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Regresso a Casa: As minhas coisas favoritas

André Maia · 3 min

Regresso a Casa: As minhas coisas favoritas
Foto: André Maia

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O Regresso a Casa é uma rubrica na qual os antigos redatores voltam a um lugar que bem conhecem e recordam os seus tempos antigos escrevendo sobre assuntos atuais.

Nunca vi o “Música no Coração”. Dizem que é giro, mas nunca fui grande fã de musicais. Mas a verdade é que quando tive a ideia para este texto, no regresso a esta casa, lembrei-me do quanto gosto dela e principalmente o quanto gosto de futebol.

E aí um refrão surgiu na cabeça, cantarolado a meias pela Julie Andrews e pela mãe do Barney de How I Met Your Mother, que me deu a conhecer a música. Se para Julie Andrews as coisas preferidas eram “bigodes de gato” ou “chaleiras de cobre”, para mim não havia dúvida: as minhas coisas favoritas são “bola”. Mas mais do que isso.

Fui rever a magnífica letra de “My Favourite Things” e franzi o sobrolho com as coisas preferidas de Julie Andrews: chaleiras? Pacotes de papel? Quem é que tem coisas destas como predileção? Não só pelo desinteresse dos objetos, como pela especificidade. Até que desacelerei e constatei algo: eu sou igual à Julie Andrews.

Porque as minhas coisas favoritas não são apenas “bola”. Como disse, são muito mais do que isso. As minhas coisas favoritas são, na verdade, a espuma da bola. E em tempos de pandemia, curiosamente, é disso que tenho sentido mais falta. Não da bola a entrar ou da finta magnífica. Também, mas essas ficam imortalizadas na Internet ou nas 6438 repetições de jogos antigos com que nos presentearam (e por isso agradeço).

Não, as minhas coisas favoritas, como as da Julie Andrews, são as mais pequenas, específicas e desinteressantes. Tenho saudades de passar horas a flutuar nos jogos amigáveis do PES 2020 a recriar as partidas reais da próxima semana; tenho saudades de ler os comentários das publicações de final do jogo nas redes sociais de um clube grande quando perde; tenho saudades dos programas de debate ocos, em que não se fala de fu… estou a brincar, disso não tenho saudades, que não voltem.

E principalmente esta semana tive saudades de duas outras coisas bastante específicas e pequenas, mas que para mim eram gigantes: dei por mim a perguntar ao meu irmão quando sairia a caderneta de cromos do Europeu. Não vai sair, André. Este ano não. Fazia a coleção desde 2004 e espero continuar a fazê-la no próximo ano. Mas não este ano, em conjunto com alguns amigos.

E com os amigos também não voltarei tão cedo ao campo do clube da terra, aquele do qual aprendi a gostar durante este ano, para deixar de ser apenas simpatia. E de que aprendi a gostar também por causa deles. Os domingos não são a mesma coisa sem os abraços desenfreados na bancada, com uma bifana na mão feita pelo Zé.

Esta semana voltei lá. Sentei-me no relvado e fiquei a observar o campo, com o sol e o vento a bater na cara. “Isto ainda é muita grande, pá”, disse a um amigo. Porque as coisas mais pequenas são normalmente as maiores em paixão. São estes os meus “bigodes de gato” e “chaleiras de cobre”. Coisas pequenas, mas importantes. E que quando a normalidade voltar, quem de direito não subestime as coisas pelo tamanho. As mais pequenas vão precisar de apoio. O nosso terão: são as nossas coisas preferidas.

Artigo revisto por Inês Vieira Brandão 

André Maia

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