O Benfica x Estoril Praia prometia muito e cumpriu. Duas equipas que procuraram a vitória, sem deixar de praticar um futebol interessante, com muita personalidade. Dois técnicos com um carácter forte (José Mourinho e Ian Cathro), que sabiam ao que iam durante este encontro. O resultado final (3-1 para as águias), não é enganador, já que os encarnados mereceram a vitória, pese embora as dificuldades que a formação da Linha lhes colocou.
E é precisamente pelo lado amarelo do jogo que vamos arrancar este texto. O Estoril Praia apresentou-se para o jogo de uma forma natural e autêntica, sem medos de baixar as linhas, procurando incomodar o adversário desde um primeiro momento. Ian Cathro em grande parte do jogo fez com que a sua equipa pressionasse alto e ao nível individual, como é costume. Um 4x1x3x2 bem montado, com todas as rotinas estudadas, que provocou vários problemas ao Benfica, especialmente em contra-ataques e nos primeiros momentos do jogo, onde algumas oportunidades foram desperdiçadas. Rafik Guitane é o grande protagonista desta equipa. Partindo da direita, o extremo penetra no jogo interior como poucos, capaz de criar oportunidades de perigo, trazendo a bola para os espaços interiores, o que deixa o exterior (da direita) livre para o ala avançar.


Já no meio campo, Jordan Holsgrove é o cérebro desta equipa. Ainda que longe de ser exímio na arte de defender, é muito eficaz, a par dos seus colegas, nesta pressão homem a homem promovida por esta equipa técnica. Com a bola, o escocês cria oportunidades, rasga linhas, vê o jogo como poucos e consegue fazer com que a equipa progrida em campo.
Ainda assim, o Estoril Praia não conseguiu estar próximo da baliza do adversário durante todo o encontro e esse foi o pecado capital. O Benfica subiu as suas linhas e compactou a formação da Amoreira, que passou a depender em demasia de bolas longas e de contra-ataques, que a pouco e pouco foram travados com uma maior naturalidade. Uma última palavra para Felix Bacher. Ainda que não tenha sido o melhor encontro do austríaco, o defesa mostrou alguns rasgos do que tem marcado a sua temporada: forte nas interceções, inteligente nos cortes, um autêntico muro que dá outra segurança a toda a equipa.
Foi o Benfica que acabou por celebrar a vitória com os seus adeptos, mas José Mourinho foi obrigado a realizar uma série de alterações. Enzo Barrenechea lesionou-se, saltando Manu Silva a campo. António Silva iria ser a aposta para o eixo da defesa, mas também sentiu um desconforto no aquecimento (e aqui o problema poderá ser mais grave, já que as águias passam a ter somente dois defesas centrais totalmente disponíveis), com Tomás Araújo a regressar ao onze. Fredrik Aursnes, inicialmente sem explicação, também ficou no banco, para o seu lugar entrou Gianluca Prestianni. O escandinavo também contou com um toque, algo revelado pelo treinador na conferência pós jogo.


Ponto assente: Vangelis Pavlidis foi o homem do jogo com três golos (um deles um dos melhores do ano na Primeira Liga). Ainda assim, houve outros destaques, nos quais nos vamos focar.
Richard Ríos tem ‘sofrido’ uma evolução que pouco se vê no campeonato nacional. O colombiano não é um jogador de números no que toca a golos e assistências, principalmente no futebol europeu. Porém, tem outras virtudes, que já começam a merecer aplausos. O médio venceu praticamente todos os duelos durante a partida, impedindo que o Estoril Praia atacasse mais o Benfica. É um autêntico todo o terreno, estando onde é necessário, seja atrás, seja à frente. Habituado a estar acompanhado por Enzo Barrenechea, na última noite fez dupla com Manu Silva e a relação foi ótima, não se sentindo a ausência do argentino. Richard Ríos não é um maestro, mas sim um membro da orquestra. Não lhe cabe a ele dar perfume ao jogo, mas sim que a bola chegue aos lugares onde alguém o possa perfumar. A pouco e pouco as bancadas da Luz vão percebendo isso e que este estilo de jogador também é caro. O Benfica realizou um investimento de 27 milhões de euros e o valor pago foi justo. Claro que com este tipo de médio em campo, o Benfica terá que contar com mágicos nos postos atrás do ponta de lança. O jogo contra o Estoril Praia ficou marcado pela presença de um atleta deste estilo.
Gianluca Prestianni ocupou a vaga de Fredrik Aursnes no onze. Jogadores totalmente distintos, que oferecem coisas completamente diferentes. O norueguês muito mais cerebral, vendo o jogo dois passos à frente, com uma ligação muito mais íntima com o meio campo e com o lateral direito. O argentino mais individual, capaz de rasgar linhas com a bola nos pés, num drible curto que cada vez se vê menos, mas atento a todas as movimentações dos colegas. Foi o craque que trouxe o Benfica para o protagonismo do jogo, muitas vezes baixando até ao meio campo para receber a bola e transportá-la. Se inicialmente se viu muito colado à linha (e aos despiques com Pedro Amaral), Gianluca Prestianni, bailou no centro, para onde trazia a bola (movimente semelhante ao de Rafik Guitane), criando o pânico no centro da defesa do Estoril Praia e atraindo marcações para onde estava.


O que falta a Gianluca Prestianni é a continuidade. Se o argentino mantivesse o padrão que apresentou na última noite, tinha titularidade absolutamente garantida. Os seus colegas de linha, embora com missões distintas (Leandro Barreiro e Georgiy Sudakov) não realizaram os seus melhores jogos, o que ainda aumentou o brilho do argentino.
Num jogo muito físico, o Benfica conseguiu manter-se por cima, impedindo que o Estoril Praia ganhasse ímpeto depois do tento marcado às portas do intervalo. Isto tem dedinho do treinador, mas a equipa dos encarnados comportou-se ao mais alto nível, ainda que com várias ausências.
Bola na Rede na Conferência de Imprensa
Bola na Rede: O Richard Ríos ganhou praticamente todos os duelos individuais, principalmente na primeira parte. Acredita que o colombiano foi fundamental para que o Benfica conseguisse acabar por dominar o encontro e trazer outra estabilidade ao jogo?
José Mourinho: Uma força da natureza, quilómetros percorridos, montes de duelos ganhos, grande fisicalidade, “atropela adversários”, mas aqui e ali às vezes precisamos de ter mais bola, menos ganhar e perder, recupero bola, perco bola, um passe, dois passes, bola perdido. Às vezes o Benfica tem que ser um bocadinho mais, não falando só do Ríos, mas daquela zona do campo, precisa de ter mais presença de espírito, ter mais.. Rui Costa, estás-me a entender? Mas um jogador imprescindível para nós, que está a crescer. Acho que ele e o Dahl são provavelmente aqueles dois jogadores que nos últimos dois meses tiveram um impacto maior, um crescimento maior.
Bola na Rede: O Estoril Praia apresentou-se na primeira parte com um autêntico carrossel do meio campo para a frente, pressionando individualmente os defesas do Benfica, mesmo na área adversária. Ainda assim, a equipa foi perdendo alguma força com o passar do tempo. Como justifica esta quebra?
Ian Cathro: São momentos diferentes do jogo. Uma coisa é quando as distâncias são A e B, outra coisa é quando são entre C e D, são momentos diferentes. Nós trabalhámos para ter algumas organizações diferentes, em cenários diferentes dentro do jogo. O Benfica ocupou os espaços de uma forma bem definida. Correu bem em alguns momentos, conseguimos recuperar bolas, estar bem preparados para saltar e tentar tapar certas linhas quando eles jogavam para dentro. Talvez o que não conseguimos tantas vezes nessa primeira parte foi conseguir o momento de estar nessa posição mais baixa em campo e conseguir ir ganhando metros com uma maior frequência. É algo normal do nosso jogo. Sabemos que do outro lado há bons jogadores.

