Ruturas de Aquiles e a NBA: Uma história (recente) devastadora

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Enquanto atleta escolar, apenas me deparei com uma situação grave do tendão de Aquiles na minha professora de Educação Física. E, enquanto árbitro de mesa de basquetebol europeu, raramente observei o que atualmente vejo na NBA e nos circuitos jovens americanos. O que pode parecer um problema relativo ao condicionamento ou até, questionavelmente, as solas de sapatos usadas vão muito além de uma simples época, na qual nomes como Jayson Tatum ou Damian Lillard foram vítimas desta nova epidemia que assola a liga norte-americana. Tal criou enormes lacunas na revalidação do título dos Boston Celtics e no tão aguardado segundo título de Giannis Antetokounmpo nos Milwaukee Bucks, nas rondas iniciais dos play-offs, respetivamente.

E não só. Com a rutura do tendão de Tyrese Haliburton no último jogo das finais da NBA, contra o Oklahoma City Thunder de Shai Gilgeous-Alexander, esta lesão não só teve repercussões graves na carreira de algumas estrelas, como também criou uma das maiores possibilidades hipotéticas que já vimos nos últimos tempos, desde as disputas de Lebron James e Stephen Curry. E muito se deve ao facto de Haliburton ter silenciado várias críticas dos principais órgãos de comunicação social desportivos americanos por não ser uma superestrela, tendo sido a principal causa de quatro decisões nos últimos segundos durante os play-offs.

A época desportiva de 2027-2028 poderá ver o regresso de duas das maiores estrelas da liga, que neste momento se encontram em fase de recuperação. Contudo, o recorde de sete ruturas numa só temporada (desde 2013-2014) e as três franquias que terão de remodelar a sua abordagem sem as suas peças principais, mantêm-se. Como visto com os recém-campeões Celtics, que trocaram Jrue Holiday por Anfernee Simons do Portland Trail Blazers e Kristaps Porzingis por Georges Niang, há muito a acrescentar e fomentam-se debates importantes sobre a estrutura compulsiva e possivelmente errónea partilhada por vários jogadores que tentam preparar-se e entrar na NBA moderna.

É necessário saber primeiro que medidas serão tomadas. Adam Silver anunciou a criação de um painel em junho, para debater o aumento inesperado deste tipo de lesões, tendo as respostas e o consenso geral levado à mesma decisão: apesar de ser constantemente debatido, o número de jogos não será um problema.

Claramente, se olharmos com mais atenção, teremos de afirmar que não foi um grande problema nos anos 80 ou 90, em que a fisicalidade do jogo foi um elemento importante para o sucesso de vários jogadores, especialmente no que se refere à “marcação com as mãos”, técnica defensiva que alterou bastante a dinâmica do basquetebol americano após a sua eliminação por David Stern em 2004. Hoje em dia, se observarmos as tendências cruciais do jogo, veremos uma era em que jogadores como Luka Doncic e Joel Embiid são a evolução da perícia ofensiva, vulgarizando completamente a marca de 70 pontos num só jogo. O treino alterou imenso, não só no ritmo e consistência, como também no abandono do desenvolvimento muscular como prioridade principal.

Problemas como este também estão intrínsecos ao desenvolvimento precoce de atletas. O que muitos países europeus não têm, para além dos grandes encontros de categorias jovens, é uma quantidade abundante de jogos da AAU (Amateur Athletic Union), ou, por outras palavras, basquetebol para amadores. Agora, não estou a dizer que a culpa é apenas desta estrutura, o que seria hipócrita da minha parte. A verdade é que muitos atletas sobrevalorizados matariam por ter uma oportunidade de serem alvo de olheiros ou de ter uma organização que possa evidenciar e partilhar com milhares de pessoas o seu talento, apesar de não serem americanos.

De qualquer forma, estes circuitos são normalmente usados por pais e tutores para maximizar o tempo de jogo dos seus filhos, para além do tempo de jogo regular na escola. Os mais sortudos ganham uma bolsa para jogar na Divisão 1 da NCAA. Os outros caem no esquecimento ou têm ofertas menos competitivas. Outro facto que as pessoas esquecem de referir é que, por mais irónico que pareça, mais significa sempre melhor para os jovens sub-17 envolvidos nisto. Segundo o Journal of Applied Biomechanics, a idade média dos jogadores mais afetados esta temporada foi de 25,88 anos, em comparação com o perfil habitual, que corresponde a jogadores com idades entre os 29 e os 30 anos.

O aperfeiçoamento do teu jogo (e da tua confiança) aumentam as tuas hipóteses de seres escolhido no draft. O exemplo de Lamelo Ball é interessante. Antes de entrarem na liga, foram os principais autores dos vídeos mais virais do desporto, tudo isto enquanto estavam no ensino secundário. Lamelo Ball também jogou na Europa antes da NBA, para adquirir experiência no desporto, algo que não correu bem. Um claro choque de realidade se sucedeu, e as diferenças na ascensão do nível é relevante para justificar o impacto negativo da focalização em determinados aspetos do jogo.  Dois anos antes, era Luka Dončić tinha sido a figura principal do Real Madrid antes de chegar aos Dallas Mavericks. Por mais que treinem situações de isolamento ou arremessos sem driblar, mais aspetos principais relativos ao contacto e gestão física desaparecem da rotina ideal.

O que promove o progresso pode também ser a razão principal para uma cultura estagnada, impedida de alcançar o sucesso. Vencer pode mesmo tornar-se supérfluo. Atualmente, Ball é sem dúvida um dos melhores jogadores ofensivos quando o vemos jogar na temporada regular, mas ainda não conseguiu ter uma grande pós-temporada desde que chegou aos Charlotte Hornets, em 2020, tendo estado muitas vezes parado devido a lesões. No entanto, com o crescimento da rutura do tendão de Aquiles, as questões sobre a especialização num só desporto e a modificação do tipo de condicionamento, devido ao novo regulamento da NBA, são mais importantes que nunca.

O que podem ser quatro a cinco anos de preparação intensiva de situações de jogo futuras ao mais alto nível, combinados com mais de cem jogos a cada pausa letiva de verão, é certamente algo nunca antes visto nesta era do desporto. E para privilegiar longevidade, o balanço de atividades desportivas extracurriculares desde a infância tem de ser o começo deste discurso.

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