O Rio Ave é um histórico da Primeira Liga, habituado a realizar temporadas seguras no campeonato, conseguindo trazer alguns craques para Portugal, ou trabalhar elementos que já estavam em solo luso. É uma equipa simpática, menos para os grandes rivais locais: Varzim e Leixões. Os vilacondenses foram um dos mais recentes conjuntos a ser inserido em um conglomerado de equipas. Hoje em dia o futebol é cada vez mais um negócio, onde o lucro passou a ser o principal objetivo. Em certos casos, deixam-se os princípios de lado, perdendo-se a identidade.
Os vilacondenses não viveram uma situação fácil ao nível financeiro. Outrora o futebol era gerido por uma SDUQ (Sociedade Desportiva Unipessoal por Quotas), mas o momento aflitivo levou à conversão para uma SAD (Sociedade Anónima Desportiva), mudança apoiada pelos sócios, conscientes de que o clube corria risco de entrar em espiral negativa, como aconteceu a outros históricos. Em 2024, Alexandrina Cruz promoveu a venda de uma grande fatia desta SAD, permitindo a entrada de um investidor. Evangelos Marinakis, rosto reconhecido do futebol europeu, detentor do Olympiacos e do Nottingham Forest, viu em Vila do Conde uma oportunidade de negócio, de aumentar a sua rede e a sua influência. O empresário comprou 80% da SAD do Rio Ave por 20 milhões de euros, com vista a limpar as dívidas e a investir na equipa principal, procurando a longo prazo melhorar as infraestruturas.
Contar com um investidor é uma ‘faca de dois gumes’. Por um lado, passas a ter mais capital, por outro, deixas de ter a tua independência. O Rio Ave, a partir do momento em que 80% da SAD passou para as mãos de Evangelos Marinakis, viu-se ‘preso’ às vontades de uma pessoa de fora, que não tinha qualquer ligação com a instituição até à assinatura do contrato.


Os últimos meses têm mostrado qual o objetivo da nova estrutura do Rio Ave: transformar a equipa num exemplar clube satélite. O grego não ousou em colocar um ‘protegido’ no comando técnico. Sotiris Silaidopoulos está a viver a sua primeira experiência enquanto treinador sénior, depois de conseguir atingir o apogeu com os juniores do Olympiacos, conquistando uma Youth League. Além disso, Evangelos Marinakis transformou o Rio Ave numa autêntica ‘Sociedade das Nações’, com jogadores de todo o globo. Foram várias as fichas de convocados onde apenas existia um português: João Tomé. Contudo, em 2025/26 o plantel dos vilacondenses contou com qualidade, ainda que se entendia que muitos atletas estavam nos Arcos a prazo, principalmente os cedidos.
Contudo, foram dois jogadores que até janeiro representaram o Rio Ave a título definitivo que captaram a atenção de vários clubes nos últimos meses. As respetivas saídas levaram à indignação geral e espelham a situação do Rio Ave na rede de Evangelos Marinakis. Os vilacondenses viram Clayton Silva ser assediado no verão por Sporting e FC Porto. A resposta foi inflexível: 15 milhões de euros ou nada. Já em janeiro, André Luiz foi desejado pelo Benfica de José Mourinho. O estilo manteve-se, com alguns rumores a apontarem igualmente para os 15 milhões de euros e outros para os 20 milhões de euros, a cláusula de rescisão do extremo.
Nos últimos anos é habitual que os emblemas portugueses tentem aumentar as verbas pedidas a Benfica, Sporting e FC Porto, reduzindo a exigência para as instituições estrangeiras. Afinal, Clayton Silva e André Luiz poderiam deixar de ser opções vitais para Sotiris Silaidopoulos, transformando-se em rivais (em vendas, não existe a ‘cláusula do medo’). A postura dos nortenhos não foi de estranhar.


Contudo, Evangelos Marinakis preparou uma ‘surpresa’ para os adeptos do Rio Ave. Clayton Silva e André Luiz continuam a ser companheiros de equipa. Todavia, passaram a vestir as vestes vermelha e brancas do Olympiacos. Os brasileiros conseguiram assim uma ‘promoção’ dentro da rede do grego, que decidiu mover os dois atletas para o conjunto que luta pela Liga da Grécia. No entanto, não foram as saídas dos dois jogadores que mais chocaram, mas sim as verbas que chegaram aos cofres da turma de Vila do Conde.
Se a Sporting e FC Porto foram exigidos 15 milhões de euros por Clayton Silva, o Olympiacos acabou por contratar o jogador por apenas cinco milhões de euros. No caso de André Luiz, a mudança ficou bem longe dos 20 milhões de euros (por muito que a oferta do Benfica fosse a dois/três anos, não caindo o dinheiro na conta, no imediato): seis milhões e setecentos e cinquenta mil euros fixos, mais nove milhões e meio de euros em variáveis. É desconhecida a dificuldade do cumprimento dos objetivos, podendo alguns ser de fácil alcance, mas outros de difícil.
Naturalmente, os aficionados ficaram indignados. Evangelos Marinakis está numa situação complicada e a bancada dos Arcos não perdoou. Más vendas e resultados abaixo do esperado levam a contestação. No futebol é sempre igual, seja aqui ou na China. O Rio Ave perdeu contra o Arouca no último fim de semana por 3-0 e a reação foi imediata, com um coro de assobios e a lenços brancos para Sotiris Silaidopoulos. Essa partida ainda contou com Clayton Silva, que foi capitão, mas ficou em branco.


Porém, o mercado de janeiro dos vilacondenses contou com mais mexidas (e uma reduação brutal na estrutura), muitas delas absolutamente desnecessárias. Eric Moreira regressou ao Nottingham Forest. Já Nikos Athanasiou e Theofanis Bakoulas voltaram ao Olympiacos, sendo que o lateral esquerdo era um habitual titular. Jonathan Panzo despediu-se na fatídica partida contra o Arouca e assinou em definitivo pelo Birmingham City, emblema do Championship. Alfonso Pastor firmou com o Marítimo. Ainda assim, Evangelos Marinakis não deixou a equipa ao abandono, trazendo reforços:
- Ryan Guilherme (2,5 milhões de euros: Cruzeiro)
- Diogo Bezerra (2 milhões de euros: OFK Belgrado)
- Tamble Monteiro (2 milhões de euros: Portimonense)
- Jaden Blesa (1,7 milhões de euros: Cesena)
- Leonardo Buta (empréstimo: Udinese)
- Gustavo Mancha (empréstimo: Olympiacos)
- Ennio van der Gouw (empréstimo: Zulte)
Há qualidade nos nomes que chegaram aos Arcos. O problema? Quase todos terão que contar com um tempo de adaptação e se há algo que Sotiris Silaidopoulos parece não ter é tempo. Os resultados positivos são necessários para ontem e o Rio Ave perdeu os seus protagonistas e tem que moldar uma equipa à volta de outros atletas.


Evangelos Marinakis mostrou que não terá qualquer problema em retirar atletas vitais à sua equipa portuguesa para os levar a outros emblemas que domina. Torna-se previsível o que acontecerá no futuro com jogadores com Cezary Miszta ou Brandon Aguilera. A passagem de Tamble Monteiro, caso continue com a forma apresentada no Portimonense, será curta. Hoje em dia vemos o Rio Ave como um entreposto de jogadores e os adeptos detestam essa situação. O futuro promete ser para piorar, caso os exemplos dados nas transferências de Clayton Silva e André Luiz sejam para continuar.
Qual o futuro do Rio Ave? A resposta a curto prazo é simples. O objetivo passará pela manutenção na Primeira Liga, procurando promover mais alguns jogadores para vender no verão (tendo em conta que as ‘ofertas’ podem ser de Olympiacos e de Nottingham Forest). A longo prazo, a avaliação é mais complicada. O Rio Ave vive um problema grave há alguns anos, relacionado com as infraestruturas. O Estádio dos Arcos conta apenas com uma bancada desde 2020, quando a nascente foi demolida, devido a problemas estruturais. Ainda que o recinto continue a ter capacidade para mais de cinco mil adeptos, urge a reconstrução de uma nova bancada, modernizando a arena, levando mais adeptos ao futebol e evitando os ventos fortes que se fazem sentir em Vila do Conde (as famosas nortadas).


Com um estádio à altura do seu símbolo, o Rio Ave poderia dar o passo seguinte, conquistando um lugar entre os emblemas que disputam o acesso às competições europeias. Contudo, Evangelos Marinakis somente está disposto a atribuir um papel secundário ao clube dentro da sua rede e o seu desenvolvimento, naturalmente, irá atrasar-se.
O futebol moderno promete cada vez mais conglomerados de equipas. Em Portugal, a presença destes grupos chegou para ficar. A existência dos mesmos não traz nenhum mal, mas a gestão dos mesmos pode desvirtuar o desporto rei. Para que uns sejam protagonistas, outros têm que contar com um papel secundário. Há quem nem consiga um lugar no palco, limitando-se à existência. Qual a situação do Rio Ave? Somente Evangelos Marinakis o sabe, mas os adeptos não estarão dispostos a assistir a uma queda sem ruído.



