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A Fórmula 1, dos aficionados à ficção

Duarte Amaro · 5 min

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Foto: Formula 1

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Faz hoje pouco mais de uma semana que terminou o último Grande Prémio da temporada de Fórmula 1, o GP de Abu Dhabi. A derradeira corrida, a hora da verdade, o embate entre dois titãs, que marcou o fim de uma das temporadas mais épicas da modalidade, não deixou ninguém indiferente.

Hamilton e Verstappen partiam os dois com o mesmo número de pontos (algo só visto no ano de 1974) e ambos com a ambição de atingirem um patamar histórico: o britânico procurava o oitavo título mundial, ultrapassando Michael Schumacher; o neerlandês procurava ser o primeiro piloto dos Países Baixos a ser campeão do mundo e um dos novos de sempre a conquistar tal título.

Abu Dhabi foi um turbilhão de emoções, com muita polémica à mistura, que acabou com o coroar de Max Verstappen como novo campeão mundial, contudo o papel de protagonista principal ficou a cargo da direção de corrida e até já há quem ironize a situação comparando a Fórmula 1 ao futebol, uma vez que se falou mais do árbitro do que da corrida. Assim que Max voou sobre a bandeira axadrezada, pondo fim à hegemonia de Lewis Hamilton, as emoções vieram ao de cima, de um lado a alegria e do outro a tristeza.

Mas aqui não estaria a ser eu se não salientasse aquela que foi a atitude de Hamilton de puro desportivismo. Dei por mim boquiaberto a apreciar aquilo que via na televisão, um piloto destroçado depois de sair derrotado de um dos campeonatos mais frenéticos da história, de cabeça erguida a felicitar Max pela vitória. Defendo, piamente, que isto não deveria ser algo que me deixasse espantado, porque deveria ser sempre assim. A verdade é que, por defeito ou qualidade do ser humano, são raros os casos como este.

Apesar de todos estes acontecimentos, creio que Abu Dhabi acabou por se superiorizar a tudo isso, mostrando que este desporto está mais vivo que nunca e que atingiu uma dimensão global. É isso que me apraz, hoje, aqui, constatar. Assisti a algo que nunca tinha visto, de repente milhões de pessoas falavam sobre a Fórmula 1, jornais faziam capas com a Fórmula 1, as redes sociais inundavam-se com mensagens, tweets, posts sobre a Fórmula 1.

Vimos estrelas como Martin Garrix ou Marc Márquez a puxar por Max Verstappen. Assistimos a Justin Bieber intitular Hamilton de GOAT e George Lucas “abençoá-lo” com a mítica frase que marcara a saga Star Wars (“The force be with you”).

Todo este turbilhão de emoções, o roncar dos motores, o nervoso miudinho de uma ultrapassem ou a velocidade dos monolugares, fez-me parar e pensar. Dei por mim agarrado à televisão quase como se fosse eu a estar sentado num W12 ou num RB16B a discutir o título.

Pensei “bom, devo estar «maluco», porque ninguém fica assim”. Espanto o meu quando tirei o telemóvel do bolso e fui bisbilhotar as minhas redes sociais e, como eu, existiam dezenas, centenas, milhares. Entre posts, stories ou tweets vi de tudo, fãs de Hamilton, fãs de Verstappen, acima de tudo fãs de Fórmula 1.

Foi nesse momento que caí em mim e percebi que a Fórmula 1 tem tido um crescimento incrível e que esta última corrida do campeonato teve um impacto brutal: desde fanáticos pela modalidades a pessoas que nunca tinham visto uma corrida, todos a vibrarem como se de um jogo de futebol, da sua equipa do coração, se tratasse. Isto é algo fascinante. A partir daí procurei formular e perceber quais as razões que levaram a este crescimento exponencial da Fórmula 1.

Numa era marcada pela digitalização, não podemos subestimar os efeitos das redes sociais e das novas tecnologias como um meio para a conquista de novos fãs. Podemos dizer que a Fórmula 1 está melhor, sim, mas não assim tão melhor do que estava há cinco anos. Podemos também afirmar que o predomínio de Hamilton e a falta de competitividade podiam ter quota parte neste “vulgarizar” de um desporto tão frenético.

A verdade é que só este ano é que existiu competitividade, mas o crescimento deste desporto já vem desde 2018. A atração de um novo público, cada vez mais jovem, deve-se em grande parte à postura mais aberta da Fórmula 1, com uma presença vincada nas redes socias e à série Drive to Survive, da Netflix.

Talvez o maior exemplo que possa comprovar este crescimento seja o GP dos EUA. 400 mil foi o número de espectadores que assistiram ao vivo à prova. Um número exorbitante, tendo em conta que existem outros desportos com mais peso do que a Fórmula 1.

Creio que podemos dizer que conseguir este crescimento exponencial do número de espectadores é algo inédito, ainda para mais quando não existia qualquer piloto ou equipa americana na luta lá de cima. O CEO do circuito dos EUA, Bobby Epstein, dá o exemplo claro desta dimensão global do evento, quando afirma que 400 mil pessoas é o equivalente a quatro Super Bowls. Se formos comparar com anos anteriores, em 2018 por exemplo, a prova já tinha alcançado um número alto de espectadores, com 264 mil espectadores ao longo de todo o fim de semana.

Creio que estes 400 mil podem ser justificados por vários fatores como um temporada competitiva ou pelo carisma dos protagonistas, mas creio que muito se deve à audiência que a Netflix trouxe à Fórmula 1. O GP no Circuito das Américas foi uma das provas mais assistidas de sempre e muitos foram os jornalistas que ficaram perplexos ao verem o tamanho das filas para entrada no recinto, afirmando que nunca tinham visto algo assim.

Creio que o espetáculo em pista este ano foi único e emocionante, desde corridas imprevisíveis como a vitória de Esteban Ocon na Hungria ou a de Daniel Ricciardo na Itália, ao Grande Prémio do Brasil com a vitória épica de Hamilton ou ao GP de Abu Dhabi com a vitória histórica de Max Verstappen.

Contudo, para que as pessoas se pudessem deliciar com as beldades que os nos iam proporcionando em pista, acho que todo o trabalho de investigação desenvolvido pela Fórmula 1 com o objetivo de cativar e trazer novos fãs foi brutal. Basta olharmos para a série da Netflix, que conseguiu criar novos ídolos, proporcionar novas realidades (ainda que não fossem totalmente verdadeiras) e acima de tudo chegar à emoção dos espectadores conseguindo cativá-los a tornarem-se fãs deste desporto.

Numa temporada em que o Jazz de Hamilton findou e o Rock de Verstappen fez-se ouvir, estamos aqui todos ansiosos e expectantes para, na próxima temporada, os motores vermos a rugir.

Foto de Capa: Formula 1

Artigo redigido por Duarte Amaro

Duarte Amaro

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