O jogo associativo de Samu Aghehowa e a adaptação posicional de Santi García: análise tática do FC Porto x Gil Vicente

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O FC Porto somou a 11.ª vitória consecutiva na Primeira Liga ao receber o Gil Vicente e vencer a equipa de César Peixoto por 3-0. Tal como tinha acontecido diante do Vitória SC, Francesco Farioli voltou a colocar Thiago Silva no onze inicial, manteve Jakub Kiwior pela esquerda e Martim Fernandes no lado direito. Gabri Veiga assumiu a posição de médio interior em detrimento de Rodrigo Mora, e Pêpê foi titular em vez de William Gomes, comparativamente ao jogo frente ao Viktoria Plzen. Já César Peixoto não promoveu alterações face à vitória diante do Nacional (2-1).

Em relação à estratégia para o jogo, o Gil Vicente voltou a apresentar a estrutura que tem sido apanágio desta época e que tanto sucesso tem tido, não só pelo lugar que ocupa na tabela classificativa, mas também pelo caudal ofensivo e consistência defensiva que tem demonstrado.

A equipa de César Peixoto apresentou-se num 4-2-4 no processo defensivo, com Santi Garcia mais recuado na linha de Zé Carlos e Luís Esteves mais à frente, na dupla com Gustavo Varela, para condicionar os centrais e Pablo Rosário na construção do FC Porto. Em termos de pressão, o Gil Vicente apresentou-se num bloco médio e foi iniciando pressão ponderada e sempre organizada, principalmente quando o Porto iniciava a construção a partir dos centrais, pilares na ideia de Francesco Farioli. Já no processo ofensivo, Luís Esteves baixava para terceiro médio e assumia a posição de médio interior direito, Santi Garcia a médio interior esquerdo, com Zé Carlos logo atrás como pilar do triângulo invertido.

Victor Froholdt Porto
Fonte: Diogo Cardoso / Bola na Rede

O FC Porto apresentou-se no seu sistema habitual, mas, perante a postura subida do Gil Vicente a tentar condicionar a saída de bola, Victor Froholdt baixou no terreno para ser mais uma opção nessa saída, além dos laterais e de Pablo Rosário. Essa descida atraía Santi Garcia, sobretudo devido às marcações individuais no meio-campo, e Gabri Veiga esticava para a linha de ataque, junto a Samu e aos extremos do FC Porto. Esse desfasamento na linha média do FC Porto permitia aos dragões ter soluções para sair curto, mas também para esticar o jogo, ficando um 5×4 (eixo defensivo do Gil Vicente + Zé Carlos). Apesar da superioridade numérica do Gil Vicente nessa fase, surgia muito espaço na zona central e um distanciamento entre a linha defensiva e a linha ofensiva dos gilistas, que poderia ser explorado pelo FC Porto — ou, em alternativa, pelo Gil Vicente, dependendo de quem recuperasse a bola primeiro e de quem encurtasse mais rapidamente o espaço.

Tendo em conta a forte capacidade de Victor Froholdt e Gabri Veiga nas diagonais entre central e lateral e a intensidade desses movimentos, César Peixoto acabou por colocar Santi Garcia mais atrás, numa função de vigilância a Victor Froholdt. Como explicou ao Bola na Rede, o médio espanhol tem outra intensidade ao nível defensivo em comparação com Luís Esteves. Apesar de o Gil Vicente ganhar mais capacidade de construção com bola quando Luís Esteves está mais recuado, perante a exigência do FC Porto, era importante, em primeiro lugar, tentar condicionar ao máximo o corredor central dos dragões, anulando ou impedindo as dinâmicas dos médios interiores dos azuis e brancos.

No processo defensivo e numa pressão subida, o FC Porto defendia numa espécie de 3-5-2, com destaque para o posicionamento de Martim Fernandes a condicionar o lateral Konan, e Thiago Silva a reduzir o espaço e a marcar Tidjany Touré. Perante algumas dificuldades de Konan em receber sob pressão, esse posicionamento de Martim Fernandes acabou por permitir ao FC Porto recuperar a bola em zonas mais adiantadas. Em relação a Martim Fernandes, importa realçar o bom momento do lateral português e o que atualmente oferece ao FC Porto, quer no jogo interior, quer nas projeções pelo corredor direito (percebe-se, assim, a aposta em detrimento de Alberto Costa).

Samu Aghehowa Elimbi
Fonte: Diogo Cardoso / Bola na Rede

Perante um jogo muito disputado na primeira meia hora, foi Samu Aghehowa que acabou por surgir para desequilibrar a favor do FC Porto. O avançado espanhol tem sido uma das principais referências dos dragões na construção de ataques, tendo em conta a sua evolução no jogo apoiado, e voltou a destacar-se nesse capítulo. Grande parte das vezes, são os defesas centrais que exercem o passe vertical para Samu, em movimentos trabalhados, mas para esse baixar de Samu é importante perceber os movimentos que Gabri Veiga ou Victor Froholdt. Numa marcação tão individual no meio-campo, tudo passa pela mobilidade e, na equipa do FC Porto, a mobilidade dos médios é fundamental para gerar os ataques.

Nesse sentido, Gabri Veiga atraía a marcação ao pedir bola aos centrais, surgindo depois Samu para receber. De imediato, o médio espanhol fazia o contra-movimento para voltar receber a bola de Samu e ficar de frente para o jogo. Esse movimento do ponta-de-lança do FC Porto atraía Buatu, acabando por originar espaço nas suas costas. Daí surgiu uma excelente oportunidade que acabou por não ser aproveitada pelo médio espanhol aos 33 minutos. Ainda assim, Samu Aghehowa acabou mesmo por dar alegria aos adeptos portistas ao minuto 37, depois de conquistar uma grande penalidade e, na marca dos onze metros, colocar os dragões em vantagem.

Outra das soluções na construção do FC Porto passava pela lateralização de Gabri Veiga quando Jakub Kiwior se movimentava para zonas interiores, permitindo ao médio espanhol receber algumas bolas no corredor com espaço. Esses movimentos geraram algumas dúvidas nas marcações do extremo gilista Murillo.

Nos ataques do Gil Vicente acabou por se destacar a capacidade nas triangulações entre lateral, extremo e um dos médios, fosse o interior do lado da bola ou Zé Carlos. Na primeira parte, porém, faltou alguma qualidade na definição, sobretudo na atração para um flanco para depois variar para o lado oposto e visar a baliza de Diogo Costa.

César Peixoto Gil Vicente
Fonte: Diogo Cardoso / Bola na Rede

Na segunda parte, César Peixoto voltou à fórmula que tem usado ao longo da época e colocou Santi Garcia mais à frente e Luís Esteves mais atrás, tendo em conta a desvantagem no marcador. O objetivo era ter mais qualidade na construção e, com a capacidade física e pressão de Santi Garcia, tentar recuperar a bola mais alto no terreno. No entanto, com o jogo novamente muito disputado, o Gil Vicente sofreu uma contrariedade aos 69 minutos, quando Martin Fernandez foi expulso após uma entrada sobre Thiago Silva, condenando as aspirações de uma possível reação. Com superioridade numérica, Martim Fernandes acabou por coroar uma exibição já de grande nível com um belíssimo golo de fora da área, e William Gomes fechou o resultado final.

É difícil encontrar palavras para descrever a solidez deste FC Porto e o mérito de Francesco Farioli nas dinâmicas impostas, difíceis de contrariar. Muito disso explica-se pela capacidade física dos jogadores, pela inteligência na leitura dos diferentes contextos do jogo e por dinâmicas com timings tão precisos. Já César Peixoto merece muito crédito pelo trabalho feito desde o início da temporada com o Gil Vicente, pelo planeamento desportivo e pelo desenvolvimento de um modelo de jogo claramente adaptado às características do plantel. São, claramente, uma das equipas mais sólidas e mais bem trabalhadas desta Primeira Liga.

Francesco Farioli FC Porto
Fonte: Diogo Cardoso / Bola na Rede

BnR na Conferência de Imprensa

Bola na Rede: Quando o Kiwior tem sido utilizado como lateral esquerdo, há partida não há tanta profundidade nesses corredor e é o Martim Fernandes quem tem assumido o lado direito, em detrimento do Alberto Costa. Gostaria de lhe perguntar o que porquê da aposta no Martim e se passa pelo jogo interior que o Martim oferece, e também pela largura e pelas projeções que tem conseguido dar ao corredor direito? Por outro lado, que diferenças identifica nas características de Martim Fernandes e Alberto Costa?

Francesco Farioli: Nós temos quatro laterais muito bons, mais o Kiwior, que também nos pode ajudar caso seja preciso nessa posição. Acho que, no lado esquerdo, com o Francisco Moura e o Zaidu, nós temos dois jogadores importantes em termos de capacidade física. Mas eles estão a trabalhar e a melhorar na capacidade de conectar em diferentes momentos, para ter boas decisões com bola. E, no lado direito, temos também dois bons laterais, dois jovens jogadores, ambos com uma grande capacidade física, diferentes nas suas características. Acho que o Martim é mais controlado, o Alberto é um jogador que nos dá uma energia extra no processo ofensivo. Ainda assim, ambos são realmente bons jogadores. Há, claro, pequenas diferenças entre eles. São dois jogadores que, defensivamente, são muito bons no 1×1, os quatro, aliás. Acho que, em termos de qualidade, nós temos opções alternativas e muito interessantes nas laterais e todos, quando estão no campo, com as suas características e o seu talento, acrescentam nuances diferentes ao nosso jogo.

Bola na Rede: Hoje o Santi García surgiu mais recuado no terreno na organização defensiva, em comparação com o Luís Esteves, algo que não tem sido tão habitual ao longo da temporada. No entanto, na segunda parte, o mister voltou a colocar o Santi na dupla com o Varela. Gostava de lhe perguntar o que motivou estas alterações? E por outro lado, como é que tentou contrariar o jogo apoiado do Samu que nos últimos jogos tem sido uma referência clara na construção de ataques do FC Porto.

César Peixoto: A ideia teve a ver com as diagonais dos jogadores do Porto. Quando a bola vai fora no Froholdt e no Gabri Veiga, eles fazem diagonais entre central e lateral, e a ideia era nós termos os nossos médios para os acompanhar neste jogo. E o Santi tem outro andamento, outras características que o Luís não tem, foi um pouco por aí que tomámos essa opção. Estávamos, para já, compactos e coesos, mas é verdade que nós ficamos mais fortes com bola com o Luís mais baixo. Ao intervalo já estávamos a perder e tornámos a equipa mais agressiva. O Santi também é mais agressivo na frente. A equipa entrou bastante melhor na segunda parte. O Luís não tem características para andar a fazer diagonais longas atrás dos médios. Foi tentar encontrar, dentro das características dos jogadores que temos, o melhor plano para nós conseguirmos fazer face a este Porto, que é uma equipa muito competitiva. Depois libertávamos ali o Samu para os nossos centrais. A ideia era ter os centrais para saltar quando o Samu baixasse para ligar jogo e os nossos médios a acompanhar os médios do Porto nas diagonais, para nós conseguirmos ser uma equipa compacta e agressiva, e nós conseguimos ter bola. Faltou-nos, na primeira parte, alguma ligação, alguma temporização do jogo com bola e alguma ligação, tirar do lado da pressão e chegar ao lado oposto. Na segunda parte, já o conseguimos fazer. Falei com eles ao intervalo e a equipa cresceu muito, e a equipa estava muito bem até ao momento da expulsão, mas são opções. Acho que a equipa fez um bom jogo, um jogo competitivo.

Rodrigo Lima
Rodrigo Limahttp://www.bolanarede.pt
Rodrigo é licenciado em Ciências da Comunicação e está a frequentar o mestrado em Gestão do Desporto. Trabalha na área do jornalismo desportivo, com particular interesse pela análise de futebol.

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