É Taça de Portugal, ninguém leva a mal | Torreense

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Foi um Carnaval diferente em Torres Vedras o de 2026. Com o país mergulhado num rastro de destruição sem precedentes na memória coletiva deste século, as celebrações foram adiadas e a festa que deixa a cidade do Oeste longos dias sem dormir foi adiada. As celebrações de algo que pretende relembrar o Carnaval, mas que, inevitavelmente, nunca o será estão para breve, mas antes dessas, a cidade teve outra festa: a da Taça. Culpa do Torreense, claro, que numa quinta-feira à rua chamou o fogo-de-artifício, os cânticos e as buzinadelas à rua para uma celebração de um feito tão histórico como a chegada ao Jamor. Como diz o ditado, é Taça de Portugal, ninguém leva a mal.

Independentemente do desfecho, o jogo daria à Prova-Rainha um finalista que explica o carinho e, de certa forma, o carácter nobre e real da competição. Torreense da Segunda Liga e Fafe da Liga 3 disputavam o bilhete para o Jamor, esse palco emblemático onde não existe David que não ouse sonhar com um Golias, onde não há grandes nem pequenos e onde a festa assume sempre o papel de protagonista. Calhou, desta feita ao Torreense. Era o melhor clube no papel e, com as fichas apostadas na segunda mão, comprovou o favoritismo com uma vitória contra um Fafe resiliente, capaz de defender bem e de levar o jogo até horas tardias.

Há, no Torreense, uma noção de projeto que se estende a todos os parâmetros. Na última época, por exemplo, o conjunto de Torres Vedras foi ao Jamor vencer o Benfica no feminino. Também há um ano, Luís Tralhão festejou em Famalicão a conquista da Liga Revelação, não ousando sequer sonhar no que o esperaria um ano depois. Quando assim o é e os pés e a cabeça estão assentes na terra e focados no próximo passo, tudo é uma consequência e não uma obra do acaso. Dentro de campo, foi isso que aconteceu.

Torreense Jogadores
Fonte: Carlos Silva / Bola na Rede

Antes dos feitos do Torreense, os mais importantes dado o resultado e a historicidade do momento, com o regresso à final da Taça de Portugal precisamente 70 anos depois de uma presença inédita, há que salientar os méritos do Fafe. Não há, também, grande aleatoriedade num clube capaz de superar três adversários da Primeira Liga na mesma campanha e que ousou sonhar com a chegada ao Jamor. A moldura humana preencheu toda uma bancada e foi recompensada pelo espírito da equipa, evidente na forma como os jogadores se compactaram em campo. Defensivamente, o 4-3-3 dava lugar a um 5-4-1 bem organizado. Filipe Cardoso, capitão da equipa, recuava para a linha defensiva, permitindo maior segurança e coberturas à equipa. Foi uma exibição, até onde deu, bastante competente dos defesas do Fafe, fortes e contundentes nos duelos e com capacidade para não deixar ao Torreense espaços a explorar. Sem bola, entre a clarividência e procura de Carlos Daniel na condução e a batalha constante de João Santos com os defesas, nomeadamente com Mohamed Ali-Diadié, foram dando aberturas em transição, insuficientes ainda assim para levar sorrisos maiores para o Norte de Portugal.

A vitória sorriu ao Torreense que, em campo, fez o suficiente para a alcançar. O golo aos 84 minutos, com um remate pleno de intenção e de sentido estético de David Bruno, provando que a violência também pode ser bela se for bem aplicada resolveu as contas da eliminatória. Depois do golo de uma vida, quando levou Cabo Verde ao Mundial 2026, Stopira ainda teve tempo para, de penálti, dilatar a vantagem, quando os descontos já iam bem longos. Não deixa de ser uma das histórias mais bonitas da época, a do veterano central. Para lá do simbolismo do roteiro, há garantias táticas e estratégicas, já comuns a toda a temporada, que abrem horizontes ao Torreense.

Entre estas, nenhuma tão evidente como a dinâmica forte à esquerda. É certo que os momentos-chave do jogo – quer o golo de David Bruno, quer a grande penalidade conquistada por Musa Drammeh – surgem à direita, mas foi o lado esquerdo quem mais em evidência esteve. De resto, e para comprovar esta afirmação, até o priemiro golo surge por este corredor, pelo mais consistente e deslumbrante dos jogadores do Torreense: Javi Vázquez.

Javi Vázquez Torreense João Oliveira Fafe
Fonte: Carlos Silva / Bola na Rede

O Torreense luta pela promoção à Primeira Liga e o lateral esquerdo espanhol tem ambições naturais e mais condizentes à sua real capacidade em dar o salto. É um lateral com múltiplos recursos ofensivos e uma veia inspirada quando se trata de cruzar. Toma boas decisões no último terço e junta a capacidade de perceber onde colocar a bola à habilidade para a deixar no sítio certo redondinha. Não se inibe ainda de jogar por dentro nem de combinar com os colegas e está confortável com a bola sob o seu controlo. A dupla com Dani Jean é uma das fortalezas do Torreense. O extremo do Haiti, com naturais esperanças em estar presente no Mundial 2026, complementa a regularidade do espanhol. Não se inibe de partir para cima do adversário e conjuga a irreverência nas intenções com a potencia física nas ações. Não receia o choque, procura a velocidade e tem capacidade técnica para driblar e conduzir em velocidade.

Nesta dinâmica, não é possível esquecer, acima de tudo, os movimentos de apoio dos médios, particularmente de Alejandro Alfaro, o mais polido tecnicamente. Num meio-campo a funcionar em três alturas e com três funções distintas – Léo Silva mais posicional e focado no equilíbrio, Alfaro mais móvel e procurando circular em torno da bola e André Simões a procurar jogar mais próximo do avançado, com ruturas e pisando a área – o espanhol conseguiu criar situações de vantagem para o Torreense aproveitar. No seu jogo de aproximações à esquerda e ruturas, mesmo sem o espaço que o torna mais determinante, Kévin Zohi procurou combinações com Dani Jean que levassem a equipa de Luís Tralhão para a área.

Quer na primeira, quer na segunda, o lado esquerdo destacou-se. A maior diferença, em benefício com o Torreense, entre as duas partes tem duas justificações simples. A primeira, toca em nomes como o próprio David Bruno, mas, principalmente, Luis Quintero. Com o lado direito também mais envolvido, multiplicaram-se as ameaças em campo. O pé esquerdo do colombiano tem um requinte que não é assim tão comum numa Segunda Liga. Depois, e mais determinante, a altura das recuperações do Torreense. A segunda parte foi jogada no meio-campo adversário e houve mais investidas travadas por essas bandas. Consequência disso, o Torreense montou o cerco à baliza do Fafe, ganhou mais tempo de bola no pé e cresceu no jogo. Não tanto como cresceu depois do apito final, numa festa bonita de registar e, certamente, de celebrar para as gentes de uma terra que tanto sofreu neste ano.

David Bruno Torreense
Fonte: Carlos Silva / Bola na Rede

Daqui a um mês, haverá nova festa antes do jogo. Depois do jogo, será mais complicado, mas o futebol são 11 contra 11. Não havendo a Alemanha, será o Sporting um rival que permita contrariar a lógica? Só o retângulo e o que lá dentro for feito conseguirá responder.

BnR na Conferência de Imprensa

Bola na Rede: Do ponto de vista tático, quais considera terem sido as chaves da vitória e pedia um comentário à exibição da ala esquerda do Torreense, muito envolvida no jogo, particularmente nos momentos de maior superioridade na primeira e na segunda parte?

Luís Tralhão: Em termos estratégicos e no que preparámos para o jogo, acabou por não ser uma surpresa a maneira como o Fafe se iria apresentar. Já se tinha apresentado desta forma na primeira mão. Defendem num bloco muito compacto, muito junto, fecham muito o jogo interior. Também não nos deram muito espaço na profundidade. Sabem perfeitamente que somos uma equipa que gosta de atacar a profundidade e temos jogadores rápidos. Nesse sentido, tiraram-nos essas armas e tivemos de fazer um jogo mais pausado e mais equilibrado, variar entre jogo interior e exterior e às vezes colocar uma bola na profundidade. Na primeira parte não conseguimos fazer isso com a velocidade que gostávamos, também por muito mérito do Fafe. Sabíamos que eles iam sair rápido em transição e eles assim o fizeram. Tiveram uma ou duas ocasiões durante o jogo e podiam ter marcado. É o dilema de uma equipa que gosta de dominar o jogo e sabe que a qualquer momento pode deixar de ter o jogo controlado, porque pode levar um contra-ataque e numa transição uma bola dar golo. Do ponto de vista tático, na segunda parte fomos mais intensos e recuperámos mais vezes e mais rápido a bola mais à frente, o que nos permitiu estarmos mais perto da baliza. Relativamente ao lado esquerdo, quem nos tem acompanhado sabe perfeitamente que o Javi [Vázquez] e o Dani [Jean] têm um entendimento quase de olhos fechados, não só esta época, mas que já vem da época passada. O envolvimento do ponta de lança e do médio daqueles lado também foi bem conseguido para pô-los em condições de fazer as combinações que eles fazem.

Mário Ferreira, treinador do Fafe, não deu conferência de imprensa.

Luís Tralhão Torreense
Fonte: Carlos Silva / Bola na Rede
Diogo Ribeiro
Diogo Ribeirohttp://www.bolanarede.pt
O Diogo tem formação em Ciências da Comunicação, Jornalismo e 4-4-2 losango. Acredita que nem tudo gira à volta do futebol, mas que o mundo fica muito mais bonito quando a bola começa a girar.

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