Franjo Ivanovic | O que se passa?

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Franjo Ivanovic chegou este verão à Luz num negócio de 23,8 milhões de euros pagos no imediato e que poderá acrescer aos 28,8 milhões de euros, mediante o cumprimento de objetivos. No entanto, o avançado croata vestiu a camisola do Benfica durante apenas 1151 minutos esta temporada, totalizando 34 jogos (até ao momento) e onde apenas foi titular por 12 ocasiões. Nestes poucos minutos, soma cinco golos e duas assistências pelo clube encarnado. Estamos perante um encaixe financeiro elevado para o clube que não representa uma aposta desportiva. Porquê?

Recorde-se que, aquando da sua chegada ao clube, Bruno Lage tinha em mente uma dupla com Pavlidis e assim foram os primeiros jogos de Ivanovic de águia ao peito. Sob o comando do antigo treinador do Benfica, esta dupla pareceu desconectada e atrapalhada. Mais concretamente, ficava a sensação que a presença de um anulava a presença do outro e que o encaixe futebolístico não era natural.

Franjo Ivanovic Benfica
Fonte: Carlos Silva / Bola na Rede

Com a chegada de José Mourinho, esta dupla foi-se dissipando, com Pavlidis a assumir a titularidade e Ivanovic a ter um papel cada vez mais secundário até roçar o inexistente, como tal foi em Barcelos, onde mesmo um Pavlidis desgastado não foi suficiente para o avançado croata ganhar um lugar no banco de suplentes. Mais recentemente, os minutos que vimos de Ivanovic dentro de campo até foram como extremo esquerdo, algo já também experimentado por Mourinho, onde acredito que a ideia seja ter Ivanovic a atacar o espaço a partir da ala esquerda- excetuando, pois bem, o clássico deste fim de semana, onde Ivanovic voltou a formar dupla com Pavlidis, embora acredite que assim tenha sido fruto do contexto do jogo.

Ironicamente, o jogo onde o croata jogou sozinho enquanto número nove da equipa, foi frente ao Napoli, numa vitória caseira do Benfica por duas bolas a zero e numa das melhores exibições coletivas da temporada, onde o avançado fez um bom jogo, mas que não teve continuidade.
Recorde-se que Ivanovic estreou-se pelo Benfica frente ao Nice, num jogo a contar para a 3.ª pré-eliminatória de acesso à Liga dos Campeões. O avançado marcou nesse jogo e o golo chamou-me à atenção: desde a forma como se movimentou para ganhar as costas ao defesa opositor (que até podia ter feito melhor) até à forma como se lançou para finalizar, apanhando o guarda-redes em contra movimento.

Franjo Ivanovic Benfica
Fonte: Carlos Silva / Bola na Rede

Avançando um pouco no tempo, lembro-me do golo que marca frente ao AFS, no jogo de re-estreia de José Mourinho no banco vermelho e branco, onde responde a um cruzamento com um movimento de corpo subtil para tirar o defesa do caminho e encontrar espaço para o remate. Claro, estes foram jogos contra equipas muito inferiores ao nível do Benfica e são apenas dois momentos, mas que valem um par de apontamentos:

Primeiro, é importante perceber que ambos os golos são provenientes de cruzamentos para a área à procura do avançado. Perante estes estímulos, Ivanovic reagiu com movimentos de ataque ao espaço onde a bola mais provavelmente iria cair e onde poderia ter o melhor remate possível naquelas situações específicas, seja ao atacar as costas do defesa, seja ao simular um remate para forçar o defesa a reagir. Um avançado faz-se dentro de área e este tipo de movimentos são também puro instinto, e a partir daqui posso começar a formar o perfil do atleta; no entanto, a amostra ainda é pouca.

O tópico do perfil do jogador é pertinente, porque acredito que muitos de nós partimos de um preconceito mal formado sobre o jogador e julgamo-lo sob uma ideia que está errada desde o princípio. Concretizando, quando vimos um avançado alto e forte fisicamente a chegar à Portugal, nasceu a crença imediata de que seria um avançado com um perfil contrário ao Pavlidis e que, ao invés de descer no terreno e ligar o jogo como faz o grego, pressionasse a linha defensiva contrária e fosse uma constante ameaça de ataque ao espaço.
Talvez até, inconscientemente, vimos Ivanovic como um jogador parecido a Gyokeres e não nos apercebemos que é mais parecido com Pavlidis do que com outro avançado da realidade do campeonato português.

Sergi Gómez Alverca
Fonte: Carlos Silva/Bola na Rede

Em boa verdade, Ivanovic é um jogador que se sente confortável em baixar para receber, tal como o grego, mas que prefere rodar e acelerar. Ao contrário de Pavlidis, não se sente confortável em estar de costas para a baliza e em ligar o jogo com os companheiros- tem outro tipo de perfil, um perfil que exige uma dupla com outro avançado capaz de pressionar e fixar a linha contrária, e que talvez não seja tão móvel.

Isto não é propriamente equivalente à descoberta da pólvora, Ivanovic já era este jogador no Royale Union Saint-Gilloise e atuava sobretudo como segundo avançado, numa parceria com Promise David. Transformá-lo num avançado de ataque ao espaço é possível, mas trabalhoso e contra intuitivo ao perfil do jogador.

Quando fez dupla com Pavlidis, era muitas vezes o grego que fazia movimentos de ataque à profundidade enquanto o croata baixava no terreno, mas também Pavlidis não se sentia confortável nesse papel, porque baixar no terreno para ligar o jogo também lhe é natural.

Neste momento, Franjo Ivanovic é insuficiente num esquema onde seja o único avançado e o seu perfil é incompatível com Pavlidis. Talvez a sua utilização como extremo esquerdo tenha por base os princípios de um avançado interior, mas continua ineficaz perante a falta de largura, uma vez que Dahl não é forte nesse momento do jogo.

Assim sendo, a conclusão possível é que Ivanovic não joga porque o seu perfil não complementa nem é complementado pelos seus colegas de equipa.

Assumindo que esta tese está correta, resta deixar a pergunta para debate: por que se pagou 30 milhões por um jogador que não fala a mesma língua futebolística que o resto do plantel?

Rui Gonçalves
Rui Gonçalves
Licenciado em Sociologia, o Rui Gonçalves aborda o futebol dentro e fora das quatro linhas. Através de um olhar crítico, escreve sobre tática, gestão desportiva e os seus impactos individuais e sociais.

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