Ruben Amorim | Pela boca morre o peixe

- Advertisement -

Por terras de Sua Majestade, Ruben Amorim aprendeu que pela boca morre o peixe. O treinador português havia chegado em novembro de 2024 para substituir Erik ten Hag a cargo do Manchester United. Pouco mais de um ano depois, o ciclo foi fechado depois de uma conferência de imprensa explosiva. Ao fim ao cabo, foi uma experiência desastrosa e o percurso de Ruben Amorim no Manchester United pode ser descrito como um fracasso, mas auguro que de muita aprendizagem também.

A verdade é que Ruben Amorim não foi despedido porque terminou em 15.º ou porque perdeu jogos contra equipas reduzidas a 10 homens, ou porque empatou contra equipas que são forçadas a lutar pela manutenção ou porque, em um ano, teve uma taxa de vitória de 33%. Ruben Amorim foi despedido porque se impôs publicamente à estrutura e expôs a mediocridade da mesma.

Duas coisas podem ser verdade ao mesmo tempo: o Manchester United é uma casa a arder que ninguém sabe bem como salvar e Ruben Amorim podia ter feito um melhor trabalho. Entre outras coisas, Ruben Amorim deve ter perdido a conta de quantas vezes lhe perguntaram se ia mudar de formação ou se ainda tinha fé no 3-4-3. O problema de Ruben Amorim com isto é que, naturalmente, estava farto de responder à mesma pergunta. O meu problema é que nunca lhe fizeram a pergunta certa.

Como o próprio admitiu, o ponto não é o esquema tático. O 3-4-3, ou outra formação qualquer, é apenas um ponto de partida. São as dinâmicas entre jogadores e o que cada equipa pretende fazer em cada momento do jogo que marca a diferença no futebol moderno.

Matheus Cunha Ruben Amorim Manchester United
Fonte: Manchester United FC

No entanto, durante muito tempo, o Manchester United raramente flutuou as peças em campo: o 3-4-3 sem bola torna-se um 5-2-3 (ou um 5-4-1, se os extremos também baixarem) e com bola um 3-2-5. Isto traz previsibilidade e fragilidades por explorar, especialmente num plantel desequilibrado.

Principalmente sem bola, quando o Manchester recuava para uma linha de cinco, convidava muita pressão ao adversário. O espaço entre centrais e médios foi muitas vezes explorado, criando desequilíbrios. Como havia muitos homens atrás da linha da bola, a equipa de Ruben Amorim não conseguia contra atacar mesmo se resolvesse o perigo: se recuperava a bola, não tinha homens na frente suficientes para sair de forma limpa e, na eventualidade de um ressalto ou de um alívio, o avançado dos red devils encontrava-se sozinho frente a dois ou três defesas, diminuindo as probabilidades de ficar com a bola.

O resultado era quase sempre o mesmo, o adversário voltava a recuperar a bola e reciclava o jogo, continuando a empurrar o Manchester para a sua própria área. Esta estrutura foi transportada dos seus tempos no Sporting, a diferença é que em Portugal poucas (e às vezes nenhuma) equipas tinham a qualidade individual e capacidade coletiva para igualar o plantel do Sporting e empurrá-lo para trás. Em Inglaterra, qualquer equipa tem o mínimo de qualidade para jogar como quer se for convidada a tal.

A sermos justos, Ruben Amorim foi mudando taticamente durante a sua estadia em Manchester, principalmente nesta segunda temporada. Ainda que por vezes erradamente, já víamos a sua equipa a pressionar num 4-4-2 tradicional e a esboçar uma saída numa linha de quatro. Até vimos o próprio a montar uma equipa em 4-2-3-1 que, pessoalmente, fiquei com curiosidade para ver mais, pois o plantel do Manchester United reage bem ao 4-2-3-1 e ao 4-3-3.

Ruben Amorim Manchester United
Fonte: Manchester United FC

Mas novamente, o ponto não é a formação, são as dinâmicas e movimentações. Creio que os melhores tempos do Manchester United de Ruben Amorim em ataque posicional foram em 3-2-5. A questão que nunca foi colocada a Ruben Amorim é porque é que a sua equipa não trabalhava para chegar a esse ponto, onde conseguia juntar jogadores como Matheus Cunha, Diallo e Bruno Fernandes em espaços curtos e ser o Manchester United a empurrar o adversário.

Não sou da opinião que Ruben Amorim tem que mudar a sua forma de ver o jogo e a sua formação favorita. Sou da opinião que, naturalmente, tem que ir modificando o seu sistema de forma a extrair o melhor dele e a esconder o pior.

A verdade é que Ruben Amorim não foi despedido porque terminou em 15º ou porque perdeu jogos contra equipas reduzidas a 10 homens, ou porque empatou contra equipas que são forçadas a lutar pela manutenção ou porque, em um ano, teve uma taxa de vitória de 33%. Ruben Amorim foi despedido porque se impôs publicamente à estrutura e expôs a mediocridade da mesma.

A mesma estrutura que deu um voto de confiança a Ruben Amorim durante o verão, mas quis molda-lo à sua maneira e intrometer-se em funções do seu trabalho. Também a mesma estrutura que recusou Carreras ao preço da uva para gastar o dobro em Dorgu.

Por Inglaterra, fala-se que o Manchester United acredita num sistema colaborativo. Ora, ao dia de hoje, o plantel dos red devils ainda é desequilibrado e não está formatado para jogar no sistema de Ruben Amorim, ao mesmo tempo, toda a estrutura insistiu para que o treinador mudasse o seu sistema. Sendo que o treinador não recebe os jogadores que quer e todos opinam sobre as suas táticas, o sistema é colaborativo para quem?

Jim Ratcliffe passa a ser dono do Manchester United
Fonte: Manchester United FC

O Manchester United é gerido como uma empresa e não como uma organização com fins desportivos, não há cultura de vitória possível nestas condições. É também por isso que o plano atual passa por atacar o calendário restante com um treinador interino, à partida Ole Gunnar Solskjær, como noticiado. Em termos leigos, a época do Manchester United terminou em janeiro.

Há anos que se percebe que o clube precisa de uma reestruturação cultural e de um corte com o passado, há um par de personalidades aptas para esta missão, mas todos os nomes possíveis requerem paciência, tempo e perceber que não se vai começar a ganhar amanhã. À memória, Xavi, Fàbregas e até mesmo Ruben Amorim. O facto de nenhum estar ligado ao clube diz tudo o que precisamos de saber sobre a atual gestão.

Como já referi, Ruben Amorim foi despedido porque se impôs publicamente à estrutura e expôs a mediocridade da mesma, e isso diz tanto de Ruben Amorim como do Manchester United.

Rui Gonçalves
Rui Gonçalves
Licenciado em Sociologia, o Rui Gonçalves aborda o futebol dentro e fora das quatro linhas. Através de um olhar crítico, escreve sobre tática, gestão desportiva e os seus impactos individuais e sociais.

Subscreve!

Artigos Populares

Duelo entre técnicos portugueses: Al Gharafa vence Al Rayyan por 3‑2

O Al Gharafa, orientado pelo português Pedro Martins, venceu o Al Rayyan, comandado por Artur Jorge, por 3‑2 na 17.ª jornada da Liga do Catar.

Imprensa espanhola sobre José Mourinho: «Mourinho regressou a Lisboa como um herói, mas saiu de Madrid como um vilão»

José Mourinho optou por ficar no autocarro durante o jogo entre o Benfica e o Real Madrid. A imprensa espanhola escreveu sobre a opção do técnico.

Países Baixos aproximam-se de Portugal: Eis o Ranking UEFA depois dos resultados desta quinta-feira

O Ranking UEFA já sofreu a sua mais recente alteração, depois dos jogos dos playoffs de Europa League e Conference League.

Benfica vence Sporting e está apurado para a final eight da Champions League de Hóquei em Patins

O Benfica recebeu e venceu o Sporting por quatro bolas a três, em jogo da sétima jornada da Champions League de Hóquei em Patins.

PUB

Mais Artigos Populares

O baile de Vinícius Júnior na luta contra o racismo visto por Madrid

A BBC fez as contas e são já 20 as denúncias de Vinícius Júnior por insultos racistas. Por 20 vezes, o avançado brasileiro ouviu das bancadas ou do relvado ataques direcionados ao tom de pele e às suas origens.

Celta de Vigo apura-se para os oitavos da Europa League: eis os resultados dos jogos das 20 horas

O Celta de Vigo garantiu o apuramento para os oitavos de final da Europa League, depois de ter vencido o PAOK por 1-0.

Eis as equipas que se conseguiram apurar para os oitavos de final da Europa League

Estão definidas as 16 equipas que vão participar nos oitavos de final da Europa League. Braga e FC Porto fazem parte do lote.