Sinfonia inacabada em Turim | Juventus 1-1 Sporting

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Em Turim, o frio não vem apenas do vento que varre o Piemonte — vem também do peso da história, das noites em que o futebol se faz de ecos e da promessa de que o Sporting há de um dia quebrar o borrego italiano. Ainda não foi desta. Mas, na noite em que a Juventus voltou a ser o espelho das suas próprias contradições, os leões deixaram em campo algo mais do que um ponto: deixaram a ideia clara de que são uma equipa com identidade, pensamento e coragem para tocar a sua própria sinfonia num dos palcos mais austeros da Europa.

Rui Borges voltou a mostrar que o seu projeto não é feito de improviso. Surpreendeu na frente, dando espaço a Ioannidis, Quenda e Trincão — um trio que, à primeira vista, parece frágil, mas que encerra um fio de complementaridade técnica que poucos treinadores ousam explorar.

Sem Fresneda, lesionado, o treinador leonino apostou em Vagiannidis no corredor direito, um movimento aparentemente simples, mas que acabaria por marcar o jogo. João Simões continuou no meio, ao lado de Morten Hjulmand, num dueto que tem dado critério e racionalidade à construção. Justifica-se a insistência: Giorgi Kochorashvili não tem conseguido afirmar-se e Morita, no último ano de contrato e pendente de renovação, ainda procura reencontrar o brilho de outrora. Na frente, a escolha por Ioannidis em detrimento de Luis Suárez mostrou um treinador atento ao momento: o grego vive uma curva ascendente, combina bem, ganha duelos e dá profundidade. Rui Borges encontrou aqui uma daquelas “boas dores de cabeça” que todo o treinador deseja: a de ter dois avançados que não deixam cair a qualidade na rotação.

O início foi uma sinfonia. O Sporting entrou em campo com a tranquilidade dos que sabem ao que vêm, mas também com a audácia de quem não teme a grandeza do adversário. Durante vinte minutos, a equipa portuguesa foi orquestra afinada, com passes curtos, combinações verticais e uma posse de bola que hipnotizou a Juventus.

Quando Maxi Araújo surgiu embalado pela esquerda para fuzilar Di Gregorio, após uma jogada de manual — bola em Ioannidis, calcanhar para Trincão, passe de morte para o uruguaio — o futebol ganhou som e imagem. Golaço, puro, de execução e conceito. Jogada construída com o rigor de quem treina ideias, e não apenas automatismos. O golo foi o corolário daquilo que a equipa vinha a desenhar: atrair pelo centro, acelerar pelos corredores, e finalizar com critério.

Fonte: Sporting

Esse início voraz do Sporting foi, talvez, o ponto mais alto do encontro. Trincão ainda fez estremecer a barra com um remate que podia ter feito o 0-2, e nesse instante a Juventus parecia perdida, atordoada pela velocidade de circulação dos portugueses. Mas Spalletti, homem de leitura rápida e alma inquieta, percebeu onde estava o “ouro”: o corredor direito leonino. Carregou por ali, explorando o espaço entre Vagiannidis e Quenda, duas peças jovens e ainda em busca de maturidade defensiva. A partir daí, a Juventus encontrou o seu caminho, não pela genialidade, mas pela insistência.

O empate nasceu de uma dessas falhas de marcação. Vagiannidis saltou fora de tempo, leve na abordagem, falhou na antecipação e deixou Thuram livre para galgar metros. A bola cruzada rasteira encontrou Vlahovic, que só teve de encostar. Um golo demasiado consentido, e um exemplo claro daquilo que o Sporting ainda precisa de corrigir: a falta de agressividade nos duelos e o défice de referências individuais na pressão. É nestes detalhes que se medem os grandes jogos europeus. Diomande é o único na linha defensiva com o instinto puro de antecipação; sem ele a reagir em tempo certo, o espaço abriu-se como uma ferida.

Rui Silva e Dusan Vlahovic Sporting Juventus
Fonte: Juventus FC

Até ao intervalo, a Juventus subiu linhas e impôs-se fisicamente. A toada mudou, e o Sporting, que tinha começado a mandar no jogo, encolheu-se, refugiado num bloco médio, demasiado dependente da segurança de Rui Silva, ele que me parece ter sido o melhor em campo, e com justiça. A sua exibição foi um compêndio de reflexos, posicionamento e frieza. Três defesas monumentais em remates de Vlahovic e uma noção de espaço que manteve o empate até ao descanso.

O intervalo chegou em boa hora. Os italianos estavam em crescendo, e os leões precisavam de reorganizar-se. No balneário, imaginou-se Rui Borges a refazer mentalmente o mapa das coberturas, a planear o momento certo para lançar Catamo e Quaresma.

Porque o jogo pedia isso, ou seja, mais músculo e verticalidade na direita, mais frescura na pressão e capacidade de estancar as subidas de Cambiaso e Yildiz, que estavam a massacrar aquele corredor. E quando, à hora de jogo, o treinador leonino mexeu, acertou em cheio. Quaresma e Geny deram nova vida à faixa direita, reorganizando o equilíbrio da equipa e repondo serenidade onde antes havia ansiedade.

É por estas leituras que Rui Borges merece crédito. O seu dedo técnico vê-se nos detalhes, isto é, na forma como a equipa se posiciona em construção alta, deixando apenas centrais e um médio na base, com Simões a oscilar entre recuar e aparecer entre linhas. Seis jogadores à frente da bola, dois a dar largura e quatro a criar jogo interior. Um desenho arriscado, mas esteticamente belo, porque procura provocar, atrair e depois libertar o jogo. O Sporting moderno é isto: uma equipa que não se resigna ao papel de visitante.

Ainda assim, o segundo tempo começou com o mesmo problema da reta final do primeiro: pouca agressividade nos duelos. Quenda, discreto e já desgastado do ponto de vista físico, não conseguia ser solução nem com bola nem sem ela. Quando Geny entrou, o corredor ganhou vida, velocidade, verticalidade e a capacidade de arriscar no um para um. Catamo trouxe precisamente aquilo que faltava: desequilíbrio. Do outro lado, Ioannidis, já desgastado, cedeu o lugar a Suárez, um jogador que dá outra dimensão à primeira linha de pressão, mesmo limitado fisicamente.

O Sporting voltou a equilibrar o jogo, mas sem a frescura ofensiva de início. Hjulmand manteve o centro do campo em ordem — dominador, assertivo, a tapar buracos e a ditar o ritmo de cada posse. É dele a alma invisível desta equipa. Quando a Juventus acelerava, ele travava. Quando o jogo pedia pausa, ele respirava por todos. Numa noite de altos e baixos, Morten foi o garante da estabilidade e da ordem.

Rui Silva
Fonte: Sporting

À medida que o relógio se aproximava do fim, o jogo tornou-se num duelo de vontades. A Juventus insistia pelos flancos, acumulando cruzamentos, mas Rui Silva mantinha-se intransponível. Do outro lado, o Sporting tentava controlar o tempo com bola, apostando em transições rápidas, mas sem força para ferir. O empate, mais do que justo, foi o reflexo de duas equipas que não se sentem bem sem bola e que, talvez por isso, alternaram períodos de domínio e de sufoco.

Nos instantes finais, o sofrimento foi inevitável. Jonathan David ainda obrigou Rui Silva a mais uma defesa monumental, e Maxi Araújo, herói do golo, quase se tornou vilão ao perder uma bola em zona proibida, salva in extremis por um corte de Hjulmand. No fim, o apito soou quase como uma libertação, tendo em conta esses últimos minutos do encontro.

A verdade é que, mesmo assim, o empate soube a pouco. Porque o Sporting mostrou, em largos períodos, que pode disputar o jogo em qualquer estádio da Europa. Mostrou maturidade tática, personalidade e um guarda-redes num estado de graça. Faltou apenas manter a intensidade e a agressividade ao longo dos noventa minutos. Mas há equipas que crescem nestas noites, e o Sporting parece ser uma delas.

O resultado não apaga as fragilidades, mas confirma uma ideia. A de que Rui Borges está a construir algo que vai para além dos pontos. Uma equipa que joga com alma, que sofre junta e que sabe onde quer chegar. Há, claro, erros a corrigir. A falta de dureza nos duelos, a incapacidade de pressionar com referências individuais, a desconcentração em lances-chave, mas há também convicções a reforçar.

Turim e Itália, no geral, continuam a ser um cenário ingrato para os leões. Mas, se a história insiste em repetir-se, desta vez o desfecho teve outro tom. Ao contrário do jogo em Nápoles, o Sporting não saiu derrotado, nem moralmente abatido. Saiu com a consciência de que pode olhar de frente para equipas com orçamentos e palmarés muito acima. Saiu com a noção de que, por vezes, o mais importante não é vencer, mas consolidar uma identidade.

E, talvez, um dia, quando voltar novamente a Itália, o Sporting complete a sinfonia que começou nesta noite fria de Turim. Uma sinfonia de coragem, equilíbrio e resistência, com Rui Silva a reger cada compasso e Rui Borges a assinar a partitura. Porque há empates que soam a vitória, e esta foi uma delas, tendo em conta o contexto e as circunstâncias do jogo.

Raul Saraiva
Raul Saraiva
O Raúl tem 19 anos e está a tirar a Licenciatura em Ciências da Comunicação. Pretende seguir Jornalismo, de preferência desportivo. Acredita que se aprende diariamente e que, por isso, o desporto pode ser melhor.

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