Há algo de profundamente estranho, e, ao mesmo tempo, fascinante, na tabela classificativa da Premier League em 2025/26. Olhar para a zona de descida e encontrar nomes como o Tottenham, o West Ham, o Wolverhampton e o Burnley não é apenas surpreendente… é um sinal claro de que algo alucinante está a acontecer no futebol inglês.
Vamos por partes, para não ferir suscetibilidades.
Durante anos, o Tottenham foi visto como o eterno candidato a intrometer-se no “top 4” por ser uma equipa de futebol ofensivo, com identidade, estádio moderno e ambição europeia. O West Ham viveu recentemente noites europeias memoráveis e parecia ter consolidado um projeto competitivo. O Wolves afirmou-se como uma equipa sólida, com forte presença portuguesa e capacidade para incomodar os grandes. E o Burnley, mesmo com as suas oscilações, representava uma ideia clara de jogo, quase teimosa, mas eficaz em determinados contextos.
Então, o que mudou? Como é que clubes com esta história recente se encontram agora a lutar desesperadamente pela sobrevivência?


No caso do Tottenham, a instabilidade parece ter-se tornado regra. Mudanças constantes de treinadores (como referi a meio da época a corda no pescoço de Thomas Frank), apostas falhadas no mercado e uma perda progressiva de identidade. Será que o clube nunca recuperou verdadeiramente da saída de figuras-chave dos últimos anos? Ou terá sido uma gestão desportiva errática que minou qualquer hipótese de continuidade? É lógico que a saída de Harry Kane foi talvez o ponto de rutura mais evidente. Durante anos, foi o rosto, o capitão e a principal referência ofensiva. Mas também o adeus a outros jogadores de elite pode ajudar a perceber a queda astronómica deste clube histórico (e de Champions League).
O West Ham levanta outra questão interessante. Depois do sucesso europeu, a conquista da UEFA Europa Conference League em 2023, será que terá havido uma espécie de “ressaca competitiva”? A exigência aumentou, mas a profundidade do plantel não acompanhou essa ambição. Ou estaremos perante um caso clássico de ciclo que terminou sem que o clube tenha percebido o momento certo para se reinventar?
Já o Wolves parece preso entre dois mundos: nem a equipa sólida de outros tempos, nem um projeto renovado com rumo claro. A dependência de determinados perfis de jogadores, como Rúben Neves, que foi durante anos o cérebro da equipa, e cuja saída deixou um vazio difícil de preencher. Há, por isso, um problema evidente de construção de plantel. O Wolves entrou na época com lacunas claras no meio-campo, precisamente na zona onde outrora mandava, e não as conseguiu resolver. Depois há ainda um segundo fator, menos evidente, mas igualmente determinante, que pode ser chamado de “fim do “modelo Wolves” “. Durante anos, o clube beneficiou de uma ligação muito forte ao mercado português e a uma rede de scouting muito específica. Jogadores chegavam com perfil definido, encaixavam rapidamente e elevavam o nível competitivo. Mas esse modelo começou a esgotar-se.
E o Burnley, talvez o caso mais paradigmático da dureza desta liga. Um clube que tentou modernizar-se, mudar o seu estilo, mas que com isso perdeu aquilo que o tornava distintivo. Vale a pena abandonar uma identidade forte em nome de uma ideia mais “atrativa” se isso significa perder competitividade imediata?


Todos estes clubes conheceram a glória de serem chamados “clubes de Premier”, mas a verdade é que esta época estão mais perto de conhecerem o reinado do Championship, do que voltarem a usar esse emblema. Mas calma, porque apesar de não ter referido o Notthingham Forest, não está totalmente livre do perigo (mesmo com a melhoria significativa de Vítor Pereira).
A verdade é que a Premier League sempre foi imprevisível, mas nunca foi tão exigente como agora. A distância entre o meio da tabela e a zona de descida é mínima, mas a qualidade média subiu drasticamente. Clubes tradicionalmente mais pequenos estão melhor organizados, mais bem treinados e com acesso a recursos que antes eram impensáveis.
Hoje, qualquer deslize prolongado pode ser fatal. No fundo, a luta pela manutenção destes clubes é também um aviso. No futebol moderno, ninguém está imune. Nem mesmo aqueles que, até há pouco tempo, pareciam demasiado grandes para cair.

