Explicar a um aficionado com bilhete de época que muito do futebol português se joga nos bastidores seria tão útil como explicar a um adulto que o Pai Natal não existe. E as minhas expetativas já são baixas, mas seria bestial não ter de revirar os olhos cada vez que recebo uma notificação a dizer “leia as últimas declarações do presidente”. Qual presidente? Todos.
É que nos últimos dez anos, os três fregueses mudaram os seus protagonistas. Podia, com isso, ter caído um estilo de liderança. Podia, com isso, ter-se encerrado o ciclo das escutas, dos vouchers e do cashball. Podia, com isso, virar-se a página. Mas acho que ainda nem sequer acabou o capítulo. E esta época tem sido particularmente insuportável, talvez pelo facto dos três acreditarem que o Marquês ou os Aliados estão ali mesmo ao virar da esquina.
Os tuítes encarnados: as eleições já terminaram. A presidência não mudou. Mas a estratégia de comunicação externa do Benfica parece ainda estar a fazer uma campanha que soa desesperada por alguma coisa. Os mais atentos farão o raio-x e diagnosticam a construção de uma realidade em que se imagina que as Águias estariam mais perto – ou à frente – dos seus adversários, não fossem os constantes erros dos árbitros. Como mencionava um internauta, em dois anos recebeu 24 newsletters oficiais que continham a palavra “injustiça”. Os outros é que vão todos em contra-mão.
Na antevisão à Supertaça, a posição oficial dos encarnados foi criticar a nomeação do árbitro Fábio Veríssimo assim que a mesma foi publicada. O cúmulo da crítica: o árbitro de Leiria ainda nem organizou a boleia, e já foi linchado pelo maior clube português, que está a dar um belo exemplo.
Na altura, o setubalense ao leme do Benfica era o mister Bruno Lage, menos dado a estes textos dramáticos. Hoje, o mister é outro setubalense, José Mourinho. O português menos contente com a conquista da Liga das Nações, há bem pouco tempo respeitado por todos, queixa-se. De tudo, na verdade. Do plantel, dos árbitros, do dedinho. O mestre da comunicação não está a ser um promotor de uma atmosfera limpa neste nosso futebol. O clube aproveita a deixa e continua a tweetar demasiado.
As provocações verde-e-brancas: se tudo o que é verde ainda não está maduro, o presidente Frederico Varandas já nada tem de verde. Dos três, é o presidente há mais tempo com a pasta, e até o seu maior detrator terá de concordar que a sua expressão oral melhorou drasticamente. E se com um grande poder vem uma grande responsabilidade, a figura máxima do Sporting não presta a nova retórica ao serviço de deitar água na fervura.
As suas declarações não têm cumprido a velha máxima de não misturar trabalho e família. Várias têm sido as vezes em que parece não saber onde desenhar a linha sem atacar frontal e pessoalmente as presidências azuis-e-brancas, sendo que ainda esta semana mencionou que morreria de vergonha se tivesse de olhar para os filhos tendo atitudes como as de André Villas-Boas.
O modus operandi já valeu pelo menos dois processos: um com o Conselho de Disciplina da Federação Portuguesa de Futebol, outro que chegou a tribunal. Embora absolvido de ambos, sabemos que a fogueira não se apaga com gasolina.
Vítima do próprio sucesso desportivo, Varandas vê a sua figura a desgastar-se rapidamente no futebol, tendo sido já acusado por ambos os rivais de ser um novo Dono Disto Tudo. Com um estilo nitidamente provocatório, não se pode dizer que tenha tentado fazer muitos amigos encarnados ou azuis-e-brancos.
Os comandos azuis-e-brancos: estamos recordados da averiguação interna que o presidente André Villas-Boas prometeu? Corria o mês de novembro quando o árbitro Fábio Veríssimo denuncia a divulgação repetida de imagens relativas a um jogo amigável de iniciados que havia apitado anos antes na televisão (sem comando) do seu balneário no Estádio do Dragão. Villas-Boas afirma ter sido o último a saber, e alivia para canto com um inquérito interno para “averiguação de responsabilidades”.
O que ainda não sabíamos é que não seria a última vez que um balneário azul-e-branco seria polémico esta época.
Depois da visita do Sporting ao Dragão a contar para a 21.ª jornada da Liga Portugal, os Leões relataram episódio de um ar condicionado (também sem comando) com temperatura desconfortavelmente alta e uma decoração que consideraram excessiva do balneário dos visitantes – decoração essa que, sabe-se hoje, não foi propositadamente colocada para essa partida. Dias depois, o jornal Record noticia a presença de palavras subentendidas e intimidantes nestas imagens de momentos de sucesso do FC Porto, tais como “medo” e “ambulância”.
No rescaldo, contabiliza-se já uma queixa contra Hjulmand num jogo não relacionado com o Clássico, um comunicado que aponta a um complexo de inferioridade, uma ilustração de Varandas como calimero no Porto Canal e uma newsletter interna em que acusam o presidente do Sporting de controlar a arbitragem portuguesa.
A reflexão: vivemos na era das narrativas. Cada artista pinta a realidade da sua cor, dando o mote para uma militância crispada e monocromática. É só assim que se ganha no futebol português? Quais as consequências reais de não construir narrativas cáusticas? Se um deles for diferente, o clube deixa de vencer?
Os anos passam, os intervenientes mudam, o ar permanece irrespirável. Resta esperar que seja uma constipação sintomática da mudança de estação, mas receio que não seja dos pólenes… porque parece mesmo que a primavera nunca mais chega ao futebol português.

