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Flops “made in Primeira Liga” – O que falha ao dar o salto?

Tiago Serrano · 7 min

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Cabeçalho Futebol Nacional

O futebol português vai muito além dos três grandes. Ano após ano, existem jogadores que se destacam fora dos eternos candidatos ao título e que despertam o interesse. Na história do futebol português, muitos jogadores que brilharam em clubes de segunda linha deram o salto para um grande e foram bem sucedidos. Porém, também já houve muitos outros que fracassaram ao dar o salto, principalmente após a Lei de Bosman que, para além de ter causado uma revolução no mercado, também acabou com a limitação de jogadores estrangeiros nos clubes portugueses. Muitas questões pairam quando um jogador com provas dadas no futebol português não consegue vingar num grande, não sendo capaz de dar o passo seguinte na sua carreira. E, na verdade, existem vários factores que levam os jogadores a não se conseguirem impor.

Uma coisa que é preciso entender, é que no nosso futebol existem alguns jogadores que são talhados para clubes pequenos. E isto porquê? Porque as características desses jogadores não encaixam no futebol praticado pelos três grandes. Mas, antes de chegar a essa parte, irei referir alguns exemplos.

Felipe Augusto transferiu-se para o Benfica após se notabilizar no Rio Ave FC e no SC Braga. Será que irá pegar de estaca? Fonte: Sport Lisboa e Benfica
Felipe Augusto transferiu-se para o Benfica após se notabilizar no Rio Ave FC e no SC Braga
Fonte: Sport Lisboa e Benfica

Começando na baliza, com o brasileiro Marcelo Moretto, que assumiu a titularidade na equipa do Vitória FC, já numa fase avançada da época 2004/2005, sendo decisivo na conquista da terceira Taça de Portugal para o clube sadino. Na época seguinte, estava a ser o dono da baliza menos batida da liga (apenas 4 golos sofridos até à 16ª jornada), despertando a cobiça do SL Benfica e do FC Porto. Acabaria por ser o, então, campeão nacional a levar a melhor na disputa pelo guardião brasileiro. Moretto destacava-se pelos reflexos apurados, pela enorme elasticidade e pelo exímio jogo de pés, assumindo a titularidade na equipa encarnada. Porém, Moretto de águia ao peito, alternou exibições de grande nível com erros de palmatória que custaram pontos aos encarnados. A questão aqui é que os ditos guarda-redes de clubes pequenos, são guarda-redes que se sentem mais confortáveis quando estão sob pressão constante, ou seja, quando têm mais trabalho. Porque quando o adversário da sua equipa ataca muito, o guarda-redes é mais vezes chamado a intervir e, como tal, está mais atento e concentrado. Os guarda-redes das equipas de segunda linha, ou que lutam pela manutenção, sobressaem, muitas vezes, em jogos em que são constantemente chamados a intervir mas, em contrapartida, têm mais tendência para sofrer golos em jogos em que têm pouco trabalho, porque estão menos concentrados e abordam os lances de forma mais desleixada. Creio que foi isso que levou Moretto a fracassar no Benfica. Outro exemplo foi o de Marcelo Boeck no Sporting CP que, apesar de ter sido o eterno suplente de Rui Patrício, também cometeu algumas fífias nas poucas oportunidades que teve.

Foto de Capa: FC Porto

Passando, agora, para o sector mais avançado, também existem vários extremos que não pegaram de estaca num grande. Refiro apenas 2 exemplos recentes: Marega no FC Porto, na época passada, e Daniel Candeias no Benfica, em 2014/2015. O extremo, nascido em França, mas internacional pelo Mali, foi contratado pelo CS Marítimo em Janeiro de 2015 e, rapidamente, se assumiu como uma peça chave no estilo de jogo do clube madeirense, despertando o interesse do Sporting e do FC Porto, acabando por rumar ao clube azul e branco. Candeias, por seu lado, transferiu-se para o Benfica, após três épocas em que foi uma das figuras de proa do CD Nacional. São extremos de características diferentes. O português, formado no FC Porto, é mais um jogador de ala, que gosta de cruzar para a área. Marega, apesar de também ser um jogador rápido, gosta mais de aparecer na área para finalizar. Mas há uma característica que ambos têm em comum: são muito bons a explorar o espaço nas costas da defesa e sentem-se, claramente, mais confortáveis em equipas que jogam em contra-ataque. Nos clubes grandes, onde as equipas normalmente jogam de forma mais aberta, fluída e dinâmica, os extremos precisam de ter mais a bola no pé; precisam de ter mais iniciativa de jogo; precisam de ser mais habilidosos com a bola nos pés; e ter mais capacidade de desequilíbrio. E, ainda, há os casos de Marvin Zeegelaar e César Peixoto, extremos que Jorge Jesus adaptou a laterais no Sporting e no Benfica, respectivamente, mas que nem assim se conseguiram afirmar. Depois, há vários pontas-de-lança que mostraram os seus dotes de goleador em equipas de segunda linha e que fracassaram ao dar o passo seguinte. Exemplos recentes disso mesmo foram o sul-coreano Suk no FC Porto na época passada e o brasileiro Derley no Benfica em 2014/2015. O ponta-de-lança internacional sul-coreano foi a principal figura do Vitória de Setúbal no ano civil de 2015 e, tal como no caso de Marega, Sporting e FC Porto lutaram pela sua contratação, acabando também por rumar à Invicta, onde, apesar de ter dado poder ao jogo aéreo da equipa, não se conseguiu afirmar como uma alternativa credível a Aboubakar (2 golos em 11 jogos). Já o brasileiro, transferiu-se para os encarnados após ter sido o segundo melhor marcador do campeonato 2013/2014 ao serviço do Marítimo com 16 golos. Agora, representa o Trabzonspor da Turquia a título de empréstimo.

Suk Não se conseguiu impor no Dragão após ter brilhado no Bonfim. Fonte: FC Porto
Suk Não se conseguiu impor no Dragão após ter brilhado no Bonfim
Fonte: FC Porto

No Benfica, Derley mostrou bons pormenores, revelando-se como um avançado que sabe segurar a bola e servir os colegas em melhor posição, mas esteve longe de confirmar os dotes goleadores que mostrou nos Barreiros (2 golos em 27 jogos), encontrando-se neste momento emprestado aos mexicanos do Jaguares de Chiapas. Avançados deste perfil, com um bom porte atlético, do qual tiram partido para deslocar e desgastar a defesa adversária, com um bom jogo aéreo, e que também sabem recuar no terreno e distribuir jogo, são avançados que evidenciam dificuldades num estilo de jogo de ataque continuado, normalmente utilizado pelos clubes grandes. No entanto, a incompatibilidade entre o perfil do jogador e o estilo de jogo da equipa não é o único motivo que leva um jogador falhar ao dar o salto. Existem outros casos em que os jogadores têm perfil e qualidade para um clube grande, mas existem outras circunstâncias que fazem com que o jogador não se consiga afirmar. Há situações em que, simplesmente, o jogador não tem muitas oportunidades porque está tapado por uma forte concorrência e/ou porque o treinador tem outras preferências. Às vezes, deve-se a um problema mental ou motivacional. Um jogador, quando se transfere para um clube grande, tem que entender que essa transferência é um sinal de reconhecimento pelo seu trabalho mas é, também, um acréscimo de responsabilidade. E, como tal, têm de trabalhar mais para conquistar um lugar numa equipa com melhores jogadores, e que luta por voos mais altos.

Foto de Capa: FC Porto

Às vezes, os jogadores (neste caso acontece com os mais jovens) deixam-se levar pela fama e pelo mediatismo e têm uma abordagem desleixada aos treinos e jogos, acabando por deitar tudo a perder pela sua falta de profissionalismo. E, há outros casos em que, simplesmente, o jogador não se consegue adaptar. Um jogador, ao dar o salto para um grande, vai para um clube que luta pelo título, não pelas competições europeias ou pela manutenção. Vai para um clube com maior dimensão, maior estatuto e, consequentemente, o grau de exigência também é maior. Para que a adaptação seja feita com sucesso, é necessário que o jogador tenha força mental e capacidade para ultrapassar as dificuldades, e existem situações em que um jogador não revela essa capacidade, cedendo à pressão e às exigências que jogar num clube grande implica. Neste caso, não é um exemplo de um jogador que me vem à memória, mas sim de um treinador. No Verão de 2013, Paulo Fonseca transferiu-se para o FC Porto após ter levado o FC Paços de Ferreira a um sensacional terceiro lugar no campeonato, o que representou a sua melhor classificação de sempre. E, apesar de ser um treinador competente e com muitas qualidades, o técnico nascido em Moçambique não se adaptou às exigências e, com o aparecimento dos maus resultados não aguentou a pressão, acabando por se demitir.

Paulo Fonseca teve um começo promissor no FC Porto, mas acabou por mostrar que não estava preparado para dar o salto. Fonte: FC Shakhtar
Paulo Fonseca teve um começo promissor no FC Porto, mas acabou por mostrar que não estava preparado para dar o salto
Fonte: FC Shakhtar

Depois, há situações em que o jogador não consegue agarrar um lugar num grande, não por problema dele, mas sim do clube para onde vai, porque este se encontra sem a casa arrumada e sem uma equipa estável, o que dificulta a adaptação e a integração de um jogador na equipa. Foi o que aconteceu há mais de 20 anos, aquando das transferências de Tavares e Nelo para o SL Benfica. Estas duas peças-chave, no xadrez de Manuel José no Boavista, transferiram-se para o clube encarnado, fazendo parte da revolução de balneário que Manuel Damásio levava a cabo no Benfica. Revolução na qual desfez uma equipa campeã. Com isso, Tavares e Nelo não vingaram no Benfica e regressaram ao Bessa na época seguinte. Em muitos anos de história do futebol português, já houve muitos jogadores que falharam ao dar o salto para um dos ditos três grandes e, provavelmente, continuará a haver, porque nenhum clube no mundo acerta em todas as contratações que faz. Todas estas circunstâncias irão, também, originar expectativas quanto às contratações de Soares e Filipe Augusto: será que vão vingar? Só o futuro o dirá.

Artigo revisto por: Diana Martins

Foto da capa: FC Porto

Tiago Serrano

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