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Já com 82 anos de vida, o Grupo Desportivo Alcochetense é um dos clubes mais emblemáticos da AF Setúbal, mas passou por grandes dificuldades financeiras e organizativas durante metade desta década. Acompanhados pelo presidente Nuno Reis, fomos descobrir como é que os verde-e-brancos recuperam de uma crise que afastou a vila do clube, a formação como tábua de salvação em tempos difíceis e a aposta nas modalidades como forma de aproximar as pessoas do clube. Eis a quarta edição de “O Clube lá da Terra”.

Fonte: Fábio Boavida / Bola na Rede
“O clube tinha um passivo muito acima daquilo que um clube como o Alcochetense pode suportar, ou seja, na maior parte das situações, seria suficiente para fazer o clube fechar portas.”
Bola na Rede (BnR): Há quantos anos acompanha o GDA?
Nuno Reis (NR): Desde os meus seis, sete anos. Sou de Alcochete e vinha ao campo antigo (atual campo de treinos). O meu irmão mais velho jogou aqui, eu também passei pela escola de formação do Alcochetense e o meu irmão mais novo também jogou cá. O meu avô e o meu tio também eram do Alcochetense, por isso, faz parte da minha vida desde criança.
BnR: Como estava o clube quando entrou em 2016?
NR: O clube passou por grandes dificuldades nos últimos anos, quer a nível financeiro, quer a outro nível: Os sócios e simpatizantes estiveram de costas voltadas para o clube . Nós entrámos e encontrámos uma situação complexa de gerir.

Fonte: Fábio Boavida / Bola na Rede
BnR: Como surgiu a oportunidade de chegar à direção do clube?
NR: Tinha um colega na anterior direção – o atual vice-presidente – que saiu por discordar das atitudes da antiga direção. Na altura pus aqui na formação o meu filho mais novo e voltei a estar envolvido na vida do clube e percebi que o clube não estava numa situação favorável e que havia aqui alguns riscos. O clube tinha um passivo muito acima daquilo que um clube como o Alcochetense pode suportar, ou seja, na maior parte das situações, seria suficiente para fazer o clube fechar portas. Mas havia uma nuance: a dívida estava centrada em dois ex-presidentes (Carlos Cortes e Orlando Carvalho) e isso permitiu-nos avançar mesmo com as condições adversas.
BnR: Qual foi o principal objetivo quando agarraram no Alcochetense?
NR: Tínhamos dois objetivos principais, a parte financeira: tornar o clube sustentável e ir no sentido de resolver alguns problemas financeiros do passado. Neste momento não estão todos resolvidos, mas já se conseguiram grandes avanços nesse sentido. Outro dos grandes objetivos era a recuperação do património do clube, porque estava muito degradado – e ainda não está nas condições que pretendíamos.
Estamos a falar do estádio, da sede, que continua fechada apesar de ser um dos nossos objetivos a sua reabertura, mas infelizmente o clube continua a viver com limitações financeiras e até solicitámos à autarquia que nos facultasse um espaço nesse sentido, com o objetivo de reaproximar os sócios do clube. Outro objetivo era a aposta no futebol de formação, porque um clube da dimensão do Alcochetense depende muito daquilo que vai ser gerado na formação, porque é um clube com pouca capacidade de criar receita, há pouco apoio das empresas do concelho e o Alcochetense está sempre dependente da ajuda da Câmara Municipal e da Junta de Freguesia.
Infelizmente, o futebol de formação encontrava-se numa situação provavelmente mais grave que a situação financeira, porque não havia uma política coerente e andava-se muito aos zigue-zagues, as pessoas viviam em função das pressões dos pais e havia situações em que pais mandavam em escalões. Estamos a viver com as dificuldades que vinham de trás, mas estamos num bom caminho e este ano apresentámos uma candidatura para a escola de formação da Federação Portuguesa de Futebol e o Alcochetense virá a ser uma escola de formação de quatro estrelas, o que nos deixa extremamente orgulhosos.

Fonte: Fábio Boavida / Bola na Rede
“Quando chegámos ao clube dissemos aos jogadores que na época seguinte iam estar todos a custo zero e (…) ficaram só algumas pessoas que tinham uma identidade forte com o clube.”
BnR: Passados quase três anos desde a sua chegada, o clube está financeiramente mais estável?
NR: Sim. Podemos dizer que, atualmente, o passivo do clube foi reduzido em cerca de 80%. Estamos a falar de uma situação que podia pôr em risco a subsistência do clube. Houve essa redução. Temos gradualmente tentado sensibilizar patrocinadores, Câmara e Junta de Freguesia para nos darem uma ajuda e gradualmente as coisas têm melhorado.
No entanto, temos situações do passado que continuam a limitar a nossa gestão, não é fácil porque houve erros que foram cometidos e que neste momento ainda nos deixam agarrados ao passado e o passado está a demorar imenso a passar. Mas podemos dizer que o clube está estabilizado e vamos ter eleições agora em maio, onde pretendemos recandidatar-nos e que será a passagem para o próximo nível, ou seja, estabilizámos o clube, estamos mais preparados para o segundo mandato e queremos dar continuidade ao que temos vindo a fazer.

Fonte: Fábio Boavida / Bola na Rede
BnR: Essas dificuldades explicam os maus resultados desportivos das últimas duas épocas?
NR: Sem dúvida nenhuma. Costumo dizer que gerir com dinheiro é fácil, gerir sem dinheiro é que é difícil. Os maus resultados acabam por não ser maus resultados tendo em conta as circunstâncias daquilo que herdámos. Quando chegámos ao clube dissemos aos jogadores que na época seguinte iam estar todos a custo zero e, como deve calcular, ficamos praticamente sem plantel, ficaram só algumas pessoas que tinham uma identidade forte com o clube. O clube deve muito a essas pessoas, porque na altura em que precisou deles disseram “presente”. Até nisso se pode dizer que as coisas não foram assim tão más, porque fomos buscar atletas que estavam parados há três ou quatro anos.
Atendendo a essa situação, não podemos de todo considerar que os resultados foram assim tão maus. Garantir a manutenção era o objetivo que traçamos e conseguimos. Para se ter noção, no ano em que entrámos, desceram três clubes de divisão mas conseguimos a manutenção. É importante o clube estabilizar financeiramente para, no futuro, almejar outros sonhos.

Fonte: Fábio Boavida / Bola na Rede
BnR: O Alcochetense tem alguns jogadores estrangeiros no plantel. Como chegaram ao clube?
NR: Os atletas (Eze e Thiago Peñaranda) chegam ao clube porque, face às dificuldades financeiras que tinha, fomos quase obrigados a estabelecer uma parceria com uma empresa onde há uma gestão partilhada, diferente de uma SAD, onde o parceiro nos vem dar uma ajuda, daí aparecer esses atletas estrangeiros.
BnR: É complicado estar uma divisão abaixo do Montijo?
NR: Não. Nós respeitamos o Montijo, estão numa cidade com muitos mais habitantes que Alcochete e, digamos, que é uma situação algo normal. Não deixamos de dormir por causa disso. Há uma rivalidade com o Olímpico do Montijo, mas respeitamos o clube e faz parte. O Olímpico chegou lá mas também teve de optar por ter parceiros para lá chegar. Por isso, não perdemos o sono com isso.

Fonte: Fábio Boavida / Bola na Rede
“Antes de entrarmos cá, não se falava do Alcochetense na vila e voltou-se a falar, o que é um orgulho para nós, já é positivo.”
BnR: Como está a relação entre a população e o clube?
NR: Atingimos os 1000 sócios e, gradualmente, vamos conseguindo reaproximar a população do Alcochetense. Só para ter uma noção, antes de entrarmos cá, não se falava do Alcochetense na vila e voltou-se a falar, o que é um orgulho para nós, já é positivo.
Chegámos à administração e o clube era só vocacionado para o futebol e o clube precisa das pessoas, por isso implementamos novas modalidades para aproximar as pessoas do concelho no Alcochetense e isso tem-se verificado gradualmente, não como desejaríamos, mas é muito mais fácil destruir que construir. Houve políticas que afastaram as pessoas do clube e trazê-las de volta é muito mais difícil. Neste momento notamos que as pessoas se estão novamente a aproximar do clube, não na velocidade que gostaríamos, mas estão a aproximar-se.

Fonte: Fábio Boavida / Bola na Rede
BnR: As boas instalação do GDA em relação a outros clubes ajudam a chamar atletas?
NR: O Alcochetense é um dos clubes do distrito de Setúbal com melhores condições para a prática do futebol. No entanto, temos o problema da localização geográfica, estamos numa extremidade do distrito. Podemos dizer que estamos perto de Lisboa mas não há atletas que venham praticar desporto aqui tendo tanta oferta em Lisboa. O que o Alcochetense tem feito para aumentar o número de atletas é fazer uma promoção junto das escolas, o que não era feito. Quem cá estava ficava à espera que os atletas viessem cá.
O Alcochetense é a referência do concelho mas, neste momento, apesar de termos um complexo desportivo do melhor que há, penso que não tenha muita influência nos atletas que vêm para cá. Quando foi feito o sintético, aí sim, o Alcochetense beneficiou, porque havia poucos sintéticos na altura, também aproveitando o fim do Desportivo do Montijo e, na altura, vieram muitos miúdos do Montijo para aqui.
BnR: Têm apostado no ténis, futsal, râguebi e basquetebol. Há mais modalidades no horizonte?
NR: A abertura de novas modalidades está sempre dependente de pessoas que possam coordenar esses projetos com alguma autonomia. A direção do Alcochetense é curta, jovem, de pessoas com vida profissional ativa e não é fácil gerir um clube desta dimensão, ainda para mais de forma amadora, onde abdicamos de parte das nossas vidas para dar o contributo ao clube. As modalidades estão sempre dependentes de pessoas que se queiram juntar a nós, mas o Alcochetense está sempre aberto para isso. O essencial não é só haver futebol, mas haver desporto no concelho.

Fonte: Fábio Boavida / Bola na Rede
BnR: A resposta foi positiva em termos de atletas?
NR: No râguebi sim. Era um projeto pessoal de pessoas de Alcochete que estiveram ligadas ao Samouco porque o Alcochetense tinha vedado a entrada do râguebi, por isso, juntaram-se ao ADS, sempre com o objetivo de chegar ao Alcochetense. Quando saíram de lá tinham cerca de 30 atletas e hoje tem mais de 80, foi um crescimento substancial e é um dos clubes com maior crescimento a nível nacional na Federação de Râguebi. No ténis começámos do zero e já havia um projeto de ténis em Alcochete que acaba por dificultar, o mesmo se aplica ao futsal porque já há dois clubes aqui, por isso é um projeto que está a crescer lentamente. O basket é uma modalidade que apareceu este ano, já vinha com 30 e tal atletas e neste momento são mais de 40. Está a crescer mas gradualmente.
BnR: O Campeonato de Portugal é um objetivo?
NR: Sim. Não me parece que, na atual conjuntura, o clube tenha capacidade para ir mais além que isso e mesmo assim já será um esforço financeiro, porque o tecido empresarial em Alcochete, infelizmente, não apoia o clube e não será fácil chegar mais além.
Foto de Capa: Fábio Boavida / Bola na Rede













