A liderança de Carletto

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Em tempos idos tirei os dois primeiros níveis de treinador de futebol, cumpri o sonho de ser treinador do clube da minha terra e se muitas vezes, a esse nível e olhando à distância, o resultado acaba por não ser o mais importante, a verdade é que a bola entrar ou não faz toda a diferença na carreira de um treinador. Mas há muito mais além disso.

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Nunca terei sido um treinador brilhante, acredito que também não fui péssimo enquanto andei por esse meio, e mais importante que tudo o resto tenho hoje muitos amigos que fiz durante essa etapa da minha vida. Em dois períodos distintos, deverão ter sido umas 12 épocas, talvez. E se houve algo a que sempre dei importância foi à questão do relacionamento com os jogadores. Eles são, afinal de contas, quem define o presente e o futuro de um treinador. E sempre considerei que um treinador está sempre muito mais perto do sucesso se tiver um plantel que aceite a sua ideia e que queria ir com ele até ao fim. Mesmo que, no plano teórico, não seja superior a alguns adversários.

O que tem acontecido no Santiago Bernabéu este ano fez-me reforçar essa crença. Carlo Ancelloti chegou a Madrid para tentar reorganizar o futebol do Real, no Verão em que o Real se despediu da dupla de centrais formada por Sérgio Ramos e Varane, um dos pilares de várias conquistas das épocas anteriores.

O experiente treinador italiano, que deixou o Everton para voltar a Madrid, recebeu o consagrado Alaba e mais tarde o jovem Camavinga como únicos reforços. Recuperou Ceballos e Isco para quando fossem necessários. Deu a Vinícius a serenidade necessária para se tornar numa referência da equipa, retirou a Rodrygo a responsabilidade de ter de ser sempre decisivo (algo que já tinha prejudicado a afirmação de Vinícius) e esperou pelo crescimento natural de quem tem o talento do jovem número 21. A par de tudo isto, coincidência ou não, Benzema faz a época que vai fazer dele, se o futebol for justo, melhor jogador da época.

O Real Madrid não só foi campeão, também beneficiando de uma época mais atípica dos principais adversários na luta pelo título espanhol, como conseguiu fazê-lo a cinco jornadas do fim da LaLiga 2021/2022. E como se isso não fosse suficiente, Carlo Ancelotti, o homem da Décima, voltou a apurar o Real Madrid para uma final da Champions League.

Com a conquista do campeonato, Carletto passa a ser o único treinador da história do futebol a ser campeão nas cinco principais ligas europeias: Itália (AC Milan), França (PSG), Alemanha (Bayern), Inglaterra (Chelsea) e, agora, Espanha (Real Madrid). É também o primeiro a chegar a cinco finais da prova: três com o AC Milan (2003, 2005 e 2007) e duas com o Real Madrid (2014 e 2022).

Voltando ao tema da relação com os jogadores, no final da fantástica eliminatória das meias-finais da Champions com o City guardei uma frase de Ancelotti quando lhe perguntaram se ia voltar a fumar um charuto, como na fotografia que correu o mundo em que o técnico está, em grande estilo, de charuto na boca ao lado de vários jogadores. Disse o italiano: “Não fumo charutos. Fumei apenas para a fotografia com os meus amigos. Os jogadores são meus amigos”.

Quando muitos treinadores tentam fazer vingar a ideia de que a distância para com os seus jogadores pode ser uma boa receita para o sucesso, Carlo Ancelotti prova exatamente o contrário. Toni Kroos, após esse jogo, confessou que o treinador falou com ele, Modric e Marcelo antes de tomar as decisões das últimas substituições. Elucidativo quanto à forma de liderar do italiano. Diálogo. Confiança. Liderança. Três palavras que podem ajudar a definir Carlo Ancelotti.

Já agora, lembro que o criticado 10.º lugar com o Everton, a três pontos das competições europeias, teria com certeza muitos adeptos nos Toffees: quando escrevo estas linhas, o Everton está abaixa da linha de água na Premier League e corre sérios riscos de descer de divisão.

Veremos o que ainda reserva o futuro a Carletto Ancelloti. O homem tranquilo, que tranquiliza e que, acima de tudo, ganha. Sim, porque a bola entrar ajuda mesmo muito.

 

Artigo da opinião de Pedro Castelo,

jornalista ELEVEN

Redação BnR
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