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Na falta de futebol devido ao surto de Covid-19, a quarentena incentivou-me a recuar alguns anos e rever horas e horas de jogos épicos, golos inesquecíveis, defesas tremendas por alguns daqueles que, feliz ou infelizmente, já não o podem fazer. Será sempre algo natural, porém, não posso deixar de ter saudades, especialmente daqueles em que a sua ausência não consegue ser preenchida por nenhum dos que foram surgindo nos últimos anos ou que vão continuar a aparecer futuramente.

Nas últimas semanas perdi-me a rever a seleção dos inesquecíveis Figo e Pauleta, com os rasgos de magia incontornável de Rui Costa. Rever Portugal de 2004, em que o aparecimento de um jovem prodígio era menosprezado face à qualidade que brotava daquelas umbro que nunca esqueceremos. Aqueles pés sempre inclinados para dentro e aquela cabeça sempre bem levantada. Sinceramente ainda me questiono como foi possível Deco espalhar tanta magia em Portugal e durante tanto tempo. Que classe, que alma, que trivelas a assistir Maniche.

Passar de Deco para Aimar foi apenas um passo lógico no acompanhamento da criatividade do futebol português, e aí congelei. Congelei em cabritos, em assistências, no seu golo ao Vitória FC, no histórico 8-1, num SL Benfica com dinâmicas até então nunca vistas por mim, num rolo compressor de futebol atacante.

Após duas semanas em casa, e na primeira renovação do Estado de Emergência, foi claro que a quarentena iria proporcionar uma revisão mais alargada e então passei à Europa. Mas, tal como antes de um exame importante, tornou-se difícil definir qual a matéria essencial a estudar, compreendendo assim divergências com as vossas melhores recordações.

Relembrando aqueles confrontos históricos europeus, fui diretamente a Milão e não pude deixar novamente de me surpreender por ver Eto’o a terminar a defesa esquerdo, naquele confronto épico das meias-finais da Liga dos Campeões com o FC Barcelona.

No Inter de Milão, cativava-me não só aquele meio-campo poderoso e aquela fortaleza defensiva, mas especialmente aquele renascido e influente Diego Milito. A maneira como faz o seu segundo golo da final do Bernabéu, contra o Bayern Munique, é a perfeita definição de tudo o que gosto num avançado centro: ratice, cabeça para baixo quando enfrenta os centrais e finalização de classe na cara do guarda-redes.

Milito bisou na final da Liga dos Campeões de 2010
Fonte: UEFA

Poucos anos antes começava o imutável, soberano e mais fascinante quarteto que provavelmente verei: Busquets-Xavi-Iniesta-Messi. Seguiam-se os anos de glória da seleção espanhola, enraizados no tiki-taka blaugrana e na incontornável perna direita do Casillas, opondo-se ao remate do Robben.

Perspectivam-se mais quinze dias de quarentena. Vi e revi todos os trinta golos de Falcão numa única edição da Liga Europa, a saída de pressão do Kaká no AC Milan, o golo do Van Persie à seleção espanha no Mundial de 2014, o jogo monstruoso do Neuer no Dragão, ainda pelo Schalke 04, que não deixava qualquer dúvida do que nos aguardaria ao longo dos anos seguintes.

Deixei os sortidos e decidi passar algumas noites a olhar para a famosa época dos Galáticos do Real Madrid CF. De bom, retiro sobretudo os passes teleguiados do Beckham, as receções orientadas do Zidane e a classe extraordinária do Raúl. Por outro lado, evidenciavam-se os problemas de intensidade, de rigor defensivo e de capacidade de gerir o jogo que impossibilitaram outra definição como equipa que não os Galáticos. Revi então o Fenómeno, no seu esplendor em Milão, o Figo de Barcelona e voltei-me pela última vez para a Liga Inglesa.

Desde a beleza do pragmatismo e da simplicidade do inesquecível Sir Alex Ferguson, onde a tática e os princípios de jogo se sobrepunham às individualidades, não esquecendo o passe do Nani para a bicicleta monumental do Rooney. A impressionante inovação, aliada à capacidade de posse de bola do City de Guardiola. O emocionante, vertical e inquientante Liverpool de Klopp. O inexplicável Leicester de Ranieri.

Claudio Ranieri depois da conquista inédita da Premier League pelo Leicester City FC
Fonte: Premier League

Bem, conseguem perceber um pouco da minha quarentena. A quantidade de memórias que os meus 26 anos me trazem. Imagino quem tem de conhecer bem mais alguns monstros antigos, de lembrar mais alguns golos inesquecíveis.

Nos últimos dias e após esta fase de nostalgia, achei-me capaz de colocar em prática tudo o que havia recordado e reaprendido. Como? Football Manager. E das longas noites de entretenimento, percebi, essencialmente, que mais do que saudades do que recordei nas últimas semanas, sinto falta de tudo o que andava a conhecer nos meses anteriores.

Não quero ver só os arcos do Estádio da Luz pela janela: tenho saudades de ir e gritar. Não quero ver o Ronaldo a cortar o cabelo ou o Messi a dar toques em papel higiénico, quando podia vê-los a marcar semana após semana. Sinto falta de voltar ao Campeonato Distrital e ver o Alqueidão da Serra, de ver o Bruno Fernandes levar a equipa às costas, seja ela qual for, do Liverpool quase a ser campeão, do muro Oblak, da Lazio e da Atalanta a encantarem a Europa.

Que passe rápido e que, com segurança, possamos voltar em breve. Não me importo que seja aos poucos ou que seja diferente, mas só quero que volte!

Pedro Boal
Pedro Boalhttp://www.bolanarede.pt
O futebol apaixona o Pedro desde as suas origens. Do Alqueidão da Serra para o Bola na Rede, passando do olhar das distritais até ao topo dos campeonatos internacionais. Fascinado pelo debate da tática e pelos princípios de jogo, respeita o encanto das características únicas de cada craque: haverá algo mais lindo do que ver a bola rolar?                                                                                                                                                 O Pedro escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

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