O mercado de transferências. Esse elo de ligação entre o negócio e o desporto rei. Uns adeptos adoram este período, esperando as capas dos jornais do dia seguinte, na esperança de algum desenvolvimento em relação a um possível reforço para o seu clube. Para outros, quiçá mais interessados com o que se passa dentro das quatro linhas, não há tanto entusiasmo.
Tal como o futebol, as transferências e o mecanismo das mesmas sofreram desenvolvimentos e tornaram-se cada vez mais complexas. As equipas procuram ter a melhor base de dados possíveis, centrando-se nos alvos perfeitos para os respetivos projetos, ainda que com a existência de outros nomes nas ‘equipas sombra’.
Hoje em dia, por exemplo, é cada vez mais raro uma transferência ocorrer sem a presença de uma cláusula de rescisão no contrato assinado, algo que nos anos 80 e 90 era uma completa novidade. Em Portugal, os emblemas começaram a proteger as suas pérolas com tais cláusulas, que eram consideradas manifestamente exageradas, até ao momento em que as mesmas começaram a ser batidas (a inflação provocada pela mudança de Neymar Júnior do Barcelona para o PSG ajudou a isto).
Em Espanha estas cláusulas de rescisão são obrigatórias nos dois primeiros escalões e passaram a ser usadas com frequência desde 1985, data de mudança da lei laboral. O futebol espanhol, tal como o inglês, foi o percursor em muitos pontos. O Real Madrid procura dar o próximo passo no que diz respeito à evolução do mercado de transferências. As cláusulas de recompra (associadas a uma percentagem de uma futura venda) não são uma novidade, mas os próximos anos prometem a afirmação total da imposição das mesmas em negociações, especialmente quando se tratam de negociações de jogadores de emblemas de topo mundial.
Antes de analisarmos os casos práticos envolvendo o Real Madrid, expliquemos como funcionam as ditas cláusulas. A equipa A, com outro estatuto dentro do mundo futebol que a equipa B, conta com um jovem X que não tem minutos na sua formação principal, mas que precisa de ganhar tempo de jogo para a sua evolução não estagnar. A equipa B, interessada em contar com um jovem potencial, tenta a contratação do jovem X. A equipa A vê na equipa B um bom ambiente para o desenvolvimento do atleta que ainda está nas suas fileiras e acede às negociações. Contudo, insere uma cláusula de recompra, com um valor pouco superior ao que será pago pela equipa B. Assim sendo, caso o jovem X se desenvolva como o esperado, poderá adquiri-lo por uma verba mais baixa que os restantes concorrentes de mercado, que terão o elemento sob atenção. A somar a isto, existe por norma uma cláusula de futura venda. Caso a equipa A não queria garantir a contratação do jovem X, vai beneficiar financeiramente da sua venda por parte da equipa B. Não há forma de sair a perder.
O primeiro grande nome usado pelo Real Madrid nesta política de contratações foi o de Dani Carvajal. Muitos pensam que o lateral foi emprestado ao Bayer Leverkusen em 2012, mas o mesmo foi vendido por cinco milhões de euros aos alemães. Os merengues colocaram uma cláusula de recompra de seis milhões e meio de euros. Valor esse que pareceu uma ‘bagatela’ em 2013, depois de se ter assumindo como um dos melhores da sua posição na Bundesliga. Anos depois, Fran García também regressou ao Santiago Bernabéu, depois de um período fora, mais precisamente ao serviço do Rayo Vallecano. O lateral esquerdo, vendido em 2022 por dois milhões de euros, foi comprado por cinco milhões de euros em 2023.
Florentino Pérez, por muitos defeitos que lhe sejam apontados, é um dos génios de mercado. O dirigente sabe perfeitamente que é impossível manter todas as jovens promessas no clube, quando o plantel principal tem apenas espaço para 26/27 elementos. Assim sendo, tenta mantê-los de alguma forma ligados ao Real Madrid, ainda que joguem com outras camisolas.
Esta temporada está a ser marcada por vários rumores de regressos ao Real Madrid. Nico Paz, vendido ao Como 1907 por seis milhões de euros em 2024, deve regressar à capital espanhol em 2026, por 10 milhões de euros (no caso do argentino, esta cláusula de recompra era ‘evolutiva’, com o preço a aumentar a cada verão). Jacobo Ramón também está a brilhar nas mãos de Cesc Fàbregas, pode voltar a ser adquirido por oito milhões de euros, após ter sido vendido por dois milhões e meio de euros.
Na Alemanha, Chema Andrés é um dos destaques de 2025/26 do Estugarda. O nível do médio defensivo era superior ao Real Madrid B e está a provar esse ponto nos Big 5. A cláusula de recompra é de 13,5 milhões de euros. Os merengues não facilitam igualmente a nível interno. Sergio Arribas (Almería), Yusi (Deportivo Alavés), Álvaro Rodríguez (Elche), Víctor Muñoz (Osasuna) ou Víctor Chust (Cádiz) podem regressar à base, se o Real Madrid assim o desejar.
Trata-se de um modelo vencedor, que coloca o Real Madrid um passo à frente dos rivais. Neste aspeto, os blancos estão vários passos à frente do Barcelona, que tem a sua equipa B no quarto escalão do futebol espanhol e seguramente vários atletas vão estagnar, embora Hansi Flick dê abertura à integração de jovens promessas na equipa A, algo que Carlo Ancelotti não estava tão disposto a dar. Com Xabi Alonso, essa avaliação ainda terá que ser feita.
Claro que para que a negociação avance, o clube comprador terá que estar disponível a este modelo, mas a procura de resultados no imediato, facilitam toda a situação em benefício do vendedor. O Real Madrid vai prosseguir com este estilo de vendas, principalmente em posições em que a equipa principal conta com nomes indiscutíveis. Fran González (guarda-redes), David Jiménez ou Jesus Fortea (laterais direitos), César Palacios ou Bruno Iglesias (médios) deverão ser os próximos a ‘rodar’. Já jovens como Jorge Cestero, Lamini Fati, Víctor Valdepeñas, Joan Martínez ou Thiago Pitarch devem merecer várias oportunidades na equipa principal. Ainda assim, caso não rendam o esperado, deverão ter o mesmo caminho, na esperança de renderem nas mãos de outro técnico e regressarem pela porta grande do Santiago Bernabéu.
Não será de estranhar que equipas de outra tarimba, como Manchester City, PSG, Liverpool, Bayern Munique ou o próprio Barcelona insiram as cláusulas de recompra nos seus negócios envolvendo jovens promessas. E Portugal?
São vários os casos de vendas com cláusulas de futura venda de 50%. Geralmente, Benfica, Sporting e FC Porto libertam o jogador sem custos, mas mantendo parte do passe, garantido a possibilidade de conseguir alguma verba, caso o atleta atinga o sucesso. Contudo, estas cláusulas de recompra não são usadas pelas equipas, deixadas de lado pelos diretores desportivos. O que é relativamente natural. Para começar, só faria sentido tal aplicação por parte de Benfica, Sporting e FC Porto (talvez Braga e Vitória SC possam juntar-se a este grupo seleto), já que os plantéis dão pouca margem à entrada de jovens, no caso da existência de um momento positivo. Além disso, quando existe uma promessa de outro nível, as equipas não gostam de a deixar partir para outras bandas, preferindo um crescimento dentro de casa, com menos minutos, mas próximo da base.
Portugal não conta com uma liga de topo, é um antigo mercado intermediário. As equipas não estão ao nível do Real Madrid. Assim sendo, os jovens fazem parte do planeamento inicial de cada temporada. Salvador Blopa seguramente já era bem conhecido por parte de Rui Borges. José Neto conseguiu destacar-se dentro do Benfica, mas era um nome em conta para a equipa principal, caso se afirmasse nos escalões de formação. Ainda assim, José Mourinho e a estrutura prefere manter próximo de si nomes como João Veloso ou Diogo Prioste, que podiam figurar na tal política, mas que continuam na equipa B. É pouco provável vermos um dos candidatos ao título vender jogadores a clubes de meio de tabela ou de outras ligas, com cláusulas de recompra. A evolução é maior em casa, mesmo com menos minutos.
O Real Madrid é assim o ‘criador’ e principal fomentador desta política, que é somente aplicável pela elite. A tendência é um aumento de cláusulas de recompra por parte de várias equipas. No entanto, a bola está sempre do lado do jogador. Quer no desejo de regressar a casa, quer na capacidade de voltar a ser querido no conjunto onde fez a sua formação.

