A novela em torno do novo homem forte para o eixo defensivo do Benfica chegou ao fim com uma aposta clara na bagagem internacional: Clément Lenglet. Aos 31 anos, o internacional francês aterra na Luz com a missão de relançar a carreira após um ano atípico no Atlético de Madrid, suportado por um currículo pesado que inclui clubes como o Barcelona, o Tottenham e o Sevilla. Longe de ser uma descoberta de laboratório ou um jovem por lapidar, trata-se de um jogador feito, com créditos firmados nos maiores palcos da Europa. É uma escolha a dedo, aprovada por Marco Silva, que encontra no contexto da Primeira Liga a plataforma ideal para resgatar a melhor versão de um central de eleição.
Antes de analisar o encaixe tático, é fundamental desmontar os mitos criados à volta do jogador na última época, nomeadamente a propensão para lesões e o alarme em torno de erros fatais. A verdade desportiva mostra que Lenglet falhou apenas sete jogos devido a uma entorse no joelho, apresentando um histórico clínico notavelmente limpo para um atleta com a sua rotação e idade. No que toca a falhas defensivas, a estatística fria revela que esteve envolvido diretamente em apenas dois golos sofridos durante toda a temporada, um número substancialmente inferior, por exemplo, aos quatro erros com ligação direta a golo cometidos por Nicolás Otamendi no mesmo período e que não mereceram o mesmo nível de escrutínio.
A grande revolução que o francês traz à Luz acontece no momento em que a equipa tem a bola, resolvendo uma lacuna crónica do plantel encarnado, a falta de um central esquerdino. Lenglet destaca-se de forma gritante na criatividade e na capacidade de executar passes progressivos, rompendo linhas de pressão com uma facilidade invulgar para colocar o esférico diretamente nos médios ou avançados. Esta qualidade na primeira fase de construção, aliada à presença de Tomás Araújo no lado direito, oferece ao Benfica uma dupla capaz de anular a pressão alta dos adversários de forma limpa, algo que tem sufocado a equipa e até o guarda-redes Anatoliy Trubin nas últimas temporadas.
No entanto, o perfil defensivo do francês exige algumas cautelas e adaptações coletivas, visto afastar-se bastante da matriz de agressividade a que os adeptos estavam habituados. Lenglet não é um central de choque, de intimidação física ou de ir à queima de forma dura, preferindo resolver os lances através do posicionamento inteligente, mas a sua maior fragilidade reside claramente nos duelos aéreos. Como Tomás Araújo partilha desta mesma dificuldade nas alturas, o Benfica perde o domínio aéreo absoluto que Otamendi garantia, obrigando o novo treinador a afinar rigorosamente a organização tática e os bloqueios nos esquemas de bolas paradas para evitar dissabores.
Em suma, a mudança para um campeonato com um nível de exigência inferior à La Liga ou à Premier League jogará totalmente a favor das características de Clément Lenglet. À imagem do que aconteceu com Jan Bednarek no FC Porto, que transformou a desconfiança que trazia de Inglaterra num domínio autoritário em Portugal, o central gaulês tem todas as condições para sobrar internamente. Pode não oferecer a agressividade pura de outros alvos que estiveram em cima da mesa, mas entrega a inteligência, a classe na saída de bola e o tão desejado pé esquerdo que a estrutura encarnada procurava desesperadamente para estabilizar e modernizar o seu eixo defensivo.

