A Argentina venceu a Inglaterra por 2-1 e garantiu um lugar na final do Mundial, onde vai defrontar a Espanha. A campeã do mundo demonstrou personalidade, capacidade de sofrimento e uma crença inabalável para superar uma Inglaterra que entrou bem no encontro, mas que voltou a falhar quando a pressão aumentou e acabou sem argumentos perante a frieza argentina.
Thomas Tuchel promoveu algumas alterações em relação ao jogo anterior, procurando dar uma nova dinâmica à equipa. Spence entrou para o lugar de O’Reilly, James regressou à lateral e Rogers substituiu Madueke, numa tentativa de ganhar maior capacidade física e velocidade nos corredores, libertando Rogers para aparecer em zonas interiores. Do lado argentino, Scaloni trocou De Paul por Simeone, privilegiando um jogador capaz de oferecer maior profundidade e largura ao ataque.


O contexto histórico fazia prever um duelo intenso e foi exatamente isso que se viu. O jogo foi disputado no limite, com muitas faltas de parte a parte, mas sem nunca perder qualidade técnica. Sempre que Messi e Kane entravam em contacto com a bola, o ritmo mudava e apareciam os poucos momentos de criatividade de uma primeira parte muito equilibrada. Tirando um remate perigoso de Enzo Fernández, as duas equipas tiveram dificuldades em criar ocasiões claras, muito por mérito da organização defensiva de ambos os conjuntos.
A segunda parte trouxe uma Argentina mais dominante. A equipa de Scaloni entrou melhor e assustou cedo Pickford, através de um remate de Julián Álvarez, na sequência de um lance de jogo direto, algo pouco habitual na construção argentina. Era um sinal claro de que os sul-americanos tinham regressado dos balneários com outra intensidade.
Mas o futebol continua a ser imprevisível. Quando a Argentina parecia mais próxima do golo, foi a Inglaterra quem marcou. Num ataque rápido, Rogers desenhou um cruzamento de enorme qualidade e Anthony Gordon apareceu na área para finalizar e colocar os ingleses em vantagem.
O golo, porém, acabou por ser o princípio do fim para a equipa de Tuchel. Em vez de aproveitar o momento emocional para continuar a discutir o jogo, a Inglaterra optou por recuar linhas, abdicar da posse de bola e entregar completamente a iniciativa ao adversário. A mensagem do selecionador foi ainda mais evidente aos 72 minutos, quando lançou Konsa e passou a defender com uma linha de cinco. O objetivo era claro, proteger a vantagem.
O problema é que, contra uma equipa como a Argentina, defender durante quase 20 minutos apenas convida o adversário a instalar-se no último terço. Aos 80 minutos, a entrada de Burn, defesa do Newcastle, reforçou ainda mais essa ideia de contenção, numa altura em que a Inglaterra vencia por 1-0 e já praticamente não conseguia sair do seu meio-campo.


A resposta argentina foi imediata e avassaladora. A campeã do mundo instalou-se no último terço, Messi assumiu o controlo do jogo e as oportunidades começaram a surgir com naturalidade. Nico González desperdiçou três ocasiões claras, Mac Allister também esteve perto do empate e Pickford foi sendo chamado a intervir perante um sufoco cada vez mais intenso. A Inglaterra deixou praticamente de existir em termos ofensivos e limitou-se a resistir, numa postura que dificilmente poderia resultar perante uma seleção com tantos recursos.
A justiça no marcador apareceu por intermédio de Enzo Fernández. O médio argentino marcou um dos melhores golos deste Mundial, tanto pela qualidade técnica da finalização como pela importância do momento em que surgiu, premiando uma equipa que nunca deixou de acreditar.
Já para lá do minuto 90, voltou a aparecer aquilo que distingue as grandes seleções. Messi chamou a si a responsabilidade, voltou a decidir com a sua visão de jogo e ofereceu a Lautaro Martínez a assistência para o golo da vitória. O avançado apareceu sozinho na área e confirmou uma reviravolta que parecia inevitável face ao domínio argentino.
Mais do que a qualificação para mais uma final, este encontro voltou a demonstrar por que razão esta Argentina continua a ser uma equipa especial. Nunca perde a identidade, nunca deixa de acreditar e encontra sempre soluções mesmo nos momentos de maior dificuldade. No lado oposto, Tuchel terá muito por explicar. A sua Inglaterra fez tudo para chegar à vantagem, mas, a partir daí, fez tudo para a perder. A opção por baixar o bloco, mudar para uma linha de cinco ainda aos 72 minutos e continuar a reforçar o setor defensivo quando ainda vencia por 1-0 retirou qualquer capacidade de resposta à equipa inglesa. Em vez de gerir o jogo com bola, entregou-o por completo à campeã do mundo.
Contra uma seleção com a qualidade, experiência e mentalidade competitiva da Argentina, esse tipo de abordagem acaba, quase sempre, por ser fatal.

