou depois da vitória do Sporting sobre o CD Nacional.

Rui Borges responde ao Bola na Rede: «Este ano acaba por ser uma equipa mais móvel, sem um jogo posicional tão acentuado como tínhamos...

Rui Borges analisou a vitória do Sporting diante do CD Nacional. Técnico respondeu à pergunta do Bola na Rede em conferência de imprensa.

Bruno Abreu responde ao Bola na Rede: «Sabendo que o lado esquerdo do Sporting é extremamente ofensivo, procurámos um jogador interior que pudesse trabalhar...

Bruno Abreu analisou a vitória do Sporting diante do CD Nacional. Técnico respondeu à pergunta do Bola na Rede em conferência de imprensa.

Um romance de verão entre Estrela da Amadora e Famalicão

Numa altura em que vender a Liga parece quase tão importante como disputá-la, há cantinhos bonitos como este Estrela da Amadora x Famalicão.

PUB

Mais Artigos Populares

Stade Brestois vence Le Havre enquanto o Nice empata com o Le Mans na terceira jornada da Ligue 1

Stade Brestois vence Le Havre por 2-1 e Nice empata com o Le Mans a uma bola, na terceira jornada da Ligue 1.

Futsal: Sporting derrota Benfica e vence Supertaça de Portugal

O Sporting venceu o Benfica na final da Supertaça de Portugal de futsal. A partida teve de ir a prolongamento para ser resolvida.

Eis toda a conferência de Rui Borges na análise à vitória do Sporting sobre o CD Nacional

Rui Borges analisou o duelo da 5.ª jornada da Primeira Liga em conferência de imprensa. Sporting e CD Nacional defrontaram-se.