Numa tarde de sábado muito chuvosa, o Alverca recebeu e venceu o Moreirense por 2-1, arrancando a segunda volta do campeonato como terminou a primeira. A formação de Moreira de Cónegos, no sentido inverso, não conseguiu alargar a senda de vitórias e jogos sem perder, não só por culpa de um terreno molhado e pesado que dificultava o futebol mais apoiado da equipa minhota, como por um conjunto ribatejano que estava determinado a presentear os adeptos que, no meio de um temporal, marcaram presença no Complexo Desportivo FC Alverca. A vitória dos comandados de Custódio Castro deu início a uma nova página no confronto direto entre os dois emblemas, dado que o Moreirense somava sete vitórias diante dos ribatejanos, quatro delas consecutivas, e o Alverca havia apenas ganho um jogo frente aos minhotos, lá no ano de 1997.
O regresso do Alverca ao principal escalão do futebol português tem sido realmente positivo. Depois de 20 anos sem estar presente na Primeira Liga, os alverquenses têm superado as expectativas, ocupando, ainda que provisoriamente, o nono lugar. Para além de já estar na primeira metade da tabela, a equipa de Custódio Castro está, no momento em que este texto é escrito, com os mesmos pontos que o Famalicão e a dois do Vitória SC. Mais ainda, encurtou para quatro pontos a distância para o Moreirense e, no caso de o Braga perder contra o Tondela, poderá acabar a jornada também a quatro pontos dos bracarenses. No fundo, mesmo que o nono lugar não pareça um grande feito para um clube que há mais de duas décadas não conseguia estar presente no maior palco do nosso futebol, o Alverca está a apenas quatro pontos, à condição, do quinto classificado.


A muito positiva prestação do emblema de Alverca do Ribatejo, marcada, ainda assim, por alguma inconsistência e irregularidade exibicional e de resultados, tem tido o cunho de Custódio Castro. Como experiências em equipas principais, o técnico português só contava com uma breve passagem pela equipa A do Braga, aquando da transferência de Rúben Amorim para o Sporting. Fora isso, as maiores e mais recentes experiências de Custódio haviam sido na equipa de sub-23 dos Guerreiros do Minho e, posteriormente, na equipa B dos mesmos.


O Alverca, tal como demonstrou no jogo deste sábado, tem-se destacado pelos seguintes fatores: uma base sólida do 11 inicial, sem proceder à alteração de muitas peças de jogo para jogo; uma ideia vincada, tanto no momento com bola como sem ela; uma equipa que gosta do duelo físico, que é agressiva e vertical no ataque à baliza contrária; e um conjunto que, embora consiga recuperar a bola em zonas mais altas do campo, não tem problemas em defender de forma mais compacta, ficando na expectativa e esperando que o adversário se exponha para explorar as suas costas. Ademais, no momento com bola, embora a saída a três seja uma constante, é possível assistir-se à mutação de um 3-4-3 num 3-5-2, com Lincoln a vaguear por zonas interiores e, seguindo a ideia do que aconteceu no jogo deste fim-de-semana, com Figueiredo a juntar-se ao ponta de lança, agredindo a defesa opositora. No meio-campo, a dupla Alex Amorim e Sabit é imprescindível no jogo de Custódio. O primeiro, que tem já sido cogitado pelos maiores clubes portugueses, apresenta aos 20 anos uma enorme maturidade. É refinado tecnicamente, forte na recuperação e na pressão, tem um raio de ação muito grande e possui uma fantástica atitude competitiva. Sabit, por sua vez, sente-se confortável com bola no pé, mas é no jogo físico que mais se destaca, sendo também muito importante na promoção de movimentos de rotura, tendo em vista deixar a última linha contrária intranquila.
Se, por um lado, o Alverca é uma equipa algo previsível – na medida em que não altera muito os seus jogadores e, consequentemente, o modo de jogar de encontro para encontro -, o que, na teoria, poderia facilitar o trabalho de casa dos adversários, pelo outro é uma equipa extremamente bem oleada, confiante no seu próprio processo, com uma identidade própria. Isso traz, claro, conforto aos jogadores. Em equipas de menor dimensão, onde a qualidade técnica individual poderá não ser, na grande maioria dos casos, tão destacável assim, a coesão do coletivo, as dinâmicas do grupo e a definição de ideias claras são essenciais para que se tenha sucesso.
Se no futebol de elite o conceito de “titulares” se vem perdendo, uma vez que o calendário de jogos é cada vez mais sobrecarregado, em equipas que não disputam provas internacionais e que, como tal, têm apenas um ou dois jogos por semana, o desgaste físico é, obviamente, menor. Assim, o técnico de 42 anos tem aproveitado o calendário mais folgado para consolidar a sua base de jogadores, de modo a ter um Alverca que jogue à sua imagem e que ponha em prática o que por si é idealizado. Por agora, os frutos dessa decisão técnica, muito mais do que tática, têm sido claramente demonstrados na tabela classificativa.
Apostando em jogadores mais fortes do ponto de vista físico e com uma atitude agressiva bastante positiva, aos quais se alia, claro, a qualidade técnica, o Alverca mostra-se confortável para jogar em qualquer campo e em qualquer estado de tempo. O duelo frente ao Moreirense demonstrou-o. O jogo frente aos comandado de Vasco Botelho da Costa tem um grandíssimo peso metafórico, dado que os ribatejanos têm, numa perspetiva mediática, passado pelos pingos da chuva, mas esta temporada poderá ser memorável.

