O Passado Também Chuta: Raymond Kopa: O Deus Francês

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o passado tambem chuta

Tudo se pode aplastar, menos a genialidade. Raymond Kopa era um menino produto da emigração oriunda da Polónia. Como tantos outros polacos, fora parar à zona mineira. Um trágico acidente nas minas alterou a sua vida. Deixou uma vida que ainda era incipiente e cruel para começar a brincar, a jogar com uma bola. O céu abriu-se e mostrou, orgulhoso, a sua nova estrela. Acabava de nascer aquele que seria chamado Napoleão. Molière, Racine, Corneille desde as suas tumbas perfuraram os seus caixões e o Marquês de Sade alambicou um novo amor louco. O Stade Reims fez-se com os seus serviços. Os campeonatos franceses começaram a cair e o mundo futebolístico começou a vibrar com aquele diminuto jogador, que, vindo do seu próprio meio-campo, superava adversários e sempre inventava um passe mortal. Finalmente, viu como se lhe abriam as portas da Europa. Uma final da taça da Europa marcaria um novo caminho. Saiu derrotado contra Alfredo Di Stéfano, mas, no ano seguinte, estariam juntos na mesma equipa: o Real Madrid.

Não é um sonho; é a linha avançada do Real Madrid
Não é um sonho; é a linha avançada do Real Madrid

Napoleão chegou a uma Espanha triste e cinzenta. A Guerra Civil colocara na chefia do país um ditador: Franco. A penúria social era evidente. A alegria fomentada era o futebol e, mais concretamente, o Real Madrid. O ano de 1957 estava tão longínquo da felicidade social como da morte do ditador. Chegou a Madrid e incorporou-se à equipa que estava recheada de estrelas da América do Sul: Santamaria, Rial e Di Stéfano. Kopa e Di Stéfano evolucionavam no terreno pelos mesmos espaços. Os génios começaram a estorvar-se. Kopa teve de escorar-se mais à direita, ainda que o seu talento não lhe permitia ser um pau de bandeira mas, sim, um vagabundo de todos os espaços ofensivos. O Real Madrid ganhou encanto. A capacidade de Kopa para desbordar e a sua visão de jogo fizeram multiplicar as ocasiões de golo e as vitórias. Caíram Taças da Europa, Campeonatos; tudo caía quando passava aquela orquestra de fantasia.

França classificou-se para a fase final do Campeonato Mundial. A Suécia seria um campeonato histórico. O Real Madrid, fazendo uso e abuso, não permitira que Kopa participasse nas eliminatórias, mas não conseguiu impedir a sua presença na fase final. O Mundial da Suécia, além de ser o primeiro arrecadado pelo Brasil, foi o Mundial do fabuloso Mané Garrincha. No entanto, foi o primeiro campeonato em que apareceu França nas meias-finais. Kopa, ajudado pelo fantástico finalizador Fontaine, torna-se a sensação do acontecimento. Os caprichos da sorte ou do azar cruzaram França com Brasil nas meias-finais. O Brasil montou um estratagema para que Kopa não conseguisse ultrapassar o seu meio-campo. Garrincha era o diabo, era o fabricador de olhos vesgos na defesa contrária. O Brasil ganhou e ganhou também o campeonato, mas a França alcançou a sua primeira grande classificação: ficou em terceiro lugar.

Deixem passar… Fonte: UEFA.com
Deixem passar…
Fonte: UEFA.com

Chega, então, a hora do reconhecimento. Kopa disputa diretamente com o grande Alfredo Stéfano a Bola de Ouro. Dois génios, dois colegas de equipa e dois jogadores de fantasia. A Bola de Ouro é outorgada ao Napoleão dos relvados. Esse momento, e em disputa direta com um craque como Saeta Rubia, é mais do que um título; é um momento que só os gigantes são capazes de protagonizar.

Regressou a França nos últimos sete anos de vida futebolística. Não foram anos felizes. Entre divergências com a casta dirigente, problemas de saúde de um filho e a multiplicação das lesões, o seu fim não esteve no nível de estrela que teve e com o qual viveu. Retirou-se em 1967 e permaneceu durante décadas o único futebolista francês galardoado ao mais alto nível. Raymond Kopa era a simplicidade desbordante; até Di Stéfano sentiu que ao seu lado jogou um number one.

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