Um Clássico de guerrilha e de uma postura aquém | Sporting 1-0 FC Porto

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Sporting e FC Porto encontraram-se na noite de terça-feira, no terceiro embate entre os dois emblemas esta temporada. Contudo, esta partida tinha caraterísticas diferentes, em comparação com as outras. O duelo era relativo à primeira-mão das meias-finais da Taça de Portugal. Não é o mesmo jogar para o campeonato ou enfrentar um rival na prova rainha, numa eliminatória a duas mãos. Rui Borges e Francesco Farioli sabiam que esta era apenas a primeira parte, o primeiro frente a frente de um combate que prometia causar faísca.

Chegamos à conclusão no final dos 90 minutos, de que o Sporting no seu cômputo global foi superior, merecendo a vitória, ainda que o golo dos leões tenha surgido de uma grande penalidade. Uma partida marcada pelos duelos físicos, pelo pouco futebol jogado e pela má estreia de Cláudio Pereira em Clássicos. O nortenho perdeu rapidamente o controlo do jogo, num primeiro tempo que se arrastou bem para além dos 45’, devido aos pedidos de assistência, principalmente a Jan Bednarek, que sairia mesmo lesionado.

Naturalmente, com os ‘combates’ entre Jan Bednarek e Luis Suárez, Maxi Araújo e William Gomes ou Iván Fresneda e Pepê, levou a que Alvalade efervescesse, com o maior momento de tensão a surgir pouco antes do intervalo. Alberto Costa entrou de uma forma violenta sobre Geny Catamo e podia ter visto o cartão vermelho por acumulação. Morten Hjulmand acabou por ser o ‘sacrificado’. Para os leões, o capitão só faz o seu trabalho em falar com o árbitro. Para os dragões, o escandinavo pressiona em demasia.

William Gomes Luís Guilherme Maxi Araújo
Fonte: Carlos Silva / Bola na Rede

A primeira parte foi pouco rendilhada, em parte por culpa de Francesco Farioli. O técnico do FC Porto optou por um duplo pivot físico, sem capacidade de construção (Alan Varela e Seko Fofana têm outras valências), o que levava muitas vezes a que Pablo Rosario apostasse em bolas longas ou que Rodrigo Mora fosse obrigado a recuar bastante no terreno, para procurar jogo.

O italiano protegeu-se na segunda parte, colocando Victor Froholdt em campo, retirando o amarelado Alberto Costa, passando a ter uma linha defensiva composta por Pablo Rosario, Jakub Kiwior (que entrou para o lugar de Jan Bednarek), Alan Varela e Francisco Moura, levando a Pepê a atuar a ala direito, quando esteve na esquerda na primeira parte. Na construção, o argentino também subia em campo. O FC Porto apresentou-se com um esqueleto tático híbrido, mas que Rui Borges conseguiu entender com relativa facilidade. Aos 57’, entrada violenta de Seko Fofana (destaca-se essencialmente no momento de defender e de impor o seu corpo, em tudo o resto não é propriamente brilhante) sobre Morten Hjulmand e grande penalidade sem contestações.

Maxi Araújo e William Gomes
Fonte: Carlos Silva/Bola na Rede

Luis Suárez bateu e levou à euforia das bancadas. O colombiano obrigou novamente a que Francesco Farioli mudasse a tática, apostando num 4-2-3-1, colocando Oskar Pietuszewski à esquerda, Gabri Veiga no meio e Pepê à direita, com Victor Froholdt e Alan Varela no miolo. Possivelmente este é o melhor sistema para o FC Porto, quando Rodrigo Mora não está em campo. Ainda assim, o Sporting conseguiu fechar-se de forma certeira, com o marcador a não voltar a mexer.

Não foi um jogo belo, não entrará nos anais da história. Contudo, o pós-encontro exibe na perfeição o momento que vive o futebol português, que se alimenta de polémicas e ‘apodrece’ a cada semana que passa. Na conferência de imprensa, falou-se de tudo, menos de futebol. Cláudio Pereira virou o protagonista das críticas, Francesco Farioli apontou o dedo ao Sporting, afirmando que os leões nem sequer mereciam estar na fase de competição. Já Rui Borges, que já entendeu que a sua honestidade agrada aos adeptos do Sporting, assumiu que a seguir ao jogo foi comer uma canja, dando conselhos irónicos ao colega azul e branco. Uma troca de galhardetes que promete ter um novo capítulo, desta vez no Dragão.

Rodrigo Mora FC Porto
Fonte: Carlos Silva/Bola na Rede

Contudo, há que deixar mais uma crítica a Francesco Farioli. Tem todo o mérito de estar na liderança do campeonato, mas na noite de terça-feira não foi feliz. O seu FC Porto não esteve bem. O italiano chegou a Portugal depois de passagens por Ligue 1 e Eredivisie, onde convenceu a crítica, apesar da quebra do ‘seu’ Ajax. Todavia, a sua postura tem ficado aquém nas últimas semanas, especialmente neste tipo de jogos. Outrora, Francesco Farioli poderia ser visto como uma ‘lufada de ar fresco’, alguém que conseguia colocar as equipas a jogarem um futebol bonito de se ver e que teria a capacidade de não entrar em polémicas. Poderia ter mostrado na conferência de imprensa que queria mesmo falar de futebol, mas preferiu deixar críticas ao rival. A sua postura desiludiu.

A sua imagem está tocada (principalmente devido à menor qualidade de jogo que tem apresentado nas últimas semanas, em comparação com os primeiros jogos), mas enquanto o FC Porto vença, tudo bem. O problema é que frente ao Sporting perdeu. Rui Borges leu melhor o jogo. Se voltar ao registo que tinha no começo de temporada, seguramente ninguém se lembrará da sua postura na sala de imprensa de Alvalade.

Quando esta primeira parte da eliminatória julgava-se por terminada, foi a vez de André Villas-Boas e Frederico Varandas entrarem em ação. Os presidentes assumiram os microfones, atirando farpas, prometendo processos, citando momentos infelizes do passado. Não há nada que manche mais o futebol português que este tipo de comportamentos, provocados pelo calor do momento, pela defesa dos seus. Hoje em dia, quando se trata de Benfica, Sporting ou FC Porto, raramente se houve um ‘a vitória do outro foi justa’, apontando-se sempre o dedo a qualquer falha.

Francesco Farioli e Jan Bednarek
Fonte: Carlos Silva/Bola na Rede

A celebração de Luis Suárez passou a ser o tema central, numa partida que tinha outros pontos a discutir. A eventual expulsão de Alberto Costa passou a ser usada como arma de arremesso, quando deveria ser algo analisado apenas e só por Cláudio Pereira, que já terá retirado a sua conclusão em relação à sua decisão (para uns, certa, para outros, errada).

O Sporting x FC Porto não terminou às 23 horas, mas sim já depois da meia-noite, prometendo-se uma segunda-mão escaldante. Uma coisa é certa, se o cenário for semelhante (isto é, uma vitória com números tímidos), voltaremos a ter polémica, numa fase em que as duas instituições encontram-se com uma relação tremida, a fazer lembrar tempos do passado, quando André Villas-Boas era o rosto da oposição, que prometia tornar os azuis e brancos em algo diferente.

Seko Fofana FC Porto
Fonte: Carlos Silva/Bola na Rede

BnR NA CONFERÊNCIA DE IMPRENSA

Bola na Rede: Na segunda parte, o FC Porto fez várias mudanças na linha defensiva. Taticamente, como é que o plano de jogo ofensivo do Sporting variou face aos ajustes do FC Porto?

Rui Borges: Não variou muito, porque o FC Porto, apesar das modificações, não mudou nada na sua estratégia. Mudou depois do 1-0, quando o Gabri Veiga passou para dentro. Meteu o Pepê a jogar a lateral, podia ganhar ali alguma intensidade, mas o Alberto [Costa] é também um lateral muito intenso no processo ofensivo. Em termos de meter um extremo de raiz depois do 1-0, acho até nos beneficiou um bocadinho daquilo que era marcações. Sabíamos que tínhamos ali duelos 1v1 e tínhamos de ser competitivos. O Iván [Fresneda] fez um belíssimo jogo nesse sentido. Mais do que as modificações da segunda parte, a única mudança mesmo já vinha desde o início, com o homem da esquerda a entrar para dentro, a cortar campo, a tentar sair das marcações, a deixar dúvidas entre a linha média e a linha defensiva. A equipa esteve muito bem, em termos comunicativos principalmente na linha defensiva. Ganharam, sim, algum tempo no processo de construção, tiraram-nos timings de pressão, mas não nos criaram nada com essa mudança estratégica.

Ricardo João Lopes
Ricardo João Lopeshttp://www.bolanarede.pt
O Ricardo João Lopes realizou a sua formação na área da História, mas é um apaixonado pelo desporto (especialmente pelo futebol) desde criança, procurando estar sempre a par da atualidade.

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