Olhar tático ao FC Porto x Sporting: o papel das marcações individuais, a pressão alta dos dragões e a dupla largura dos leões

- Advertisement -

O Sporting garantiu a presença na final da Taça de Portugal pela terceira vez consecutiva, depois de ter empatado com o FC Porto no Estádio do Dragão (0-0), no jogo da segunda mão da meia-final da prova rainha. Tendo em perspetiva a vantagem de um golo que os leões traziam da primeira mão, era esperado que os dragões assumissem as rédeas do jogo para virar essa desvantagem, como Francesco Farioli já tinha referido em conferência de antevisão.

Assim sendo, o FC Porto entrou logo a pressionar à entrada da área do Sporting, sendo percetível a aposta em Deniz Gul novamente para melhorar esse momento de pressão, em detrimento de Terem Moffi. Em 2+4 ou 2+3, dependendo do posicionamento de Alberto Costa, os dragões quiseram orientar a pressão para o lado direito, lado de Diomandé e Eduardo Quaresma, e fechar o espaço de Gonçalo Inácio/Zeno Debast, tendo em conta a sua capacidade com bola e importância na construção da equipa de Rui Borges.

Com marcações homem a homem e a todo o campo, como habitual, Oskar Pietuszewski pressionava rapidamente Eduardo Quaresma, e atrás Jakub Kiwior em Geny Catamo. Do lado direito, e para elevar a pressão, Alberto Costa pressionava Maxi Araújo e Jan Bednarek ajustava em Geovany Quenda. Esta pressão do FC Porto foi condicionando o Sporting em alguns momentos, que apenas foi encontrando espaço na primeira parte através das movimentações de Geovany Quenda e Geny Catamo, a aparecer em ruturas de fora para dentro.

Em organização defensiva, os azuis e brancos foram iguais a si próprios através de um 5-4-1 numa zona mais baixa do terreno, e destacou-se sobretudo a marcação individual de Pablo Rosário a Francisco Trincão. E porquê destacar esta marcação individual, se o FC Porto, como tantas vezes acontece no seu jogo, já pressiona homem a homem? Porque, pela mobilidade de Francisco Trincão, a aparecer em zonas centrais e pelo corredor direito, o acompanhamento constante de Pablo Rosário poderia ser uma chave para o jogo do Sporting. Mas já lá vamos.

FC Porto x Sporting Thiago Silva
Fonte: Diogo Cardoso / Bola na Rede

Com bola, o FC Porto tornou-se muito dinâmico, seja pelo corredor central, como pelo corredor lateral. No corredor lateral, as várias trocas posicionais nos corredores, sobretudo entre Alberto Costa, Victor Froholdt e William Gomes, foram criando algumas dúvidas nas referências do Sporting. Com o médio dinamarquês a lateralizar, o lateral português a movimentar-se por zonas interiores e o extremo brasileiro a procurar a largura, o FC Porto foi chegando ao último terço.

Ainda assim, o destaque acabou por ser no corredor central, onde Francesco Farioli acabou por ser inteligente na forma como abordou esse momento. Os médios interiores, Victor Froholdt e Gabri Veiga, quando o FC Porto iniciava a construção, juntavam-se muitas vezes à última linha de ataque, colocando-se no lado cego de Morten Hjulmand e Hidemasa Morita e gerando dúvida nos médios do Sporting. Isto porque, se os médios leoninos acompanhassem esses movimentos e ficassem na mesma linha dos médios do FC Porto, iriam afundar demasiado o bloco e criar distanciamento entre setores.

Assim, Morten Hjulmand e Morita foram gerindo esse espaço, mas os médios interiores do FC Porto souberam baixar no momento certo para receber e combinar, sobretudo em triangulações por dentro. Esse movimento, muitas vezes da frente para trás, permitiu aos dragões encontrar espaço no corredor central, com Gabri Veiga em destaque pela forma como criou dificuldades a Hjulmand.

Outra das surpresas acabou por ser o posicionamento muito projetado de Jakub Kiwior. Aquando dos onzes iniciais, era expectável que o defesa polaco não subisse tanto e que o FC Porto construísse mais vezes com uma linha de 3, dando a profundidade a Alberto Costa. A realidade, porém, foi outra. Jakub Kiwior apareceu muitas vezes em terrenos interiores dos dragões e até junto da última linha de ataque do FC Porto. Mesmo sem grande impacto no momento ofensivo com bola, foi criando dúvidas nas referências defensivas do Sporting.

Maxi Araújo Sporting x FC Porto
Fonte: Diogo Cardoso / Bola na Rede

Do lado dos leões, em organização defensiva, Rui Borges voltou a utilizar o 4-4-2 em bloco médio, como já tinha acontecido nos últimos jogos diante do FC Porto, com a primeira linha de pressão do Sporting a mostrar-se muito competente nas tarefas defensivas. Francisco Trincão e Luis Suárez não assumiram uma pressão muito intensa sobre os centrais, ficando sobretudo focados em Pablo Rosário e nas possíveis bolas que pudessem entrar no médio da República Dominicana, de forma a travar as triangulações.

Tendo em conta a mobilidade que o FC Porto apresentou através de Jakub Kiwior, Alberto Costa, Gabri Veiga e Victor Froholdt, os médios do Sporting foram assumindo referências individuais quando estes estavam próximos das suas zonas de atuação. No entanto, largavam esses duelos quando os jogadores do FC Porto se deslocavam para zonas mais adiantadas ou exteriores, de forma a não saírem do seu raio de ação.

Na pressão alta do FC Porto, e como Rui Borges explicou na resposta ao Bola na Rede, o Sporting utilizou a dupla largura no lado esquerdo para sair dessa pressão dos dragões. Com Geovany Quenda na dupla largura e Maxi Araújo mais baixo para receber, o objetivo passava por criar dúvida nos saltos de Alberto Costa ao lateral uruguaio. Em posse, procuravam também aproveitar as descidas de Luis Suárez, enquanto Geovany Quenda aparecia nas costas para criar perigo na transição. Ainda assim, foi do lado direito que Geny Catamo foi encontrando espaços nas costas de Jakub Kiwior, colocando o defesa polaco em algumas dificuldades no controlo dessa profundidade na primeira parte.

Com Pablo Rosário em marcação individual a Francisco Trincão, sinto que o Sporting poderia ter aproveitado melhor esses arrastos para explorar o espaço que ia surgindo, não só no corredor central, mas também entre central e lateral. Com Trincão a juntar-se muitas vezes ao corredor direito e Pablo Rosário a acompanhá-lo em determinados momentos, Hidemasa Morita poderia ter sido determinante nas movimentações de trás para a frente, procurando o espaço que foi aparecendo com Alberto Costa e Kiwior por vezes mais subidos no terreno. Estaria aí o ouro do Sporting para ferir o FC Porto, mesmo sem jogadores com características para percorrer grandes distâncias em velocidade em direção à baliza de Diogo Costa.

Rui Borges Sporting
Fonte: Diogo Cardoso / Bola na Rede

Na segunda parte, o Sporting utilizou mais Rui Silva para sair da pressão do FC Porto, com o guarda-redes a esperar mais tempo para soltar a bola no momento certo e começar a bater a pressão individual dos azuis e brancos. Com a saída de Morten Hjulmand, Hidemasa Morita caiu para o meio dos centrais para construir a três e Eduardo Quaresma teve mais segurança para se projetar no corredor direito.

Com o FC Porto mais subido e à procura do golo do empate na eliminatória, os leões voltaram a encontrar algum espaço entre central e lateral. Ainda assim, com o ímpeto do FC Porto, o bloco mais baixo do Sporting e a falta de frescura física dos homens da frente, tornou-se difícil sair em transições. Nesse sentido, teria colocado Luís Guilherme mais cedo para explorar esse momento de transição, através da velocidade do extremo brasileiro. Com o decorrer dos minutos, Geny Catamo também acabou por descair e formar uma linha de 5 quando o Sporting não tinha bola, com o intuito de reforçar os corredores laterais.

Já o FC Porto, com o Sporting a não pressionar os centrais dos dragões, acredito que a equipa de Francesco Farioli poderia ter aproveitado melhor as conduções dos defesas centrais para criar superioridades e obrigar o Sporting a pressionar e abrir espaço. A ida de Pablo Rosário para central terá sido pensada para potenciar essa saída de bola (como já tinha sido visível no último jogo frente ao Tondela), mas faltaram ainda mais conduções e progressão com bola. Isto porque a subida de Alan Varela para o meio-campo ‘obrigou’ muitas vezes o FC Porto a procurar o jogo direto para as entre linhas.

Não foi um dos clássicos mais bonitos em termos de futebol, mas foi interessante perceber como Francesco Farioli e Rui Borges tentaram, com as suas armas, levar o jogo para o seu lado. Ainda assim, o FC Porto acabou por ser a melhor equipa durante o encontro, faltando maior definição no último terço, onde Rui Silva também teve um papel importante ao fechar os caminhos da baliza do Sporting. Elogiar o trabalho destes dois treinadores e das épocas muito competentes que Rui Borges e Francesco Farioli têm feito à frente das equipas, com a chegada aos quartos de final das competições europeias, com o Sporting a conseguir chegar à final da Taça de Portugal e a lutar ainda pelo título da Primeira Liga, e com os dragões perto de voltar a conquistar o Campeonato Nacional ao fim de três épocas.

Rodrigo Lima

Francesco Farioli FC Porto
Fonte: Diogo Cardoso / Bola na Rede

BnR na Conferência de Imprensa

Infelizmente, não foi possível colocar uma questão a Francesco Farioli, treinador do FC Porto.

Bola na Rede: O FC Porto iniciou o encontro com uma pressão logo à entrada da área do Sporting, num 2+4, com Alberto Costa a saltar na pressão ao Maxi. Gostaria de lhe perguntar de que forma tentou bater essa pressão do FC Porto. Por outro lado, de que forma é que o Sporting procurou beneficiar da marcação individual de Pablo Rosario a Francisco Trincão?

Rui Borges: É algo expectável, é algo que o Porto faz sempre. Acho que o Porto, 95% dos jogos roda à direita com o Alberto. Hoje, claramente, por a equipa percebia-se que ia rodar à direita porque jogou o Kiwior a lateral esquerdo. É um central adaptado. Sabíamos que era o que já nos tinha acontecido noutros jogos contra o FC Porto. Sabíamos que o Pablo Rosário ia andar atrás do Trincão, por isso, o Quenda na largura, dava-nos dupla largura, prendia mais um pouco o Alberto, dava-nos o Maxi Araújo mais baixo para sair sobre a pressão da direita do FC Porto. Alargava o central do FC Porto mais para corredor, não tem tantos hábitos a lateral, é natural, e conseguimos várias, já instalados tentar mudar comportamentos. Andar Maxi dentro e Quenda fora, Quenda dentro e Maxi fora, foi o que aconteceu na primeira parte. Enquanto tivemos essa energia boa, fizemos uma grande primeira parte em termos daquilo que era a qualidade de jogo ofensivo e com as dinâmicas que tínhamos de perspectiva.

Rodrigo Lima
Rodrigo Limahttp://www.bolanarede.pt
Rodrigo é licenciado em Ciências da Comunicação e está a frequentar o mestrado em Gestão do Desporto. Trabalha na área do jornalismo desportivo, com particular interesse pela análise de futebol.

Subscreve!

Artigos Populares

Eis o golo de Stopira que sentenciou o apuramento do Torreense para a final da Taça de Portugal

Stopira fechou a vitória do Torrrense sobre o Fafe por 2-0. Encontro decidiu o último finalista da Taça de Portugal.

Eis a data da final da Taça de Portugal entre o Sporting e o Torreense

Já está definida a final da Taça de Portugal, que será jogada a 24 de maio. Sporting e o Torreense têm duelo marcado no Estádio do Jamor.

Há novidades importantes sobre João Palhinha: português pode ficar na Premier League

João Palhinha pode manter-se no Tottenham, já que o emblema de Londres está satisfeito com o seu rendimento.

Eis os 6 destaques da vitória histórica do Torreense sobre o Fafe que mete o clube na final da Taça de Portugal e no...

O Torreense venceu o Fafe por 2-0 e está no Jamor. Eis os seis destaques do jogo da meia-final da Taça de Portugal.

PUB

Mais Artigos Populares

Atenção: Benfica quer manter Nicolás Otamendi

Nicolás Otamendi está em final de contrato com o Benfica, mas o conjunto encarnado gostaria de manter o jogador.

Tiago Tomás dá a passagem ao Estugarda para a final da Taça da Alemanha

O Estugarda recebeu e venceu o Friburgo por duas bolas a uma, conseguindo o apuramento para a final da Taça da Alemanha.

David Bruno marca grande golo e mete Torreense a vencer o Fafe e mais perto da final da Taça de Portugal

David Bruno marcou um golo na ressaca de um cruzamento e meteu o Torreense a vencer o Fafe. Encontro decide o último finalista da Taça de Portugal.