Foram 207 jogos, 125 golos, um Mundial, duas Copas América e uma relação feita de amor, rejeição, lágrimas e redenção. Lionel Messi disse adeus à seleção que sonhou representar em criança e que acabou por carregar durante mais de duas décadas.
Lionel Messi já não jogará mais pela seleção argentina. Escrever esta frase parece estranho. Durante mais de duas décadas, a camisola albiceleste confundiu-se com a sua própria história: foi sonho, peso, ferida, redenção e, por fim, eternidade.
O menino que um dia disse diante de uma câmara que o seu sonho era “jogar na seleção argentina” despede-se agora depois de 207 jogos, 125 golos, seis Mundiais disputados e uma coleção infindável de títulos que inclui aquilo que durante tantos anos pareceu destinado a escapar-lhe: o Mundial.
Não é apenas o fim da carreira internacional de um dos maiores futebolistas de sempre. É o ponto final numa das relações mais intensas, dolorosas e bonitas que um jogador alguma vez teve com o seu próprio país.
Durante 22 anos, Lionel Messi perseguiu a Argentina. Depois foi a Argentina que passou a persegui-lo para nunca mais o querer deixar partir.
Primeiro quis apenas vestir aquela camisola. Depois passou anos a tentar conquistá-la. Foi questionado, insultado, ameaçado, comparado, culpado e até empurrado para uma despedida precoce. Regressou, perdeu outra vez, continuou e acabou campeão do mundo. Agora, aos 39 anos, é ele quem decide que chegou o momento de parar.
Para quem acompanhou a sua carreira desde os primeiros anos (como foi o meu caso), custa separar o jogador da memória de tudo o que aconteceu à volta dele. O adolescente franzino que apareceu no futebol sénior em 2004. O génio que conquistava o mundo pelo Barcelona. O homem que, durante demasiado tempo, parecia obrigado a provar ao próprio país que também era argentino.
Agora terminou. Messi anunciou a despedida com umas frases que resumem tudo aquilo que foi a sua relação com a Albiceleste:
«Foi uma decisão que doeu e que ainda dói na alma, mas compreendo que chegou a hora. Juro-vos que sempre dei tudo de mim, não só nos últimos anos, quando ganhámos tudo, mas também antes, e sempre lutei e me dediquei por inteiro a esta camisola, para vos dar alegrias e fazer com que se sintam orgulhosos de serem argentinos através do futebol. Dei tudo de mim, já não tenho mais para dar».
É difícil imaginar uma conclusão mais adequada. Porque Messi deu mesmo tudo. Existe um vídeo antigo de Leo ainda criança em que lhe perguntam qual é o seu sonho. A resposta é simples: «Jogar na seleção argentina».
Não fala em Mundiais. Não fala em Bolas de Ouro. Não fala em ser o melhor do mundo. Queria apenas vestir aquela camisola albiceleste.
Acabou por fazê-lo 207 vezes. Marcou 125 golos e tornou-se o jogador com mais internacionalizações e mais golos da história da Argentina. Também termina como recordista sul-americano nas duas categorias.
Mas os números, apesar de absurdos, não contam a parte mais importante da história. Hoje parece impossível lembrar uma Argentina que não idolatrasse Messi. Mas ela existiu. Durante anos, tudo aquilo que fazia no Barcelona parecia não chegar para o seu próprio país. Comparavam-no permanentemente com Maradona. Criticavam-lhe a postura, a personalidade, até a forma como cantava o hino.
E cada derrota pesava ainda mais. Perdeu a final do Mundial de 2014. Depois as finais da Copa América de 2015 e 2016 de forma bastante cruel.
Foi precisamente em 2016 que tudo rebentou. Depois de falhar um penálti diante do Chile e perder mais uma final, Messi chorou e anunciou que abandonava a seleção. Parecia esgotado. Não apenas de perder, mas de ter de demonstrar constantemente que sentia aquela camisola.
Acabou por regressar. Talvez porque aquele sonho de menino continuasse lá dentro. A recompensa demorou, mas chegou.
Primeiro a Copa América de 2021, conquistada num Maracanã despido de público (por causa da pandemia) diante do Brasil. Messi caiu de joelhos no apito final e os companheiros correram para ele. Icónica será sempre a imagem de Messi sentado no relvado, falando por videochamada com a sua mulher e os seus filhos, e posteriormente com o seu pai, com quem falava sempre no fim de cada jogo da sua exitosa carreira.
Era mais do que um título. Parecia o fim de uma dívida emocional entre Messi e a Argentina. Depois veio a Finalíssima de 2022. E finalmente o Mundial do Qatar.
Messi marcou sete golos, conduziu a seleção até à final e levantou a taça mais desejada, depois de uma das decisões mais dramáticas da história (os amantes do futebol de Messi certamente vibraram muito com o milagre de Dibu Martínez àquele remate de Kolo Muani). Messi não merecia perder novamente de uma forma tão dilacerante. E os deuses do futebol estiveram com ele naquele preciso momento, e ainda bem que assim foi.
Com a conquista do Mundial, acabou a discussão estéril e estapafúrdia de julgar o compromisso e o talento descomunal de Messi. A partir daquele momento, Leo já não precisava de provar nada. A Argentina também já não precisava de escolher entre ele e Maradona.Tinha tido a sorte de ter os dois.
Messi termina a carreira internacional com um palmarés extraordinário: um Mundial Sub-20, um ouro olímpico, duas Copas América, uma Finalíssima e um Mundial.
Disputou ainda três finais do Campeonato do Mundo e cinco finais de Copa América. Nos Mundiais, os números parecem retirados de outra realidade.
Foram 34 jogos em seis edições, 21 golos, 27 partidas como capitão e 23 vitórias. Foi também duas vezes eleito melhor jogador do torneio, em 2014 e 2022.
Marcou em Mundiais com 18 e com 39 anos. Entre o primeiro golo, em 2006, e o último, em 2026, passaram-se mais de 20 anos. Em 2022 tornou-se ainda o único jogador a marcar na fase de grupos, oitavos, quartos, semifinal e final de uma mesma edição.
A longevidade tornou-se quase tão impressionante como o talento.A despedida acontece também num momento profundamente doloroso da sua vida.
Há menos de um mês, Messi perdeu o pai, Jorge Messi, o homem que o acompanhou desde criança e que foi muito mais do que seu representante.
Foi mentor, conselheiro e presença permanente numa carreira que começou em Rosario e atravessou praticamente todos os grandes palcos do futebol. Talvez por isso esta despedida tenha ainda outro peso. Há viagens que deixam de fazer sentido da mesma maneira quando falta quem esteve connosco desde o início.
Durante anos perguntaram se Messi amava verdadeiramente a Argentina. No fim, foi ele próprio a responder.
«Amo, amei e amarei sempre estar na Seleção».
Mais de duas décadas a carregar uma camisola que, em criança, representava simplesmente um sonho.
Foi criticado.Foi derrotado. Foi embora. Voltou. Perdeu novamente. Continuou. E ganhou.
A certa altura, a Argentina deixou de pedir provas de amor a Messi. Passou simplesmente a amá-lo. Agora fica a imagem daquele menino diante de uma câmara.
“Qual é o teu sonho?” «Jogar na seleção argentina». Cumpriste, Leo. E deixaste muito mais do que um sonho cumprido. Chegaste à eternidade.

