Martín Anselmi continua a provar ser impossível escapar da tirania do karma. Desde que saiu como saiu do México, a carreira do argentino tem seguido linha trágico-cómica: as peripécias no Dragão, culminadas pela incapacidade colectiva para competir em jogos de grande responsabilidade, repetiram-se no Rio, ao comando dum ‘Glorioso’ Botafogo que com ele ao leme foi tudo menos isso.
A aventura durou três meses, 18 jogos dos quais venceu sete e sofreu 21 golos. Lá como cá, as supostas ousadias tácticas revelaram-se maioritariamente como caos impraticável, desorganização, passividade. O Botafogo, já aos cambaleios com Renato Paiva ou Davide Ancelotti, caiu finalmente com Martín ao leme. De ganhar a Libertadores em 2024, passou a eliminado antes da fase de grupos duas edições depois.
Mas, acrescentarão os mais justos, Anselmi mete-se sempre nos desafios mais duros. Não se coíbe de entrar num Porto a meio da época e em reconstrução – acreditando ele poder ser o responsável pela mesma, interpreta-se disso grande dose de coragem… – e não faz cara feia a um convite de John Textor.
Uma semana depois de assumir o Botafogo, a FIFA lançaria uma proibição de inscrever jogadores ao clube por dívidas na transacção de Thiago Almada. O transfer ban, além de impedir Anselmi de usufruir de plenos direitos na escolha das peças, ainda bloqueou a utilização dos já contratados Wallace Davi, Ythallo e Villalba. A situação só se resolveria a 6 de Fevereiro, mais de um mês depois.
Entretanto, o Carioca até tinha começado como previsto, com sucessos naturais face a adversários de menor nomeada. Na primeira jornada do Brasileirão, no penúltimo dia de Janeiro, veio o 4-0 ao Cruzeiro e parecia que o técnico argentino era o homem certo, que o projecto tinha pernas para andar.
Ninguém adivinharia o que se seguiria. Da euforia caiu-se rapidamente no marasmo, com a série de seis derrotas nos seis jogos seguintes: eliminação no Estadual, a tareia sofrida às mãos de Luis Castro (num 5-3 em casa do Grémio) ou a derrota frente ao Nacional de Potosí, na preliminar da Libertadores. O balão, a meio de encher, rebentara. John Textor elegera Anselmí como o oitavo treinador da sua constituída SAF (Sociedade Anónima de Futebol em vez das nossas Sociedades Anónimas Desportivas) desde 2022. Homem polémico, explosivo, impulsivo, sabia-se que não hesitaria fazer cair a guilhotina. Pior deve ter ficado quando viu o treinador com dificuldades em lidar com a pressão a seguir a uma derrota com o Flamengo, quando desistiu de tentar explicar as intenções táticas daquela noite – recordando um episódio com Bruno Lage.
«No jogo passado, em nenhuma partida jogámos com três centrais. Contra o Potosí, Mateo Ponte defendeu como lateral, jogámos com quatro defesas. Hoje aconteceu o mesmo. Hoje explicar não tem sentido. Por mais que eu explique, nós perdemos. Então sou burro. Sou burro porque perdemos. É a verdade. Quando a equipa perde, o treinador é um burro. Os adeptos dizem que sou um burro».
Mas em finais de Fevereiro as coisas melhoraram. As melhoras da morte, mas à altura não se sabia. Conseguiu conquistar a Taça Rio, prémio para os eliminados nos Quartos do Carioca, e remontou com o Nacional de Potosí. Vinha à tona respirar – mas, como na piada dos golfinhos, rapidamente submergiu, com o colapso frente ao Barcelona de Guayaquil, perdendo a segunda mão no próprio Nilton Santos. Os 32 mil presentes cantaram no final que aquele era uma «equipa sem vergonha»…
Seis meses separaram a vitória frente ao campeão europeu da queda para a segunda competição de clubes continental, face a um equatoriano Barcelona que alcançava a sexta vitória em solo brasileiro em 36 tentativas (e antes de 2017, registava uma só). Era mesmo uma questão de tempo para Anselmi.
Como no Dragão, a principal acusação a Martín foi a dificuldade em ser pragmático, em construir a partir de trás – a primar pela segurança defensiva em momentos de maior urgência para depois, sim, implementar o estilo com que levou o Independiente Del Valle à conquista da Sudamericana ou com que ia levantando o Cruz Azul. Em circunstâncias difíceis, Anselmi pensou novamente que a força das suas ideias faria a equipa transcender tudo isso. Preferindo levar avante a sua filosofia que proteger-se com o resultadismo, o romântico caiu. Enquanto fã assumido de Marcelo Bielsa, pensou o jovem de 40 anos que a loucura seria a solução para o desnorte, que começou logo no primeiro momento. Os mais supersticiosos conjuraram logo profecia autorrealizável.
Mas há elogios a fazer, obviamente, que nem tudo pode correr mal. Anselmi conseguiu potenciar Danilo e levá-lo à Canarinha, merecendo dos jogadores palavras de agradecimento. Na antevisão do jogo frente à Croácia, o centrocampista disse que se sentia «à vontade» para ser segundo médio, já que vinha cumprindo esse papel com o «antigo treinador, Anselmi». A transformação do trinco em médio área-área deu-lhe projecção ofensiva e capacidade de concretização, pelo menos o suficiente para ser, por esta altura (final de Março), o segundo melhor marcador do Brasileirão com cinco golos, a um do líder Carlos Vinícius (sim, o do Benfica).
O inevitável despedimento lá se consumou. Como o que começa mal tarde ou nunca se endireita, reflectiu-se o caricato da primeira conferência com uma sucessão de declarações. Depois de ganhar na Bragança paulista ao clube da Red Bull, conseguindo a segunda vitória em seis jornadas de Brasileirão, Anselmi era um homem aliviado, tentando passar mensagem de conforto e segurança.
«Qualquer treinador sabe perfeitamente quando não tem o apoio dos jogadores e aí não podes continuar a trabalhar no clube. Se o jogador não acredita, não há nada a fazer. Se estou aqui, e tenho isso muito claro, é algo que sei, é porque a nossa relação, o nosso trabalho e o nosso dia a dia com os jogadores e com a Direção são top. Trabalhamos todos os dias para ser melhores. O nosso foco é no rendimento, em melhorar, e aí acontecem coisas boas. Jogadores na seleção, coisas individuais… Isso também acontece. Só sei que estou orgulhoso e é um prazer trabalhar com eles.»
Regressou tudo às suas casas, dormiu-se bem pela primeira vez em semanas, e o sol deve ter raiado novamente cintilante. Mas nas primeiras notícias do dia, vinha em destaque um comunicado. «O Botafogo anuncia que o argentino Martín Anselmi não é mais o treinador da equipa principal. A decisão foi comunicada ao profissional na manhã deste domingo (22). Embora tenhamos grande apreço por Anselmi e pela sua equipa técnica, além de muito respeito pela sua dedicação e ética de trabalho, não vimos a evolução, o progresso e os resultados que esperamos de um clube campeão, e acreditamos que uma mudança é necessária para atingir os nossos objetivos nesta temporada e além. Dessa forma, o Clube seguirá por outros caminhos no seu projeto desportivo. John Textor e o Departamento de Futebol estão no mercado em busca de um novo treinador para os desafios da temporada 2026. Rodrigo Bellão, treinador da equipa Sub-20, assumirá o comando do plantel de forma interina. O plantel alvinegro irá reapresentar-se aos treinos na próxima terça-feira (24), no CT do Botafogo. O Botafogo agradece…»

