Entre o gelo e o espelho: um empate que expõe mais do que resolve | Viktoria Plzen 1-1 FC Porto

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Há empates que sabem a sobrevivência e outros que sabem a aviso. O 1-1 do FC Porto em Plzen pertence claramente à segunda categoria. Numa noite de frio cortante, relvado pesado e um adversário estudado ao detalhe, os dragões não só não deram o passo em frente que a Liga Europa exige, como acabaram confrontados com uma imagem pouco confortável de si próprios. Salvou-se um ponto, é verdade. Mas perderam-se dois. E, mais do que isso, perdeu-se a sensação de controlo, de identidade, de domínio que tem sustentado o percurso interno da equipa de Francesco Farioli.

Ora, o contexto não permitia grandes desculpas. O FC Porto apresentou-se na máxima força possível, sem experiências nem rotações artificiais. Não havia “não titulares” no onze, nem margem para gerir esforços. O objetivo era claro e assumido: garantir o top-8 e evitar mais dois jogos num calendário já congestionado, depois de se ter abdicado da Taça da Liga. Qualquer outra abordagem seria hipocrisia competitiva.

Do outro lado estava um Viktoria Plzen invicto na prova, fisicamente agressivo, coeso, confortável no seu ambiente e perfeitamente consciente de que o frio, o relvado lento e a sua organização poderiam nivelar diferenças. E nivelaram. Nivelaram demasiado, até.

O FC Porto até entrou com intenção, tentou instalar-se cedo no meio-campo contrário e teve o primeiro remate do jogo, mas bastou um erro, um daqueles erros que raramente se associam a esta equipa, para tudo se desmoronar emocionalmente. Um passe atrasado mal calculado de Kiwior, um alívio condicionado de Diogo Costa, a bola prensada que ficou ali, viva, em zona proibida. A confiança checa cresceu num instante, as linhas subiram, a pressão tornou-se ainda mais agressiva e Lukas Cerv, com um gesto técnico irrepreensível, disparou um míssil que abriu o marcador e, sobretudo, abriu a ferida.

A partir daí, o jogo passou a ser jogado nos termos que o Plzen mais desejava. Um FC Porto com domínio territorial, mas com uma circulação lenta, previsível, demasiado denunciada. Uma primeira fase de construção em 4+1, esbarrando constantemente numa organização checa em 3-4-1-2, com marcações homem a homem por todo o meio-campo portista, pressão passiva na frente e uma vigilância obsessiva às zonas interiores. Visinsky colado a Kiwior, Cerv a anular Rodrigo Mora, Ladra a condicionar Pablo Rosario. Um plano claro, bem executado, e que expôs fragilidades que não têm sido suficientemente discutidas.

O FC Porto não conseguiu ligar por dentro. Rosario teve pouca influência, Mora esteve apagado, Froholdt revelou lacunas na construção. Tentou-se, vezes sem conta, encontrar Samu em apoio, mas o avançado espanhol, apesar da evolução recente, continua a ter deficiências técnicas evidentes quando é obrigado a jogar de costas, a decidir sob pressão, a dar continuidade. E quando essa ligação falha, tudo falha a seguir. Borja Sainz, por sua vez, voltou a mostrar desconforto na largura, dificuldade em receber no pé, tendência para fazer tudo à pressa. O lance em que surge isolado na cara de Wiegele e finaliza de forma frouxa é mais do que um erro individual: é um sintoma das referidas lacunas.

O Plzen, confortável no caos que ia criando, ainda ameaçou em transição. Kabongo e Memic exploraram as costas dos laterais, testaram Diogo Costa, obrigaram a equipa portuguesa a recuar em excesso sempre que a primeira pressão era ultrapassada. E aqui há um ponto estrutural que merece reflexão.

Isto porque este FC Porto sente-se confortável a defender a própria área, compacto, denso, solidário, mas revela menos serenidade quando tem de ser pró-ativo em zonas intermédias, quando tem de assumir o jogo longe da sua baliza, sem espaços, sem transições.

Samu Aghehowa FC Porto 2
Fonte: Diogo Cardoso / Bola na Rede

O momento que poderia — e deveria — ter mudado tudo surgiu em cima do intervalo. Canto, cabeceamento de Kiwior, Vydra a defender com o braço em cima da linha. Penálti claro, expulsão inevitável. Golo mais cartão vermelho, o cliché da “dupla penalização” que tantas vezes decide jogos europeus. Mas Samu falhou. Pela segunda vez em quatro dias. E não foi apenas um penálti falhado, ou seja, foi um balão de oxigénio oferecido a um adversário que estava prestes a ficar sem ar.

Esse momento teve um peso psicológico enorme. No avançado, claramente na mó de baixo, desgastado pelas faltas, pelo trabalho ingrato, pela irregularidade no primeiro toque. Na equipa, que entrou na segunda parte com superioridade numérica, mas sem a clareza emocional que um empate ao intervalo teria proporcionado. E no próprio jogo, que passou a desenhar-se exatamente como as notas antecipavam, isto é, passou a haver um bloco médio/baixo do Plzen, com linhas compactas, combatividade extrema e um relógio a jogar a favor de quem defendia.

A segunda parte confirmou, por isso, quase tudo o que se temia. O FC Porto passou longos períodos no meio-campo adversário, mas criou pouco. Futebol previsível, muitos cruzamentos, pouca criatividade.

Farioli mexeu, mas mexeu tarde e, em alguns casos, de forma difícil de compreender. A ausência da combinação Mora+Gabri Veiga, mesmo num contexto tão específico, levanta interrogações legítimas, sobretudo com Froholdt em claro sub-rendimento (até acabou o jogo tocado). As alterações trouxeram mais presença territorial, mas a capacidade criativa continuou, curiosamente, a surgir quase apenas de Kiwior.

É verdade, também, que o estado do relvado não ajudou. A bola não rolava com a velocidade habitual, exigia mais força no passe, mais precisão no gesto. Mas isso não explica tudo. O Plzen pressionou homem a homem por todo o campo, foi fisicamente intenso, ganhou duelos, estudou este FC Porto ao pormenor.

E o FC Porto mostrou intranquilidade, erros pouco habituais, uma preocupação excessiva em recuar quando pressionado, uma dependência demasiado grande de uma ligação a Samu que, nesta noite, nunca funcionou verdadeiramente.

Foi preciso ir buscar o banco. Foi preciso ir buscar fúria. Alan Varela trouxe cabeça. Deniz Gul trouxe fogo. E não é exagero dizer que tudo o que de melhor o FC Porto fez na segunda parte passou pelos pés do jovem avançado. Remates, presença, inconformismo, agressividade. As melhores oportunidades nasceram todas dele.

Deniz Gul
Fonte: Diogo Cardoso / Bola na Rede

Até que, já com o relógio a esmagar, após cruzamento de Kiwior, recebeu de costas, rodou sobre o adversário e rematou com raiva, com qualidade, com decisão. Um grande golo. Um golo que valeu um ponto. Um golo que escondeu, mas não apagou, uma exibição pobre.

O empate mantém o FC Porto na luta pelo top-8 e garante, pelo menos, o play-off. Objetivamente, o cenário não é dramático. Mas o rendimento europeu está claramente abaixo das expectativas.

Assistir aos jogos do FC Porto na Liga Europa tem-se tornado difícil. Futebol chato, pouca criatividade, sensação constante de esforço sem fluidez. O futebol que fez muitos gostarem desta versão de Farioli praticamente já não existe. E isso não se explica apenas com frio, relvado ou mérito do adversário, embora tudo isso exista e deva ser reconhecido.

O Plzen é uma boa equipa, invicta na prova, fisicamente forte, bem orientada. Mas continua a ser o Plzen. O FC Porto tem obrigação de fazer mais. Muito mais. Sobretudo quando joga 45 minutos em superioridade numérica. Sobretudo quando cria tão pouco perigo real. Sobretudo quando parece perder identidade sempre que cruza a fronteira.

No fim, Deniz Gul evitou a derrota. Salvou um ponto. Mas este empate foi, acima de tudo, um espelho. E o reflexo não foi bonito. O top-8 ainda é possível, a qualificação direta ainda está ao alcance. Mas se nada mudar, se a equipa não recuperar confiança com bola, se não encontrar soluções interiores, se não reduzir a previsibilidade, a Liga Europa continuará a ser o calcanhar de Aquiles de uma época que, internamente, parece tão sólida.

Em suma, em Plzen, entre o gelo e o cristal, o FC Porto não partiu. Mas estalou. E isso, mais do que o resultado, é o que deve preocupar as hostes azuis e brancas.

Raul Saraiva
Raul Saraiva
O Raúl tem 19 anos e está a tirar a Licenciatura em Ciências da Comunicação. Pretende seguir Jornalismo, de preferência desportivo. Acredita que se aprende diariamente e que, por isso, o desporto pode ser melhor.

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