Canta, ó Musa, o clube das mil e uma tormentas.
Quando os grandes reis da Europa içaram velas para a grande guerra, a das noites de hino e de glória, a dos sonhos últimos e desesperados, o varão da Luz não estava no cais. Não o levou a tempestade muito menos a ira de Poseidon, pois Rui Costa é abençoado pelos Deuses. Simplesmente adormeceu de manhã, enevoado pelo Bruma na janela (à espera de quem o leve), e quando acordou, o barco da Champions já era um ponto longínquo no horizonte.
Restava-lhe a alternativa que resta sempre aos heróis que perdem o barco: dizer-se encorajado pela nova demanda, e embarcar para essa outra guerra de quem poucos contam a história. Não se vai para Tróia, portanto, mas para Fernão Ferro, uma epopeia menor entre rotundas, seis batalhas de pré-eliminatória para conquistar o direito de disputar aquilo a que em tempos chamávamos, com desdém, a Taça UEFA.
O primeiro monstro ergueu-se ameaçadoramente das águas alpinas: o Santo Galo, criatura de alva plumagem que nenhum bestiário ateniense registou, porque os gregos, gente séria, não classificavam aves de capoeira. E o Galo, contra todos os augúrios, até bicou primeiro, e segundo, dois contra um nos Alpes, choro nas naus, ranger de dentes nos podcasts, desespero e tropeções nas bancadas. Foi preciso que na Catedral se levantasse o único homem a bordo que leu o texto de Homero: Pavlidis, grego de nação e de ofício, que sabendo de cor como acabam as epopeias resolveu abreviar a sua e despachou quatro golos lá para dentro, como quem diz “levem-me daqui, por favor”. Cinco a zero, o Galo depenado, e sessenta mil almas a festejar como se Tróia ardesse, só que não era Tróia, apenas a segunda pré-eliminatória da segunda maior competição europeia (ou menor, dependendo de onde começamos a contar), mero degrau de escada de serviço celebrado como escadaria de mármore. Assim beija o náufrago a rocha que lhe esfola os joelhos, não porque ama a rocha, mas porque ainda se lembra de se estar a afogar.


Segue-se agora o temível Coração de Midlothian. O plebeu jura que o nome saiu do Senhor dos Anéis, meio caminho entre Minas Tirith e uma loja de souvenirs em Edimburgo, quando na verdade foi furtado a Sir Walter Scott, romancista local. Dupla infâmia: vamos disputar a sobrevivência europeia contra uma nota de rodapé da literatura e do futebol. E que temível Coração este, que nos chega já aberto ao meio pelo Sturm Graz, seis golos em duas mãos, despromovido sem anestesia da Champions para este purgatório partilhado.
Porque a Liga Europa é isto, convém dizê-lo sem parcimónias, um meio termo entre o paraíso e o inferno, onde os outrora assíduos das grandes guerras se entreolham sem se cumprimentar. Do peito do coração ferido ergueu-se já um ponta de lança, Cláudio Braga, luso de nascimento, prometendo levar família e amigos para fazer frente a sessenta mil crentes. Registe a Musa esta admirável húbris: um homem, a mãe, dois primos e um padrinho contra uma Catedral inteira. Se vencerem, regressam a casa banhados em glória; se perderem, ao menos jantaram fora.
Para lá do Coração espreitam as criaturas derradeiras, Aarhus ou Sabah, autênticas Cila e Caríbdis desta viagem, contendo contudo uma diferença técnica que a honestidade me obriga a declarar: é que Cila devorava seis marinheiros por passagem, Caríbdis engolia naus inteiras, mas Aarhus e Sabah, que se saiba (e quem é que sabe, confessem lá?) nunca morderam ninguém. São monstros por nomeação oficiosa, as grandes tormentas da Odisseia dos pequeninos a que o nosso herói nos condenou a todos. E contudo, o benfiquista experimentado sabe que é precisamente destes, dos monstros sem dentes e das águas paradas, que a nossa frota guarda as memórias mais dolorosas. O Benfica fez-se grande a batalhar ciclopes e lestrigões, mas já pereceu mais do que uma vez aos pés destas inomináveis criaturas – inomináveis porque nunca antes o seu nome fora dito em Portugal.


Ulisses, o verdadeiro, venceu a Guerra de Tróia, enfrentou grandes monstros, perdeu-se e encontrou-se, regressando a casa para a salvar. O nosso Ulisses da Damaia, Rui Costa, regressará também a casa, vencendo ou perdendo contra suíços, escoceses, dinamarqueses ou azeris, apenas para encontrar a sua Ítaca exatamente, rigorosamente, na mesma: de braços abertos para o receber como ao herói que um dia foi mas já não é. Esta Penélope não quer pretendentes nem quer vitórias: só quer o amor da sua vida, que com muita pena já não é o Benfica, mas um mero benfiquista que teima em tornar um campeão num mero clube.
O velho Tirésias, consultado (por via eletrónica) nos infernos da Assembleia Geral, foi claro: vê uma nau à deriva durante vinte anos, com bandeira ao alto e porão vazio, remadores a trocar de timoneiro a cada equinócio, mas mantendo sempre a fé no seu herói. No cais, um povo imenso (ou 65% de um povo, se quisermos ser rigorosos) que ama a nau mais do que a viagem e prefere o naufrágio conhecido ao porto por conhecer.
E é essa, no fim, a única glória certa desta Odisseia: não a partida bafejada de promessas nem o regresso em lágrimas ou sorrisos (sonho ainda, minha Atena, sonho ainda!); mas sim a glória eterna do crente de cachecol que, sabendo tudo isto de cor, já renovou o Red Pass, mais caro, claro, e se senta religiosamente no seu lugar, porque este ano é que é, ele agora aprendeu, temos de apoiar, bora lá Benfica. Homero deu a Ulisses vinte anos para voltar a casa. Quantos anos daremos nós a Rui Costa?

