A chegada de Souffian El Karouani ao Benfica, cedido pelo Al Qadisiyah com opção de compra em torno dos 10 milhões de euros, introduz uma rutura de perfil clara no flanco canhoto. Se Samuel Dahl é um defesa esquerdo de raiz, talhado para conter e apoiar por zonas interiores, o internacional marroquino de 25 anos (1,78 m e 70 kg) é um autêntico ala esquerdo. As suas melhores virtudes vivem com a bola nos pés e no meio-campo adversário; sem ela, o reforço encarnado revela carências acentuadas que vão obrigar a estrutura de Marco Silva a desenhar mecanismos de compensação rigorosos.
Com bola, El Karouani apresenta um nível de execução e batida refinado, justificando a liderança na média de cruzamentos certos na Eredivisie na temporada transata. É um jogador combinativo, capaz de eliminar adversários em espaços curtos e dotado de uma visão de passe diferenciada sob pressão, encontra ruturas na profundidade, cruza com veneno para a zona de finalização e descobre linhas interiores com precisão. O seu casamento tático ideal no corredor esquerdo desenha-se com Andreas Schjelderup: o norueguês pede um lateral que dê profundidade e estique o campo por fora para poder fletir e associar-se por dentro, ao passo que uma parelha com Gianluca Prestianni resultaria em menor fluidez combinativa, dada a natureza mais vertical e individualista do argentino.
Nas bolas paradas indiretas, o pé esquerdo de El Karouani é uma arma devastadora. Com 18 assistências rubricadas em 2025/26 pelo FC Utrecht, destaca-se a bater cantos abertos ou fechados e a colocar a bola teleguiada ao segundo poste. Esta aptidão ganha uma dimensão letal quando cruzada com a chegada de João Palhinha e a presença de centrais com forte jogo aéreo, criando uma fonte de golos direta para desbloquear partidas travadas.
No plano posicional, a sua inclusão encaixa numa estrutura onde o Benfica ataca em 3-2-5. Numa saída com três homens recuados, através de Lenglet, Tomás Araújo e o próprio Palhinha a baixar entre eles , Aursnes e Sudakov podem gerir a zona intermédia, libertando os corredores exteriores para que um dos alas ganhe a linha de fundo enquanto o lado oposto fecha por dentro. Como maior parte dos compromissos na Primeira Liga decorrem em organização ofensiva e em redor da área adversária, faz todo o sentido privilegiar um lateral deste recorte criativo na maioria dos encontros caseiros, reservando Dahl para cenários que exijam maior solidez e rigor tático.
Em contrapartida, as debilidades sem bola são gritantes e explicam por que razão um jogador com tais números ofensivos não se fixou de imediato nas grandes ligas europeias. El Karouani revela dificuldades acentuadas no duelo individual defensivo, coloca mal os apoios corporais, é facilmente batido no um para um e peca por precipitação, saltando na pressão a solo. A leitura de coberturas, o controlo do espaço nas suas costas e a resposta no jogo aéreo defensivo representam zonas de risco evidente. Para extrair o melhor do seu futebol sem pagar uma fatura pesada, Marco Silva terá de lhe garantir coberturas permanentes, onde a agressividade de Palhinha nas dobras e a estampa de Alessandro Circati no eixo defensivo serão cruciais para cobrir o corredor.
El Karouani tem matéria prima para ser um desequilibrador fora de série no contexto doméstico, capaz de terminar a época com uma dezena de assistências e transformar o corredor esquerdo numa das zonas mais perigosas da prova. Ao mesmo tempo, é um futebolista incompleto cujo rendimento final dependerá da capacidade do coletivo em tapar as fendas que deixa na retaguarda.

