Pausa técnica: O regresso aos estádios

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O calor a fazer-se sentir, a máscara a apertar e eu a correr sem ter a certeza se teria lugar ali. Chego finalmente à bilheteira. Tem uma fila de quatro ou cinco pessoas. Anda rápido. Há bilhetes! Já de bilhete na mão dirijo-me a outra fila uns passos mais à frente. Não deixa dúvidas porque se vê ao longe, tem algumas dezenas de pessoas.

Não demoro muito até conseguir a pulseira e fico com a sensação de que está tudo muito bem organizado e a fluir. Ainda assim, foram bem audíveis reclamações de alguns adeptos mais velhos para quem todo aquele sistema era algo confuso. Alguns deles já tinham dado a volta ao estádio. Apesar de tudo, achei injusto. Era o primeiro jogo da época com público, estava toda a gente a aprender, clubes incluídos.

 

Quando chego à minha porta percebo que todo aquele processo não levou sequer 10 minutos. “Bem, Gil!” penso eu. Pensamento interrompido por mais reclamações de outros adeptos que tal como eu teriam de fazer mais uma caminhada para conquistar a sua pulseira. Tinham seguramente mais 30 anos que eu e argumentavam não terem sido informados do processo. Foi quando percebi que para mim tudo fluía às mil maravilhas. Sabia o que tinha de fazer, movimentava-me rápido e sem dificuldade de um sítio para o outro. A internet dava a ajuda que faltava. Lembrei-me de como seria se fosse o meu avô, como conseguiria ele a informação. A dificuldade e o tempo que levaria para contornar o estádio.

Fiz uma pesquisa demasiado rápida (e superficial, devo admitir) sobre o perfil do adepto português. Talvez exista, no entanto, não encontrei algo que me respondesse à pergunta: qual é a idade média do adepto português? Quando me lembro dos clubes dos quais sou mais próxima, sobretudo do Campeonato de Portugal, a ideia que tenho é que a sua massa associativa é composta na sua maioria por pessoas +55. Talvez isto esteja tremendamente errado. Ainda assim era bom que refletíssemos sobre a acessibilidade do adepto.

Volto à minha porta. Antes de entrar ainda consigo assistir ao reencontro de duas amigas rejubilando por ali estarem:

– «Ah! Não acredito! Não acredito!»

Fazem aquela dancinha que agora fazemos quando queremos abraçar alguém que não vemos há muito tempo, mas ainda temos de lidar com os receios e distâncias. Matam saudades enquanto ajeitam o cachecol do Gil que lhes cai sobre os ombros.

Entro finalmente no estádio. Caramba, que bonito está o Cidade de Barcelos. O sol põe-se à minha frente por entre as brechas das bancadas enquanto os adeptos do Boavista cantam à minha direita. A máscara impede-me de sentir o cheiro da relva que se estende apenas a alguns metros de mim. As equipas alinham-se sob os últimos raios de sol. Os adeptos do Gil despertam, o meu pé cede ao bater dos tambores. O árbitro apita. Três minutos depois, Fran Navarro tem a bola nos pés, está em posição frontal, aguenta a carga, segura, segura. Começa a desviar-se para a direita. Na bancada dá-se início à primeira suspensão da temporada, o movimento em uníssono, a lenta construção coletiva de um chuta, chuta. Chuta! GOLO!

Começou a época, os adeptos estão de volta a casa e eu sinto que posso continuar o legado de Eduardo Galeano: voltar a ser uma espécie de pedinte que anda de estádio em estádio suplicando apenas por uma boa jogada.

Artigo de opinião de Márcia Ribeiro Pacheco,
Atriz e Produtora de Conteúdos

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Redação BnR
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