O Sporting entrou em campo com plena noção de que o Santa Clara não seria um adversário fácil de ultrapassar. Os açorianos vinham de um bom momento e os leões passaram por sérias dificuldades para ultrapassar os insulares nos últimos confrontos, marcados por erros de arbitragem e um aumento do clima de guerra no futebol português (situação não entusiasmada pelo conjunto de Santa Clara, mas sim por outros protagonistas).
O Santa Clara mostrou para o que vinha e logo aos 3’ colocou-se em vantagem por Gustavo Klismahn, gelando Alvalade. A turma de Petit encerrou as suas linhas e baixou no terreno, procurando apenas sair pelo contra-ataque, já que contava com extremos velozes, com relativa capacidade no um para um. Todavia, a resposta do Sporting chegou. À direita, Geny Catamo conquistou uma grande penalidade a Guilherme Romão e Pedro Gonçalves não perdoou no frente a frente com Gabriel Batista, aos 22’. Bola para um lado, guarda-redes para o outro. O internacional português, que aparentemente não foi usado na seleção por opção de Roberto Martínez, substituiu Luis Suárez neste capítulo e cumpriu.


Se o empate surgiu à direita, a tranquilidade foi dada pela esquerda e o primeiro golo contou com um protagonista especial. Foi Daniel Bragança quem celebrou, mas também foi Daniel Bragança quem produziu a jogada, tal como foi Daniel Bragança a combinar com Pedro Gonçalves e Rafael Nel. Uma jogada de bom futebol, sem grandes remendos, mas tremendamente eficaz. Tudo graças à qualidade do médio. Com Morten Hjulmand a ser ficar no banco, Rui Borges lançou o jogador de 26 anos, que hoje em dia é um médio área a área como poucos: boa capacidade de transporte, aparecimento certeiro em zonas de finalização, associativismo com os colegas, ‘vontade’ de ir buscar jogo atrás. Daniel Bragança foi o motor da equipa nesta partida e deixa-nos a pensar onde poderia chegar se não fossem as lesões graves. Olhando para o futuro, da forma como lê o jogo, será um grande treinador. É desfrutar do número 23.
Se aos 39’ se deu esta explosão de alegria, o que dizer do minuto 42? Passe de morte de Hidemasa Morita, rotação só ao nível dos melhores de Francisco Trincão e remate certeiro contra Gabriel Batista. Os adeptos do Sporting foram para o intervalo mais descansados, enquanto que o Santa Clara procurava soluções para voltar a ter esperanças. Os açorianos na segunda parte conseguiram a espaços o domínio do jogo e criaram um burburinho entre os aficionados. A certa altura do encontro, a turma de Rui Borges estava condicionada a sair em contra-ataque, dependentes da velocidade de Souleymane Faye para tentar chegar ao último terço do rival. O extremo entrou na segunda parte e voltou a não aproveitar a oportunidade. Cada vez mais as comparações com Alisson Santos são inevitáveis. O brasileiro entrava e mexia com o jogo. O senegalês não o consegue ainda fazer. É um jogador esforçado, mas limitado. Ainda não se percebe bem quando é que pode ser útil para o Sporting, já que quando o rival está em bloco baixo, o mesmo fica sem espaço, mas quando parte para o contra-ataque, perde praticamente todos os duelos com os rivais.


Souleymane Faye custou mais de seis milhões de euros e veio de uma realidade completamente distinta. O Granada de Pacheta vivia um momento terrível, deixava-se dominar e o extremo era a solução para tentar criar perigo. O jogador passou para um contexto diferente, passou para o dominante e abandonou o dominado. Será uma questão de falta de adaptação ou simplesmente não tem qualidade para vestir a camisola verde e branca? O atleta terá que convencer a crítica no final da época, porque seguramente vão haver mexidas na sua posição, com a provável chegada de Yeremay Hernández (esse sim, outra loiça). Terá que provar que consegue fazer algo mais do que correr com a bola de maneira a transportá-la para a metade do terreno do adversário.
Gonçalo Paciência marcou o 3-2, aos 89’, depois de um tento lhe ter sido anulado pouco antes, aos 82’. O avançado português é útil neste estilo de equipas e poderia inclusivamente ter sido titular. Mexeu com o jogo e deu esperanças à sua equipa. Rafael Nel acabou com as mesmas. Chegou a hora de escrever sobre a nova coqueluche dos leões. O jovem foi o eleito para ocupar o lugar de Luis Suárez no onze inicial e cumpriu. A equipa técnica apostou num 9 fixo, descartando colocar Pedro Gonçalves na posição. A decisão não poderia ter sido a melhor. O ponta de lança é associativo, disputa bola, dá-se bem com os colegas dentro de campo. A assistência para Daniel Bragança é o espelho do seu jogo. Não apareceu muito, mas quando o fez, demonstrou qualidade. Ainda que esteja longe do nível de Luis Suárez, mostrou que é um avançado em crescimento e que pode perfeitamente substituir o colombiano, embora os adeptos tenham que ter em conta que existem dias maus. Este foi um dia muito positivo, que culminou com o golo no seu aniversário, aos 90+6’. Ainda que tenha recebido a bola com espaço, Rafael Nel mostrou a frieza necessária para bater Gabriel Batista, guardião que conhece bem todos os avançados da Primeira Liga.


Uma vitória do Sporting com pouca contestação, mas que levou a que existisse ruído. André Narciso não encantou com a sua arbitragem. Porém, Petit, que até poderia ter um ou dois lances de queixa, não apresentou um discurso agressivo no pós jogo (Gonçalo Paciência tomou outra atitude), preferindo apreciar o mesmo, esclarecendo o que faltou à sua equipa e o que é que a própria fez bem. Foi o Benfica e o FC Porto que se insurgiram contra a equipa de arbitragem, mantendo o baixo nível que existe aos dias de hoje no futebol português. Se as águias já transformaram num hábito utilizar as redes sociais como um meio para apresentar os erros dos outros (esquecendo os seus), os dragões juntaram-se a este tipo de manifesto, que só aumenta o clima de ódio e não traz qualquer resultado de positivo.
Depois de uma semana marcada por um Fórum da ANTF onde se tentou discutir o que se passa dentro do campo, André Villas-Boas e Frederico Varandas ‘roubaram’ os microfones e apresentaram discursos de um tom questionável após uma reunião com a ministra. Estes postos foram só a cereja no topo de bolo. Enquanto houver disputa pelo título, este tipo de táticas vai continuar. Infelizmente, este clima só vai melhorar quando acontecer uma desgraça, uma daquelas a sério, que não pare apenas o futebol, mas sim todo o país e que traga os holofotes mundiais para Portugal, de maneira a entender o que se tem passado por aqui.


Bola na Rede na Conferência de Imprensa
Bola na Rede: O Sporting marcou dois golos perto do final da primeira parte a partir de dois lances pela esquerda, com combinações entre vários jogadores por essa banda. Pergunto-lhe que lacunas encontrou no Santa Clara para explorar com mais força o flanco esquerdo e se a presença de Daniel Bragança nas dinâmicas por esse lado do terreno foi fundamental para que o seu plano funcionasse.
Rui Borges: Não são algumas lacunas. O Santa Clara estava defender num 4x4x2 pouco intenso, no que era acelerações para pressionar. Dava-nos muito tempo para encaixar o meio campo ofensivo. À direita, tínhamos dupla largura e ele estavam mais preocupados em sair em contra-ataque rápido. No segundo momento deixou de olhar para as referências. O Vagiannidis podia ter criado superioridades pela direita. O Geny e o Trincão também passaram a ocupar espaços por ali. O Santa Clara viu os centrais a demorarem algum tempo a alargarem, nós sabíamos que quando a bola entrasse em largura, se houvessem acelerações interiores, podíamos criar perigo por essa demora. Na primeira parte criámos por essas zonas por essa forma. O Dani marca um golo pela esquerda. Ele e o Morita acabam por dar um pouco o que Morten dá com bola: clareza, tranquilidade. A linha defensiva sente confiança a olhar para os jogadores que estão ali. Eles têm capacidade de jogo curto, de jogo longo. O Dani é um pouco mais dinâmico do que se estivesse o Morten. São jogadores diferentes, apesar de que com bola dão coisas parecidas em alguns momentos. O Dani dá essa maior mobilidade e fico feliz por ele. Tem crescido imenso e tem-se tornado um jogador diferente do que aquilo que ele era, na minha opinião. É um jogador importante e é reconhecido por todos a sua qualidade. Fico feliz por vê-lo voltar num bom momento, depois de uma longa paragem. É mérito dele e é continuar o caminho.
Bola na Rede: O Santa Clara ganhou cedo a vantagem, mas o Sporting deu a volta ainda antes do intervalo. O que é que acha que falhou no seu plano para se manter na frente do marcador?
Petit: Nós sabíamos que o Sporting é uma equipa com boas dinâmicas, já jogam juntos há algum tempo. Quando há a grande penalidade e fazem o 1-1, sabíamos que iam carregar ainda mais. Nós recuámos muito na parte defensiva, os nossos dois médios estavam muito afastados dos centrais e o Sporting entrou ali com tabelas e consegue fazer o 2-1 e o 3-1. Nós tentámos corrigir e os centrais tinham de encostar mais tanto no Trincão como no Pote como no menino que estava na frente [Rafael Nel], porque é fácil entrar em tabelas e eles começaram a encurtar, mas nesses cinco minutos [entre o 2-1 e o 3-1] foi na zona central que podíamos ter encurtado mais essas tabelas do Sporting.

