A época do Tenerife: transformar uma subida de divisão numa mera formalidade

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Não tão longe da costa africana, situam-se as Ilhas Canárias, que pertencem ao território espanhol. Se outrora, tal como Portugal, Espanha contou com o domínio do mundo, através de rotas e conquistas, aumentando o seu território por intermédio de colónias espalhadas por toda a esfera terrestre durante alguns séculos, as suas posses ficaram reduzidos a dois arquipélagos (à semelhança dos lusos), situação vivida desde o final do século XIX, pós o ‘Desastre de 1898’. Ainda que seja uma nação recheada de nacionalismos, os nuestros hermanos conseguiram manter uma pequena parte daquilo que se tratou de um império

Uma outra semelhança entre os dois países da Península Ibérica está relacionada com os clubes de ditos arquipélagos. Ao contrário do que sucede em outras nações, Portugal e Espanha contam com históricos insulares, importantes para o desenvolvimento do desporto rei. No caso luso, o nome de Cristiano Ronaldo ainda dá mais relevância à Ilha da Madeira. Nas Canárias nasceram atletas de alta competição, relativamente importantes na atualidade, como Pedri. Ainda assim, nenhum com o estatuto do ponta de lança do Al Nassr. Contudo, voltemos às semelhanças, que nos vão levar ao tema principal deste artigo.

Há várias instituições nos territórios insulares de Portugal e Espanha, mas três destacam-se em cada país:

Portugal:

  • Açores: Santa Clara
  • Madeira: Nacional da Madeira e Marítimo

Espanha:

  • Baleares: Mallorca
  • Canárias: Las Palmas e Tenerife

Todos os clubes nomeados já passaram por altos e baixos. Em Portugal, por exemplo, o Marítimo era a grande referência por vários anos, principalmente pela quebra do emblema da Choupana. Contudo, em 2026 a situação é a inversa. O Nacional da Madeira vive um momento de nova estabilização na Primeira Liga, enquanto que os rubro-negros anseiam pelo regresso ao topo da pirâmide.

Jogadores do Tenerife
Fonte: CD Tenerife

Há um outro clube que vive esse período de transição, esse desejo do regresso a um lugar onde sente que pertence. Essa equipa é o Tenerife, que possivelmente em 2025/26 vai conseguir bater uma série de recordes, ainda que esteja num escalão não desejado. Os últimos anos dos blanquiazules são marcados por desilusões e lágrimas, consequência de uma gestão aquém do esperado e que provocou uma queda que se fazia esperar.

Todavia, a glória esteve perto, antes da descida até ao inferno. Em 2021/22, o Tenerife conseguiu o apuramento para o playoff de subida à La Liga, caindo somente aos pés do Girona (época marcada pela primeira escorregadela do Eibar), por 3-1, no próprio Heliodoro Rodríguez López. Uma festa que poderia ter sido feita em casa, levando uma ilha a celebrar pela madrugada a dentro, transformou-se no último momento de esperança, dando-se início a uma travessia pelo deserto. 2022/23 e 2023/24 foram épocas medianas, com lugares no meio da tabela (10.º e 12.º lugares). 2024/25 ainda não tinha começado e já se augurava uma temporada de sofrimento. As más vibrações da dupla descida entre 2010 e 2011 fizeram-se sentir novamente. Os adeptos esperavam o pior e o tempo deu-lhes razão.

A época arrancou com Óscar Cano no banco de suplentes, uma decisão que não fazia sentido à vista de quem não conhecia a realidade da instituição. O treinador espanhol não conseguiu alcançar a manutenção do Sabadell na Primera RFEF e ainda assim garantia uma ‘promoção’ a um histórico da La Liga. O Tenerife conseguiria um melhor treinador, havia interessados. Contudo, a palavra de José Miguel Garrido foi mais forte. Quem é José Miguel Garrido? À época, o máximo acionista dos insulares. Para os adeptos, um dos grandes vilões da história recente do clube. O empresário escolheu Óscar Cano, depois de ter trabalhado com o mesmo no Castellón. O Conselho de Administração dividiu-se, mas pouco havia a fazer. Curiosidade: a escolha de técnico e a divisão entre duas opções já geraram problemas no Tenerife numa ocasião. Em 2020/21, Juan Carlos Cordero, então diretor desportivo da equipa, elegeu Julio Velázquez (com passagem pela Primeira Liga) para o comando do plantel principal. A decisão não agradou ao presidente, nem aos adeptos, fazendo o nome cair. Fran Fernández acabou por ser o nome oficializado. Voltemos a 2024.

Álvaro Cervera no Tenerife
Fonte: CD Tenerife

A época revelou-se uma desgraça, confirmando-se a trajetória descendente. O Tenerife não tinha equipa tão inferior à dos rivais, mas as vibrações eram negativas e o ambiente vivido não era agradável. A aposta em Óscar Cano durou pouco. O andaluz não estava pronto para o desafio (dar o mérito pelo seu bom trabalho em 2025/26 pelo Zamora) e não venceu qualquer jogo dos cinco disputados, perdendo quatro deles. A estrutura apostou por uma mudança de paradigma com a contratação de Pepe Mel. O experiente treinador trazia bagagem, um conhecimento quase único da La Liga 2. Aparentava ser o homem ideal para uma terapia de choque, naquela que era a sua segunda passagem pelo Heliodoro Rodríguez López, mais de 20 anos depois de ter aterrado pela primeira vez nas Canárias (para orientar o lado azul e branco). Os resultados foram muito abaixo. Os seus conhecimentos não foram suficientes para a ‘máquina voltar a trabalhar’. Três vitórias em 16 jogos colocaram o Tenerife a rezar por um milagre, já que estava a 11 pontos da zona de manutenção. O mais curioso foi o facto de Pepe Mel ter renovado o seu contrato ainda em novembro, mas a confiança durou pouco.

É em dezembro de 2024 que começa a ‘revolução’ do Tenerife, que tinha a noção de que a despromoção era o cenário mais provável. Rayo García emerge na estrutura e contrata Álvaro Cervera, um nome igualmente experiente, habituado a trabalhar com plantéis que precisam de um boost de confiança. O técnico conhecia bem a casa, já que orientou o clube entre 2012 e 2015, e a sua missão era fazer os adeptos sonharem, ao mesmo tempo que se preparava 2025/26. Os resultados dentro de campo foram melhores, mas insuficientes. Em maio de 2025, o Tenerife era oficialmente uma equipa de terceira, mas com um plano.

O mesmo começou a ser desenhado nesse dezembro de 2024, protagonizado por Rayo García. José Miguel Garrido, depois de uma reunião do conselho de administração, perdeu o seu poder dentro da instituição e foi precisamente em Rayco García em quem confiaram para chefiar uma nova etapa, onde se sabia que o dinheiro era pouco e o clima vivido era hostil. Contudo, havia esperança.

A montagem do projeto estava entregue a alguém que sentia o Tenerife, que conhecia a terra como poucos. Não conseguiu ser futebolista, mas transformou-se num gestor de elite, organizando eventos relacionados com o mundo do futebol. Rayco García sabia que podia ser alguém no desporto rei, mas fora das quatro linhas. Ter a oportunidade de liderar o emblema do seu coração foi algo para o qual trabalhou. Apesar da despromoção, convenceu Álvaro Cervera a ficar e procurou que os adeptos dessem uma oportunidade a um novo Tenerife.

Nacho Gil no Tenerife
Fonte: CD Tenerife

A rotura total com o passado deu-se com a chegada de Felipe Miñambres à presidência da instituição. Aos 60 anos, regressou a uma casa quem bem conhecia, já que atuou pelo Tenerife entre 1989 e 1999. O leonês foi visto pelo conselho de administração como o nome ideal para assumir o cargo, dada a sua experiência dentro do futebol espanhol, exercendo vários cargos relacionados com a direção desportiva.

A grande preocupação foi evitar uma revolução total no plantel, mantendo peças importantes, dando espaço aos mais jovens e contratando jogadores que realmente acrescentassem algo. José León, Maikel Mesa, Aitor Sanz ou Enric Gallego aceitarem o reto e assumiram a liderança da nova equipa. Nomes como Nacho Gil, Cris Montes (que não tem contado com grande espaço), Jesús de Miguel, Marc Mateu (passou parte da época lesionado) ou Dani Martín analisaram o projeto e disseram ‘sim’ a rumarem a uma equipa que estaria na Primera RFEF. Juanjo Sánchez, que se destacou no Mérida, deu o seu aval para trocar a Estremadura pelas Ilhas Canárias, quando podia ter dado o salto para as competições profissionais. Os jovens David Rodríguez, César Álvarez, Dani Fernández ou Alberto Ulloa mantiveram-se no clube que os formou, procurando reerguê-lo. O próprio Noel López, outrora a grande pérola da formação do Deportivo de La Coruña e uma esperança no Real Madrid, aceitou o desafio de representar o Tenerife numa fase longe da glória. Rayco García e Felipe Miñambres montaram uma equipa de luxo e assumiu sem medo o favoritismo na prova, com a mais-valia de ter conseguido manter um treinador experiente e com foco na causa.

O Tenerife está um degrau acima dos rivais. Os insulares encontram-se num escalão não profissional, mas montaram uma equipa claramente apta para atuar na La Liga 2. A qualidade faz-se a ver a cada jornada que passa e 2025/26 pode ser uma época de recordes. A RFEF dividiu o escalão em dois (como faz habitualmente) e colocou os blanquiazules no Grupo 1, com as equipas mais a norte do território continental. Se a luta pelos lugares de playoff será até ao apito final, o primeiro lugar parece que já está reservado para o Tenerife. Após 24 jornadas, a formação orientada por Álvaro Cervera encontra-se disparado na liderança com 54 pontos, mais nove que o Celta B, o segundo classificado. O emblema faz parecer ‘fácil’ um escalão tradicionalmente complicado, que consegue complicar as contas dos eventuais favoritos e históricos que passam pelo escalão. O Deportivo de La Coruña não conseguiu regressar à La Liga 2 de maneira simples, passando quatro anos no terceiro nível. Outros, como o Real Múrcia, o Gimàstic Tarragona, o Hércules ou Sabadell continuam por lá.

Iván Chapela no Tenerife
Fonte: CD Tenerife

A estrutura tinha a noção de que para que a equipa resistisse, sem que a crise financeira agravasse, a sua passagem pela Primera RFEF somente poderia ser de uma época. O objetivo será (ao que tudo indica) cumprido. O Tenerife em janeiro tratou de reforçar ainda mais e melhor o seu plantel. Garantiu por empréstimo do Girona Antal Yaakobishvili, depois de meia época no Andorra. Iván Chapela, com experiência na divisão, aterrou proveniente do Burgos, onde foi consideravelmente menos utilizado que no Eldense, emblema em que se destacou na La Liga 2. Gastón Valles também assinou pela formação do Heliodoro Rodríguez López. No caso do uruguaio, houve uma oportunidade de mercado. O ponta de lança pertencia ao Unionistas de Salamanca, onde tentava relançar a carreira depois de ultrapassar um período de lesão. Gastón Valles já tinha provado que era competente o suficiente para estar nos escalões profissionais e no Reina Sofia demonstrou ser o jogador mais capacitado às ordens de Mario Simón. Era outra loiça. A sua cláusula era de apenas 15 mil euros, possivelmente colocada por vontade do jogador. O Tenerife não ousou em batê-la, sabendo que contaria no seu plantel com mais um jogador com faro de golo, por um custo baixo, sem grande risco.

 A equipa está a dominar a prova como nunca nenhum emblema conseguiu fazê-lo e a subida é a uma realidade virtual, que em poucas semanas passará a ser oficial, caso se mantenha o ritmo (nota para os últimos dois resultados menos positivos (empate frente ao Athletic B e derrota ante o Ferrol). Porém, nem todos os clubes possuem tal capacidade para realizar uma época de tal quilate, conseguindo formar uma equipa de alto padrão. Oficialmente, o Tenerife rumou a uma competição não profissional, mas continua um passo à frente do resto, com toda a experiência que ganhou nos últimos anos. A nível orçamental, é disparadamente a equipa que mais investiu e a que mais gasta em salários, mas a maioria dos jogadores deverão ser para manter em 2026/27, já numa realidade de La Liga 2.

Enric Gallego CD Tenerife
Fonte: CD Tenerife

Está este domínio ao alcance de todos? Evidentemente, não. Em Portugal assistimos a quedas de históricos à Liga 3, que ainda não conseguiram voltar. Vimos outros emblemas a caírem mesmo no fundo, renascendo das distritais, procurando um regresso às competições profissionais. Estas instituições acusaram a saída do nível profissional para o amador, com parte delas a viverem uma crise financeira já há alguns anos. O Tenerife não respira saúde financeira, mas a sua gestão está a permitir que este passo atrás dure somente um ano. Além disso, os apoios que uma equipa recebe na La Liga 2 são muito superiores aos da Segunda Liga.

Em novembro de 2025, a dívida do Tenerife estava nos 25 milhões de euros, o valor mais alto da sua história, com 10 milhões de euros curto prazo. Parte deste aumento se justifica com a perca dos direitos televisivos da La Liga 2. No segundo escalão a equipa recebia seis milhões e meio de euros. Na Primera RFEF tem direito a 650 mil euros.

O orçamento do Tenerife para esta época é pouco superior aos 10 milhões de euros, mas o mesmo é mais do que suficiente, em comparação com os seus adversários, sabendo da urgência em regressar ao futebol profissional. A Cultural Leonesa, equipa que foi promovida do Grupo 1 em 2024/25, contou com um orçamento a rondar os 5 milhões de euros.

Festejo jogadores do Tenerife
Fonte: CD Tenerife

Caso os insulares falhem, entrarão numa crise de outra dimensão. Porém, Felipe Miñambres e Rayo García não ainda deram margem ao erro, nem a que fossem estudadas alternativas para a sobrevivência, como sistemas de financiamento.

O Tenerife não esteve bem dentro de campo em 2024/25, mas os responsáveis aprenderam a lição e apresentaram um plano de recuperação a curto prazo, que estão a cumprir na perfeição. Foi dada prioridade aos resultados nas quatro linhas, para os rendimentos voltarem a aumentar fora das mesmas, algo que será permitido pelo regresso ao profissionalismo. Nem todas as entidades podem dar-se ao luxo de pensar no curto prazo. Em 2026/27 voltaremos a ver na La Liga 2 o Tenerife (a não ser que um ‘terramoto’ aconteça), com Álvaro Cervera (que está a um jogo de se transformar no técnico com ais jogos ao serviço do clube) a provar que é o nome ideal para estabilizar novamente a equipa no segundo nível do futebol espanhol. A partir desse momento, será tempo de dar um olho ao longo prazo, que estará na agenda dos dirigentes.

Jesús de Miguel no Tenerife
Fonte: CD Tenerife

Ricardo João Lopes
Ricardo João Lopeshttp://www.bolanarede.pt
O Ricardo João Lopes realizou a sua formação na área da História, mas é um apaixonado pelo desporto (especialmente pelo futebol) desde criança, procurando estar sempre a par da atualidade.

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