As diagonais de Luis Suárez e a gestão de espaços da equipa de Rui Borges: Análise tática do Arouca x Sporting

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O Sporting teve de suar para arrancar uma vitória a ferros diante do Arouca por 2-1, na 19.ª jornada da Primeira Liga. Depois de uma noite histórica vivida pelos leões na passada terça-feira, ao baterem o campeão europeu PSG no Estádio de Alvalade, esperava-se um jogo exigente no Estádio Municipal de Arouca, frente à equipa orientada por Vasco Seabra.

Em relação ao jogo da Champions League, Rui Borges fez regressar ao onze Morten Hjulmand, após cumprir suspensão, para o lugar de Hidemasa Morita. Lançou novamente Luís Guilherme como extremo esquerdo, com Maxi Araújo a lateral, relegando Ricardo Mangas para o banco de suplentes. Do lado do Arouca, registou-se apenas uma alteração forçada, com José Fontán a assumir o lugar de Bas Kuipers, ocupando o lado esquerdo da defesa.

A equipa de Vasco Seabra apresentou-se numa estrutura maleável: em organização defensiva, um 5-2-3, e com bola um 4-2-3-1, com destaque para a dupla função de Alfonso Trezza. Sem bola, o uruguaio juntava-se à linha de cinco, sendo ele o responsável por fechar no lado direito para conter o poderio do Sporting nesse corredor, com as incursões de Maxi Araújo. Nessa fase, era Hyunju Lee quem ocupava a posição habitual do avançado do Arouca. Já em posse, Alfonso Trezza adiantava-se no terreno e assumia o papel de extremo, beneficiando da sua capacidade e resistência física.

Fonte: Paulo Ladeira / Bola na Rede

Do lado do Sporting, Rui Borges colocou Luís Guilherme no lado esquerdo, mas, tal como já tinha acontecido diante do Casa Pia — na sua estreia a titular pelos leões —, apareceu com frequência em zonas interiores, deixando o corredor para Maxi Araújo. Nesse contexto, o extremo brasileiro acabou por ter pouca preponderância no jogo coletivo leonino. Esse fator levou Rui Borges, ainda a meio da primeira parte, colocar Luís Guilherme na direita, no lugar de Geny Catamo, fazendo avançar o internacional moçambicano para uma zona mais adiantada e também mais interior, enquanto Francisco Trincão começou a jogar a partir da esquerda. Como explicou Rui Borges em resposta ao Bola na Rede, o extremo brasileiro esteve demasiado baixo na primeira parte, o que facilitou o trabalho aos defesas do Arouca. Já Trincão, mais rotinado e integrado nas dinâmicas coletivas do Sporting, conseguiu ter uma melhor leitura para fixar a linha defensiva da equipa arouquense.

O Arouca foi encontrando espaço numa primeira parte em que o Sporting assumiu o controlo da posse, mas a equipa de Vasco Seabra, com a qualidade dos seus médios, conseguiu criar combinações, com destaque para o nipónico Taichi Fukui e o sul-coreano Hyunju Lee. Fukui foi, aliás, o jogador que ditou grande parte dos ritmos de jogo do conjunto arouquense. Com qualidade em posse, beneficiou do espaço na zona central para combinar com os colegas e ativar o corredor esquerdo, quer através de Nais Djouahra, quer de José Fontán quando projetava. Na construção do Arouca, Taichi Fukui lateralizava à esquerda para oferecer apoio — permitindo-lhe ver o jogo de frente, tendo em conta a sua capacidade técnica —, o que obrigava José Fontán a projetar-se e Nais Djouahra a procurar zonas interiores.

Ainda assim, a equipa de Rui Borges acabou por beneficiar do espaço nas costas do eixo defensivo do Arouca na primeira parte. Através das rupturas e diagonais de Luis Suárez, o avançado colombiano chegou mesmo a ficar cara a cara com Ignacio De Arruabarrena num desses movimentos, mas faltou maior eficácia no momento da finalização. Também Maxi Araújo foi um elemento importante para aproveitar o espaço concedido pelo conjunto arouquense. O internacional uruguaio explorou o corredor esquerdo com movimentos de trás para a frente, tirando partido do posicionamento mais móvel de Alfonso Trezza. Foi encontrando espaço e, numa dessas incursões, ganhou metros já dentro da grande área e serviu Luis Suárez que, com um belo trabalho de pés, apontou o primeiro golo dos leões, ao minuto 35′.

Luis Suárez Sporting
Fonte: Paulo Ladeira / Bola na Rede

Na segunda parte, o paradigma mudou por completo, tendo em conta a entrada menos conseguida do Sporting no regresso dos balneários. Perante um Arouca mais agressivo na pressão, a equipa de Rui Borges cometeu algumas perdas de bola e, numa delas, surgiu o golo da igualdade. Ivan Barbero, que apesar de uma primeira parte marcada pela forte vigilância de Matheus Reis e Gonçalo Inácio — que lhe retirou raio de ação e capacidade de ligação com a equipa —, apareceu no momento certo para bater Rui Silva, ao minuto 48’.

Com o Sporting novamente à procura da vantagem, a equipa leonina expôs-se e Nais Djouahra, mais solto na segunda parte, surgiu isolado frente a Rui Silva, mas o guarda-redes leonino levou a melhor, evitando a reviravolta do Arouca no marcador. No início da segunda parte, Luís Guilherme voltou à posição de extremo esquerdo, assumindo maior largura e conseguindo beneficiar, ao contrário do que acontecera na primeira parte, do 1×1. Passou a desequilibrar mais através de ações individuais, quer na procura do cruzamento, quer na criação de espaço para rematar à baliza do Arouca.

Rui Borges lançou o recuperado Pedro Gonçalves para o lugar de Francisco Trincão, que já tem merecido algum descanso face à menor influência que tem tido nos jogos do Sporting, e Zeno Debast para o lugar de Matheus Reis. Com o Arouca mais fechado e sem conceder o espaço nas costas como na primeira parte, o objetivo foi utilizar o internacional belga para passes verticais, procurando espaços entrelinhas ou mesmo bolas longas, tirando partido da sua qualidade de passe. O Sporting acabou mesmo por chegar ao golo já ao minuto 90+6’, após um cruzamento de Geny Catamo, com o cafetero Luis Suárez (quem mais?) a aparecer novamente para dar a vitória aos leões e consolidar-se como uma das figuras da Primeira Liga.

Três pontos importantíssimos que colocam o Sporting novamente dentro da luta pelo título, uma vez que nove pontos de desvantagem poderiam ser uma montanha muito dura de escalar, tendo em conta a capacidade e o nível que o FC Porto tem vindo a demonstrar nesta Primeira Liga. Já do lado do Arouca, destaque para Vasco Seabra pela sua intenção de querer jogar, colocando intervenientes capazes de dar à equipa condições para assumir o jogo e ter bola. Falta, agora, a capacidade de consolidar tudo isso em pontos, de forma a retirar a equipa da situação mais complexa que apresenta atualmente na tabela classificativa.

Rui Borges Sporting
Fonte: Paulo Ladeira / Bola na Rede

BnR na Conferência de Imprensa

Bola na Rede: O Luís Guilherme começou o jogo a partir da esquerda, mas a meio da primeira parte acabou por trocar para a direita, muitas vezes a baixar para integrar a linha de cinco do Sporting, com o Trincão a partir da esquerda e o Geny Catamo mais por dentro. No início da segunda parte, voltou à fórmula inicial. Gostaria de lhe perguntar o que esteve na base dessas alterações no posicionamento e como avalia o papel do Luís Guilherme quando assume uma posição mais interior em determinados momentos do jogo.

Rui Borges: O Luís Guilherme é um miúdo com muita qualidade, sabemos o que ele é, mas estamos todos ainda na aprendizagem. Ele, em função da equipa e vice-versa, nós a tentar perceber o que pode dar dentro do coletivo e dentro das características dele. Pelas ausências, achámos que ali à esquerda podia ser a solução inicial para ele, mas ele dá-nos a esquerda, a direita e o interior. Tentámos ajustar ali porque, numa fase inicial, estava bem no jogo interior, mas estava demasiado baixo e o Trincão também percebe melhor essas zonas do que propriamente o Luís Guilherme. E o golo até acaba por surgir aí. Como ele estava a baixar muito, quem estava a marcá-lo não estava a acompanhar, porque ele estava a ir para a linha média do adversário e a linha defensiva mantinha-se. No momento do golo, o Trincão estava mais alto, ‘prendeu’ o lateral e a bola entra nas costas no Maxi Araújo. Por isso, no caso de atrair, às vezes um metro faz toda a diferença de posição e o Trincão tem mais leituras porque está mais dentro desses posicionamentos. Tentámos mudar algo nesse sentido, deixar o Luís também mais confortável no um para um à direita, e foi o que tentámos fazer. Ao intervalo, voltámos ao normal e até demos mais largura ao Luís na esquerda e, para mim, fez uma segunda parte soberba. É um conhecimento mútuo que vamos tendo, perceber aquilo que cada um nos dá dentro do coletivo e irmos arranjando, dentro da nossa ideia, dinâmicas para tirar o melhor partido de cada um deles e para que a equipa fique mais forte.

Rodrigo Lima
Rodrigo Limahttp://www.bolanarede.pt
Rodrigo é licenciado em Ciências da Comunicação e está a frequentar o mestrado em Gestão do Desporto. Trabalha na área do jornalismo desportivo, com particular interesse pela análise de futebol.

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